OPINIÃO

A vizinha

17/03/2014 16:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

No final de dezembro, notei que ela já não me permitia observar o sobrado, onde vivem uma avó, a filha e a neta, do outro lado da rua. E mais: ela tornara impossível a tarefa de olhar livremente para a loja de informática e a pizzaria logo abaixo. Mas não pense que o caso aqui é o de uma nova vizinha indesejada. Trata-se talvez de um monumento à resistência.

Quando a Prefeitura de São Paulo plantou aquela árvore em um cercadinho de terra no meio da calçada, alguns anos atrás, ninguém dava nada pelo exemplar. Porém, ela derrubou todas as desconfianças. Está alta, esguia e, de maneira elegante, toca as paredes do edifício em que moro, na Aclimação. A essa altura, transformou-se inclusive em fonte de sombra do local de descanso de "seu" Severino, único funcionário do prédio.

A janela do quarto de meu apartamento, no segundo andar, é o ponto ideal para ver o cenário. A árvore espalha-se no ar, ramifica-se, infiltra-se em meio aos fios pretos - e alguns metálicos - de alta tensão. Funciona até como uma cortina natural a resguardar do trânsito da via.

Se eu soubesse pintar, já a teria retratado. Se eu conseguisse fotografar direito, já o teria feito. Assim, peço que desculpem minha ignorância. Agora, só posso exprimir surpresa.

Nos momentos em que paro de procurar notificações virtuais, novas em sites de notícia ou os motivos do aparente sumiço de uma amiga minha, encontro a árvore de braços abertos a quem quiser vê-la. Com todas as suas folhas e sua paleta de verdes, que parte do oliva, passa pelo desbotado e chega ao brilhante e real esverdeado.

A cada vez que volto à janela, eu me surpreendo. Mesmo à noite é bom dar uma olhada nela para apreciar as nuances da paisagem e espairecer a mente.

Óbvio que, nascido e criado na megalópole, não faço a mínima ideia de qual tipo de árvore seja aquela. Ainda liguei para a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para tentar descobrir, mas eram necessárias mais informações além do endereço (como o ano no qual foi plantada). A única coisa que sei, portanto, é o fato de ter ganhado uma vizinha de janela, morando bem pertinho. E tal novidade é ótima.

Não é todo dia que a natureza surge, literalmente, palpável em São Paulo.