OPINIÃO

O que o silêncio fez por mim

Passei dez dias em total isolamento em curso de Vipassana, antiga técnica de meditação da Índia.

19/04/2017 00:30 -03 | Atualizado 20/04/2017 13:25 -03
Spanic
Blogueira relata sua experiência em curso de Vipassana, técnica de meditação indiana.

Foram dez dias de total isolamento e autoconhecimento, sem lembrar o tom da minha voz, sem nenhuma tecnologia, livros ou bloco de notas, onde a única fala era o silêncio do meu coração.

Ficar sem comunicação física e verbal, em busca do silêncio da mente, foi um verdadeiro desafio. Foram dez dias de curso Vipassana, com nove horas de meditação por dia, sentada na mesma posição, com pausas somente para as refeições e um breve descanso.

Vipassana, que significa ver as coisas como elas realmente são, é uma das técnicas mais antigas de meditação da Índia. Foi redescoberta por Buda Gotama há mais de 2.500 anos e visa à total erradicação das impurezas mentais, resultando na suprema felicidade.

Cheguei no local do curso apenas com roupas e objetos de higiene pessoal. Minha vestimenta era a mais simples e confortável possível. Jóias e bijuterias eram proibidas.

Nos três primeiros dias, a instrução era se dedicar apenas à observação da respiração, "anapana", para que a mente ficasse mais aguçada. A partir do quarto dia, observaria as sensações corporais, "vipassana".

Por meio da meditação Vipassana é possível atingir as camadas mais profundas da mente e com isso descobrir as causas de vários problemas e pensamentos negativos provenientes de três principais causas: desejo, aversão e ignorância.

Era impressionante como os meus pensamentos fluíam, minha mente criava histórias e diálogos, era uma explosão de sensações e lembranças, tanto positivas, quanto negativas.

A regra era clara: apenas observe. Todo pensamento e sensação é impermanente "anicca", da mesma forma que eles surgem, eles também desaparecem.

O segundo dia, o mais difícil para mim, foi marcado por uma dor imensurável, a dor nas costas era quase que insuportável, minha vontade era de desistir, mas o professor dizia: "a dor é passageira, seja forte, mantenha-se forte, com forte determinação".

Os dias se passavam e a dor ia diminuindo. Não sentia vontade de falar, o silêncio da minha mente fez que as sensações, os pensamentos e os sentimentos ficassem cada vez mais claros, me sentia cada vez mais liberta e em paz.

O grupo composto por mais ou menos 90 pessoas era dividido entre homens e mulheres, o contato com o sexo oposto era proibido.

No refeitório, a alimentação era 100% vegetariana e as pessoas sentavam-se de frente para a parede, uma ao lado da outra, de modo que não houvesse interação.

Fiz o curso duas vezes; o primeiro concluí na Índia e o segundo no Brasil, onde também trabalhei como voluntária na cozinha. Ambas as experiências foram intensas e muito ricas.

O total de dez dias de meditação me permitiu observar meus pensamentos de forma mais clara e objetiva. O silêncio me trouxe uma paz inexplicável. Já dizia Goenka, "você é dono do seu próprio futuro, que todos os seres sejam felizes".

Se eu faria o curso outra vez? Definitivamente sim.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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