OPINIÃO

Eu, Marco Feliciano, um avião e um documentário

19/04/2016 11:20 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Na noite de 25 de junho de 2015, eu observava o movimento no aeroporto de Brasília à procura de algum rosto conhecido do mundo da política, quando levei um susto. A poucos metros de mim, na mesma fila de embarque, uma figura de terno brilhoso e cabelos penteados para trás ao melhor estilo leãozinho dedilhava tranquilamente seu smartphone, sem notar os olhares de asco que a fulminavam.

Era o deputado federal Marco Feliciano, ícone da bancada evangélica no Congresso Nacional e uma das figuras mais controversas do já controverso cenário político brasileiro.

Era o sétimo gol da Alemanha para mim: naquele mesmo dia, eu havia passado cerca de quatro horas esperando pelo parlamentar em seu gabinete, sob a promessa de que ele enfim daria a entrevista para o documentário que eu estava produzindo. A conversa havia sido agendada antes, mas a rotina de votações do Legislativo e um dedo de má vontade da assessoria do deputado frustrariam minhas intenções. Desisti.

No aeroporto, os equipamentos de filmagem na minha mala transitavam em algum lugar ao qual eu não tinha acesso. Só me restou então ouvir alguns passageiros do voo murmurando de que a presença ilustre justificaria um oportuno desastre aéreo.

Para o meu bem, a praga não pegou e, dias depois, eu veria que entrevistar Feliciano ali não seria necessário. Assistindo às filmagens da minha passagem pelo Congresso, vi que os momentos que registrei dele, como uma simples conversa à espera do elevador, seriam reveladores o suficiente para a ideia que eu tinha de filme: tentar retratar a presença dos evangélicos na política por um ângulo diferente do que já havia sido feito.

A ideia de Púlpito e Parlamento surgiu no final de 2014, quando dois evangélicos na corrida presidencial, Marina Silva e Pastor Everaldo, evidenciavam a presença de um dos maiores grupos religiosos do país na busca pelo poder. Em jornais e debates internet afora, choviam opiniões e teorias sobre o que representaria para o país ter um chefe do Executivo com a Constituição embaixo de um braço e a Bíblia embaixo de outro.

Como integrante de uma família evangélica da periferia de São Paulo e estudante de jornalismo na fase final do curso, resolvi fazer um documentário sobre o tema. A ideia era traçar uma linha que partisse da minha casa e chegasse até o Congresso Nacional, buscando entender como o discurso político nasce, cresce e se fundamenta entre os evangélicos no país.


Depois de dez meses de produção e com quase 30 horas de gravação em três cidades diferentes (Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo), o filme retrata desde líderes cristãos que encampam verdadeiras frentes de batalha na defesa dos direitos humanos até parlamentares que dedicam seus mandatos a pregar a famigerada "cura gay".

Alguns deles se destacaram neste domingo (17) ao atribuir a Deus a decisão de votar favoravelmente ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O carioca Cabo Daciolo, por exemplo, que profetizou o fim da maior emissora de televisão do Brasil e do mandato de Eduardo Cunha durante a sessão, já havia sido expulso do PSOL por propor que a Constituição declarasse "todo poder emana de Deus" em vez de "todo poder emana do povo".

Apesar de encontrar todos os esteriótipos de deputados evangélicos que a mídia não se cansa de reforçar, minha busca foi realizar uma análise particular, pela minha origem evangélica, e diversa, porque não há como ser simplista ao tentar retratar um grupo com 40 milhões de pessoas espalhadas em incontáveis denominações diferentes, cada uma com códigos culturais, sociais e políticos próprios.

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Há, no entanto, muito mais questões a serem tratadas sobre esse assunto, das quais o filme (ainda bem) jamais dará conta. Essa incompletude de uma obra com pouco mais de uma hora só pode ser resolvida individualmente, na análise diária das características de um país que pode ser tudo, menos simples.

Ainda assim, acredito que ele pode ajudar a dar um pequeno impulso rumo à diminuição das polarizações e dos reducionismos que nos cercam, independente do lado que escolhemos nos inúmeros muros que são erguidos todos os dias à nossa frente.

Se ele terá o êxito esperado ou não, só mesmo o tempo e os espectadores irão dizer.

Mesmo assim, já fico feliz por ao menos a rota Brasília-São Paulo ter sido feita sem nenhuma turbulência.

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Confira trechos do filme e a agenda de exibições na página do Evangélicos na Política

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