OPINIÃO

Status do relacionamento: Ansioso

07/02/2014 18:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Getty Images
This January 30, 2014 photo taken in Washington,DC, shows the splash page for the social media internet site Facebook. US stocks moved higher Thursday in early trade following solid US economic growth data, while Facebook's 14 percent gain on strong profits drove a 1.1 percent surge in the Nasdaq. AFP PHOTO / Karen BLEIER (Photo credit should read KAREN BLEIER/AFP/Getty Images)

Você está no Facebook? É bem provável que a resposta seja "sim", a mesma que dariam hoje mais de 80 milhões de brasileiros. E apesar de muitos jovens estarem trocando o Facebook por outras redes sociais em todo o mundo -- mais de 6 milhões de americanos deixaram a rede nos últimos três anos --, assim mais de 1 bilhão de pessoas continuam conectadas em todo o planeta pelo popular website branco e azul. Se o Facebook fosse um país, estaria no seletíssimo clube dos Top 3 países mais populosos do mundo, ao lado de China e Índia, os outros únicos com mais de 1 bilhão de habitantes.

O número de usuários de Facebook no Brasil torna-se ainda mais impressionante quando lembramos que a maioria dos brasileiros não tem computador. E é igualmente surpreendente lembrar que o Facebook é apenas uma criança: a rede completa 10 anos agora em fevereiro de 2014.

Ok, todos os números relacionados ao Facebook são gigantescos. Mas o impacto cultural que a rede social provocou nas relações humanas é ainda mais relevante. E isso dificilmente pode ser medido pelas frias planilhas de estatísticas.

Assim como as outras redes sociais, o Facebook é um reflexo da vida, um espelho da sociedade. É claro que as relações são -- ou deveriam ser -- bem diferentes no ambiente virtual, até porque na vida real a gente não passa o dia "curtindo" as opiniões dos outros. As redes sociais são vitrines do comportamento humano amplificadas pela tecnologia, esvaziadas pela banalidade e protegidas pela própria virtualidade. É o melhor e o pior de nós.

Na vida real ou na internet, no entanto, toda sociedade dita civilizada precisa de regras básicas para funcionar. Todos nós, pelo menos na teoria, temos comportamentos que precisam ser minimamente coerentes, até para que nossos amigos nos reconheçam naquele avatar representado por uma minúscula imagem 2 x 2 cm.

Do mesmo jeito que ocorre na vida real, no entanto, nosso comportamento nas redes sociais passa constantemente por transformações bastante específicas, que são exclusivas desse ambiente e que só conseguimos entender de verdade quando paramos para analisar nossa conduta. A vida real, justamente por ser "real", nos permite um controle igualmente "real" e organicamente mais verdadeiro. Ironicamente, a proteção permitida pela rede social causa uma ansiedade narcisista e exibicionista que não sabemos aonde vai chegar, como se a vitrine fosse mais importante que o produto; ou como se o fato de compartilhar algo fosse mais importante do que o algo que se está compartilhando.

Não é preciso ir longe, já que os exemplos são muitos: há alguns dias, apareceu na minha timeline a foto de um par de alianças. Publicada por um amigo meu, a mensagem era para a namorada dele. Oi? Por curiosidade, comecei a ler os comentários. Descobri que ele havia comprado as alianças e estava pedindo a garota em casamento. E ela disse "sim"! Tudo isso pelo Facebook! Não sei até que ponto aquilo já havia sido conversado entre eles, nem me interessa saber porque a relação de amizade é, hoje em dia, muito mais virtual do que real. O que já nos apresenta um outro aspecto curioso: a valorização do número de "amizades", colecionadas virtualmente como figurinhas de um álbum que nunca se completará.

Mas peraí, que mau humor! Rede social é apenas para se divertir! Claro que é. A velocidade que rege a era virtual cria milhares de possibilidades positivas, mas também explicita uma outra ansiedade social: a necessidade de classificar as relações. No mundo real, isso fica a cargo da Justiça, que registra, quando um casal decide por livre e espontânea vontade, definir sua situação civil. Mas ao incluir o campo "status" no perfil de cada um, o Facebook antecipa isso de maneira aparentemente sutil mas extremamente invasiva, obrigando casais que viviam bem na "ignorância" a se enquadrar imediatamente em uma das classificações possíveis.

Relacionamentos são -- ou deveriam ser -- baseados no comportamento dos envolvidos, não pela semântica que os define. A rede social diz que devemos optar entre os seguintes status: 'solteiro', 'em relacionamento sério', 'noivo', 'casado', 'em relacionamento aberto', 'em relacionamento enrolado', 'separado', 'divorciado' e 'viúvo'. Ou seja: todas as formas de relações amorosas já imaginadas pela criatividade humana e séculos de literatura estão agora limitados a nove expressões criadas por uma equipe de nerds da Califórnia. E o ser humano -- receoso de estar em descompasso com seu par -- se vê obrigado a se definir por uma delas.

Se você precisa de uma palavra para definir seu relacionamento, ele provavelmente já está fadado ao fracasso. Se você precisa escolher uma das relações do Facebook para defini-lo, já fracassou. Uma relação é baseada no sentimento entre duas pessoas e, muitas vezes, a vida na era da pós-modernidade não permite que se encontre um substantivo fácil na hora em que o outro exige. Pressionar para que o outro se posicione, além de ser um tiro no pé, revela uma insegurança que só ajudará a minar o próprio relacionamento. Tem gente que diz que as redes sociais acabam aproximando quem está longe e afastando quem está perto. Será isso mesmo? Ou será o contrário?

Se o sentimento que temos por alguém fosse um carimbo comprado na papelaria mais próxima, tudo seria mais claro. Mas como a vida não é assim, talvez seja a hora do mundo virtual aprender um pouco com o mundo real: em vez de deixar a rede social ditar a sua vida, seria interessante experimentar parar de teclar por um momento e olhar nos olhos das pessoas que estão em sua volta. Exatamente como fazíamos dez anos atrás... Lembra?