OPINIÃO

Quem a homotransfobia não matou hoje no Brasil?

01/05/2015 18:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
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"Hoje completo 5 dias de vida! Tenho absoluta certeza que nasci de novo! Sou a única sobrevivente e a prova viva contra o assassino e serial killer Alex Lopes Alê. Não quero vingança! Quero justiça! E também faço questão de queimar a cara deste lixo para ninguém mais ser enganada por este monstro!" (sic), escreveu a sobrevivente Camily* em seu perfil no Facebook no dia 29 de abril sobre Alexandre Lopes de Pádua Arcenio, de 31 anos, professor de crossfit acusado de matar três mulheres, sendo uma delas, uma mulher trans.

Depois de estar na 1ª Delegacia de Homicídios do Paraná, em Curitiba, para reconhecer o acusado que aparecia nas imagens da segurança dos prédios onde fez suas vítimas, Camily, uma mulher trans de 22 anos, escreveu o seguinte: "Segunda [25 de abril] quando fui fazer o reconhecimento deste assassino eu olhava ele tão tranquilo, estava tranquilo até de mais! Eu senti uma angústia tão grande e ao mesmo tempo senti pena! Como pode um ser humano ser tão frio??? Como que pode ter esta coragem? Destruir famílias! Acabar com vidas e sonhos de tantas pessoas? Provavelmente pelas olheiras escuras e pretas ele não conseguia dormir em paz!" (sic).

O professor de crossfit Alexandre Arcenio buscava suas vítimas através de aplicativos de relacionamento. Segundo o relato de Camily à polícia, ele foi "bonzinho" o tempo inteiro, acariciou-a e beijou-a no rosto antes de aplicar o "mata leão", técnica de estrangulamento que não deixa marcas. "Ele não satisfeito mesmo após ter me desmaiado pega uma toalha e me enforca com toda sua força... Depois dele ter feito isso foi até a sala pegou minha carteira com dinheiro, documentos... Levou também meu relógio e até um pincel de blush kkk para dar para a namorada rs E chaveou a porta e achou que tivesse me matado" (sic).

Camily é uma rara exceção, uma das poucas sobreviventes dos homotransfóbicos que estão à solta nos aplicativos, na internet, nas ruas. Teve a sorte de não acrescer o número assustador de crimes desta natureza no país. A realidade atual é de que a cada 27 horas uma pessoa LGBT é assassinada no Brasil, segundo dados estatísticos do relatório de 2013 do Grupo Gay da Bahia (GGB), ONG que publica relatórios anuais sobre casos de homicídios contra membros da população LGBT, na ausência de dados oficiais das autoridades brasileiras. O número é alarmante e pior, a situação é tratada com descaso pelo governo, que não apresenta nenhum tipo de inclinação em tornar a questão um caso de segurança pública.

No ano de 2014, de acordo com o relatório do GGB, foram documentados 326 assassinatos de gays, transgêneros e lésbicas, um aumento de 4,1 % em relação ao ano anterior (313 assassinatos). Em um quadro mais abrangente, os números mostram que 50% dos assassinatos de transexuais e travestis registrados em todo o mundo aconteceram no Brasil. Só em janeiro do ano passado foram assassinados 42 LGBTs, uma média de uma morte a cada 18 horas.

Em números absolutos, os estados de São Paulo (50 mortes) e Minas Gerais (30 mortes)tiveram os maiores números de LGBTs assassinados, porém em termos relativos, Paraíba e Piauí e suas respectivas capitais, são os locais que oferecem maior risco a população LGBT. No Brasil como um todo, os LGBT assassinados representam 1,6 de cada um milhão de habitantes, na Paraíba esse risco sobe para 4,5 e 4,1 para o Piauí.

Durante décadas, a região Nordeste foi a de maior incidência de crimes homofóbicos, mas pela primeira vez em 2014, o Centro-Oeste emerge como a região mais intolerante, com 2,9 de homicídios de LGBTs para cada 1 milhão de habitantes. O ranking das regiões é completado pelo Nordeste (2,1), Norte (1,5), Sudeste (1,2) e Sul - a região menos violenta, com 0,7 mortes. São Paulo e Goiás foram os estados que revelaram o maior aumento destes crimes, respectivamente de 29 para 50 e de 10 para 21, enquanto Pernambuco e Rio Grande do Sul diminuíram. No Centro Oeste, o Mato Grosso do Sul foi o estado mais violento, (3,8 por milhão de habitantes) e o Distrito Federal, o que registrou proporcionalmente menor número de mortes (1,0).

A violência contra a população LGBT vem crescendo de forma incontrolável no país. Segundo o professor Luiz Mott, fundador do GGB e coordenador da pesquisa há mais de três décadas, nos 8 anos do governo Fernando Henrique Cardoso foram documentados 1023 crimes homotransfóbicos, uma média de 127 por ano. No governo de Lula o número subiu para 1306, com média de 163 assassinatos por ano. Em apenas 4 anos do governo de Dilma Rousseff, os crimes já atingiram a cifra de 1243, com média de 310 assassinatos anuais. Esses dados fazem com que o Brasil continue sendo o campeão mundial de crimes homotransfóbicos, segundo agências internacionais.

"Os crimes contra LGBTs desafiam a imaginação sociológica devido a sua imprevisibilidade: há estados que num ano matam-se mais gays, no outro, mais travestis; em janeiro de 2014 foram assassinados 45 lgbt, caindo para 17 em fevereiro, perfazendo uma média de 27 mortes mensalmente, sem possibilidade de interpretar-se cientificamente tal oscilação; enquanto nos anos anteriores sempre prevaleceu o uso de armas brancas na execução dos homicídios, nesse ano dominaram as armas de fogo. Ninguém consegue explicar tais oscilações anuais", comenta Mott.

É óbvio que o problema transcende a questão da segurança pública e se aloca, principalmente, nas questões de educação, informação e legislação. Este último ponto, por si só, pode ser um grande inibidor dos crimes já que a criação de leis que protejam as pessoas LGBT acabam promovendo a cidadania dessa parcela da população. Isso, aliado a educação nas escolas e campanhas de conscientização do governo, podem mudar radicalmente o cenário sangrento no qual estamos imersos atualmente. Não precisamos apenas de leis que acentuem a punição dos homotransfóbicos, como acontece com a Lei do Feminicídio sancionada pela presidente em março deste ano. Precisamos de leis que asseguram garantias básicas à pessoa humana na condição LGBT, como um nome reconhecido, direitos civis igualitários, atos homotransfóbicos devidamente criminalizados.

A nossa sociedade ainda está criando pessoas doentes, que somatizam seus preconceitos seus medos e terminam, muitas vezes, por levá-los a cabo com a morte. Sabiamente, Mott lembra que os próprios gays, lésbicas e trans devem evitar situações de risco, não levando desconhecidos para casa e acertando previamente todos os detalhes da relação. "A certeza da impunidade e o estereótipo do gay como fraco, indefeso, estimulam a ação dos assassinos", salienta.

O caso de Camily é uma possibilidade remota de se repetir diante da atmosfera de violência e do número de homens, que assim como Alexandre Arcenio, faz com que a homotransfobia deixe um rastro de morte profundo no Brasil. As palavras de Marcelo Cerqueira, presidente do GGB traduzem melhor um cotidiano que estamos longe de mudar: "Ser travesti já é um agravante de periculosidade face à intolerância machista dominante em nossa sociedade, e mesmo quando um gay é morto devido à violência doméstica ou latrocínio, é vítima do mesmo machismo cultural que leva as mulheres a serem espancadas e perder a vida pelas mãos de seus companheiros".

*Camily pediu para que seu nome fosse alterado.