OPINIÃO

No ringue de Hemingway

21/08/2014 16:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
REPRODUCAO

San Francisco de Paula, Cuba

Julho, 2011

"¿Cuanto hasta la casa de Hemingway?"

"¿La casa de Papa? Treinta pesos. Y más veinte, el regreso."

"¿Moneda nacional?"

Risos. "CUC."

Durante muitos e muitos anos, Ernest Hemingway viveu em Cuba. Escrevendo, pescando, amando. Finca Vigía, uma de suas principais residências na ilha, está a 24 km de La Habana - em San Francisco de Paula. A propriedade espaçosa, hoje cercada por um subúrbio alaranjado, agitado, certamente abrigou, no passado, o silêncio.

Em entrevista à Paris Review, em 1958, Hemingway disse que telefonemas e visitas são os destruidores do trabalho. E que trabalhava logo após as primeiras luzes da manhã; até o esgotamento. "Quando você para, você está tão vazio - e ao mesmo tempo nunca vazio, mas completo - como quando você fez amor com alguém que você ama."

Cinquenta CUC pelo trajeto. No es fácil. Conversa, paciência, pesquisa e um taxista cobrou-me dois; ou seja: algo próximo a cinquenta pesos cubanos. Essa diferença entre as moedas correntes (para estrangeiros e para nativos) acabou criando uma espécie de turismo predatório. A viagem, compañero, não valia mais do que paguei. Se não valesse menos. Explorar o turista, infelizmente - em pleno socialismo -, é prática normal, frequente e estimulante a certa desigualdade social.

Perguntei ao taxista, antes de seguir a pé, como era a região há décadas.

"No había nada, nadie."

Em todo caso, Finca Vigía mantém-se conservada como Hemingway a deixou. 15 acres. E atravessando o portão, ainda resta alguma paz tranquila: pássaros - tocororos?, sinsontes? - rodeiam o caminho arborizado. Detrás de uma árvore, miando baixinho, surgiu um gato negro. Descenderia dos felinos criados pelo escritor? Será que os gatos também se desmancham?

As paixões, sem dúvidas.

Hadley, Pauline, Martha, Mary - Ernest foi um homem de várias mulheres; errou, segundo Faulkner, ao casar-se com todas. Em 1939, a geniosa Martha Gellhorn, sua futura terceira esposa, desembarcou em Cuba. Hemingway começava a escrever Por quem os sinos dobram. E Gellhorn, musa inspiradora do romance, não aceitou morar na habitación 511 do hotel Ambos Mundos. Ela garimpou uma casa afastada, solitária; perfeita para o implacável exercício da literatura.

Até o esgotamento. Resta a máquina Royal de escrever, sobre um volumoso Who's Who in America (edição que abrange os anos 1951-1959): para que a máquina ficasse na linha do peito, a altura ideal. Porque Hemingway tinha o hábito de trabalhar em pé, no próprio quarto, sendo observado por cabeças de gazelas empalhadas. Findos olhos frios, infinitos, e chifres pontiagudos. Existem animais pendurados nas paredes da casa inteira; os animais que ele mesmo caçava.

Transmitindo uma sensação de violência organizada - porque, somando-se aos troféus selvagens, bem distribuídos, em todos os ambientes há estantes com livros. Ao todo, nove mil exemplares. Pareceu-me que Hemingway não tinha uma biblioteca dentro de casa, mas uma casa dentro da biblioteca. Feroz.

Escrever observado por algo que você matou: é forte, é uma forte ideia. Das gazelas, reconduzi os olhos para a Royal, os livros. A cama. Dormir observado por algo que você matou. Fazer amor. Quem havia se deitado ali, além das últimas esposas? Ava Gardner? Recordei-me de como, há tempos, Anna e eu - ou as sombras de Anna e eu - vínhamos ecoando um sexo automático. Cheio de rancor. Nossas brigas e ironias projetadas firmes no apartamento inteiro.

"Estou planejando ir a Cuba. Vamos?"

"Cuba? Para quê?"

"Visitar a casa de Hemingway."

Passar minutos, horas, mirando pequenos detalhes. Cada flor estampada em cada sofá da sala; as marcações obsessivas de peso no banheiro, na parede acima dos azulejos; o closet com seus "enormes sapatos de morto", precisamente definidos por Gabriel García Márquez. Dobrar o sino da entrada. Os cheiros, respirá-los todos. Agora, entretanto, evito qualquer descrição dos cheiros. Porque eles já foram, é claro, alterados pelos anos.

Mas continuam lá os cartazes de touradas: Toros, Toros en quintanar de la orden. As garrafas de bebida, algumas pela metade: Havana Club, vinhos, Campari. As obras de arte: Miró, Klee, Goya. Reproduções, porque Mary Welsh, última esposa de Ernest, depois de sua morte, retornou a Cuba e levou embora as pinturas originais.

"Não, não; eu não. Gastar dinheiro. Gasto desnecessário."

"São alguns dias."

"Eu espero." Em tom sarcástico de Espero ou não espero?

Talvez nossa vida afetiva seja assim: organizada e violenta - o relacionamento uma luta fria de boxe. E talvez sempre tenha sido, mesmo quando uma luta implícita: um conflito mascarado. Apesar de tudo, de tudo, ainda nos resta alguma paz tranquila. Resignados, vamos enterrando certas mágoas. Enterrando certas ofensas. Estamos conseguindo.

Hemingway enterrou alguns de seus gatos no quintal. Black, Negrita, Linda, Neron. Há um pequeno cemitério com as lápides. Soturno. Próximo à piscina funda e comprida, hoje vazia, onde ele nadava quinhentos metros diários. Onde Ava Gardner banhava-se nua. Desmoronei, para descansar, em uma dura cadeira de balanço. Meus pés esticados quase tocavam a borda azul; tanto calor, eu quase enxergava água - e apertei os olhos para imaginar a bela Ava nua.

Abandonei tal oásis caribenho, falso, em direção ao Pilar. Não sem antes imaginar, também, os quatro nomes nas lápides substituídos pelos nomes das esposas. Ocorreu-me naturalmente. Black-Hadley, Negrita-Pauline, Linda-Martha, Neron-Mary. E visualizei Anna sulcado, preto, em uma delas. Ocorreu-me naturalmente.

Então o Pilar. Todo em madeira; escuro, sóbrio. Tamanho considerável. No convés, chão verde-musgo; a cadeira de pescador com apoio para força - Conrad gostaria desse barco? O barco no qual, sobre a corrente do golfo, sobre tubarões e marlins caribenhos, tenho certeza de que o velho Hemingway, durante as noites, sonhava com leões.

Que vigor, pensei; lutou boxe profissional, correu de touros na Espanha, participou de várias guerras. Um caçador que sobreviveu a duas quedas de avião consecutivas na África - chegando, inclusive, a ler seus obituários. Na capa do New York Daily Mirror, por exemplo, foi publicada a manchete Report from Africa: Hemingway, wife killed in air crash. 25 de janeiro de 1954. E o suposto falecido leu-a, no terraço do Gritti Palace Hotel, em Veneza, enquanto bebia champanhe.

Álcool pesado, em demasia, acompanhava seu cotidiano. Desde a juventude. Mas o consumo piorou com o suicídio de seu pai, Clarence, em 1928. Um tiro fatal. Adeus às armas, na época, estava em processo de finalização. Sua mãe, Grace, aquela puta, da maneira que Hemingway costumava chamá-la, enviou-lhe a pistola pelo correio.

Não me lembro de ter visto retratos familiares em Cuba. É algo que, por sinal, falta em nosso apartamento. É o que Anna diz. Faltam imagens coloridas. Falta alegria. Falta um bebê. Será? Um bebê não atrapalharia minha produção literária? Faltam cartazes de touradas. Faltam cerâmicas de Picasso. Falta a cabeça de touro estilizada, que, em Finca Vigía, encontra-se ao lado de uma cabeça verdadeira. Decepada. O que me falta mesmo é alcançar o sono - o sonho - sem duplos uísques.

"Uísque?, porra! Escritorzinho metido a Hemingway. Ridículo. Alcoólatra metido a Hemingway."

Além de alcoolismo, depressão e bipolaridade; em artigo para o Independent, John Walsh (a partir de um estudo do psiquiatra Christopher D. Martin) busca destrinchar cada distúrbio emocional do autor - consagrado com o Prêmio Nobel de 1954. Clarence teria sido a figura paterna repressora; Grace, por sua vez, trajava o filho em vestes femininas e chamava-o de "Boneca holandesa". Hemingway apanhou bastante do pai. Não revidava. Mais tarde, escondido, apontava uma espingarda para ele. Isso criaria, no futuro, um sentimento mortal de culpa: cuja solução para amenizá-lo seria espelhar o disparo derradeiro.

Macho estereótipo, exato oposto de bonecas holandesas, o grande Papa já havia mostrado a amigos como suicidaria. Dizia que era a "técnica do haraquiri com rifle". Pegava uma espingarda Mannlicher Schoenauer 265 descarregada. Sentava-se descalço em sua poltrona. Encaixava o cano dentro da boca. E empurrava o gatilho com os pés. Ato repetido em julho de 1961, Hemingway prestes a completar sessenta e dois anos. Longe de San Francisco de Paula - em Ketchum, Idaho - e com uma W. & C. Scott & Son carregada.

A arma, depois, foi quebrada em vários pedaços.

Na saída, engoliu-me aquele subúrbio alaranjado: vozes, buzinas, latidos. Os cães, na ilha de Fidel, aparentam estar desmanchando. Verão máximo - eu olhava um cachorro e tinha a impressão de que ele já se estava fundindo ao asfalto. Assim como as paixões em declínio vão fundindo-se amargamente a nós. Elaborei essa imagem e, até sair do país, não andava pelas ruas sem pensar, triste, que pisava em milhares, milhões, de perritos desmanchados.

Por dois CUC, tomei um táxi rumo ao Floridita. Rumo ao resplandecente Hem, imponente, esculpido em bronze, recostado na banqueta em que o homem real tragava daiquiris sobre daiquiris. Ron, zumo de toranja, marrasquino. Papa's style. Pedi e fui ao banheiro, que destoa do caprichado restaurante-bar. Portas de madeira em persiana lascada, mictório sujo em contorno de gota, espelho decadente. Decadente. Ridículo? Alcoólatra? Lavei as mãos encarando um rosto conhecido.

Mas que se ia transformando em outro no espelho empoeirado: eu poderia correr de touros em Madri, fisgar peixes imensos, ou, quem sabe, apenas tornar-me um escritor melhor. Sendo observado pelos olhos frios, infinitos, do relacionamento que matei - mas não sozinho. E fazendo amor, logo após as primeiras luzes da manhã, com livros inacabados.

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