OPINIÃO

Quanto custa essa parada de 'orgulho'?

Nos novos tempos, ser 'LGBT-friendly' é legal e, especialmente, lucrativo.

16/06/2017 18:33 -03 | Atualizado 16/06/2017 18:33 -03
JOSE CORDEIRO
Quando celebramos o ORGULHO, honramos a todos que viveram e morreram para provar que a nossa diversidade é linda. E esse orgulho não tem preço.

No dia 28 de junho, a maioria das sociedades capitalistas celebra o dia do Orgulho LGBT. É importante destacar este "capitalistas" não necessariamente para fazer alguma crítica, mas para compreender um aspecto fundamental da construção e da validação de uma causa - ou de uma identidade - em nosso tempo. E é por isso que eu pergunto: quanto custa essa parada de "orgulho"?

O feriadão será coroado com a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, uma das maiores do mundo e um dos mais importantes eventos turísticos da maior cidade do País. Hotéis, boates e estabelecimentos voltados para o segmento, como saunas e bares, aguardam os turistas com uma programação especial.

Se antes eram esses negócios de nicho que patrocinavam e exibiam suas marcas nos carros da parada, agora vemos empresas como a Netflix, a marca de cerveja Skol com sua lata arco-íris e a Uber, pagando caro para animar o povo com Anitta e Pabllo Vittar. Um sinal de novos tempos em que ser "LGBT-friendly" é legal e, especialmente, lucrativo.

Quando fui à parada pela primeira vez, há 15 anos, a grande discussão era se uma FESTA onde "gente desfila nua e chega até a fazer sexo em público" teria legitimidade política. É um debate que nunca vai terminar porque está na base da criação de uma identidade sexual, do próprio conceito de sexualidade e de como o que hoje chamamos de movimento LGBT foi formado.

É na construção da noção de sexualidade que as práticas classificadas como "heterossexuais" viraram o modelo de normalidade a ser validado pela noção de desvio desse modelo, a "homossexualidade". É desta relação de marginalidade que emerge a experiência LGBT e a noção de que ser, viver e amar LGBT seria uma "vergonha".

É por isso que gritamos por "ORGULHO", tentando negociar apenas que nos deixem em paz. Que nos deixem viver e que nossos direitos civis não sejam negados. É por isso, também, que a negociação com as normativas da sociedade "normal" parecem tão tentadoras ou politicamente estratégicas.

Ser LGBT é estar à margem. Como tudo na vida, essa relação será afetada por outros trânsitos sociais, marcadamente os relacionados a gênero, raça e classe. Entretanto, mesmo o "homem-cisgênero-branco-macho-rico-cristão" mais normal do mundo ainda estará à margem se for homossexual.

Após a epidemia de HIV/aids nos anos 80 – o grande evento social a articular as pessoas LGBT como atores sociais relevantes politicamente –, a validação do nicho LGBT (então, GLS) como um mercado a ser explorado serviu para aquecer diversos setores da economia e também para legitimar esse grupo social.

Ao dizer que temos dinheiro e que podemos e queremos consumir produtos e serviços pensados para ou sensíveis ao nosso segmento, forçamos o mercado a reconhecer que somos sujeitos de direito. Trata-se de uma estratégia política que não tem nada de nova e que sempre carrega uma disputa ideológica consigo.

Um ato de justiça ou bondade vale mais quando é sincero ou o que importa é garantir um direito independentemente do caminho para tal? Hoje, graças às redes sociais, debates que antes ficavam circunscritos aos meios políticos e acadêmicos se popularizaram.

Ainda que possamos questionar o quanto a diluição de alguns conceitos pode ser prejudicial, é positivo que mais pessoas tenham acesso à informação e possam contribuir com as discussões. Especialmente se o assunto é aquilo que vai definir o espaço social ocupado por elas.

Assim, é perfeitamente natural que enquanto uma parte da população LGBT celebre "beijo gay de novela" e comercial da AVON com drag queen, outra parte veja essas coisas como uma ameaça de apropriação de causas sociais sérias para lucro de alguns poucos empresários. E esse debate é saudável.

Ainda se discute se as paradas LGBT são úteis ou não. Infelizmente, o moralismo ainda é utilizado como régua para definir "que tipo de gente" MERECE respeito ou não. É nesse contexto que "gay" vem se transformado mais na definição de uma classe de homens homossexuais que podem viver o lifestyle pagável com o "Pink Money" do que simplesmente uma palavra para definir homossexuais masculinos. Porque se o que vemos explodir em cores e música da Madonna nas paradas é o "ser gay", é evidente que a situação dos homossexuais executados na Chechêniaou perseguidos em Uganda não pode receber a mesma nomenclatura.

E não é preciso ir tão longe, a diferença entre estar "dando pinta" na Avenida Paulista e tentar sobreviver como homossexual na periferia já é gritante o bastante. E tudo isso é parte de uma mesma discussão, dessa eterna briga para definir se somos transgressores ou mainstream, se vale a pena usar o sexo como protesto ou se a melhor estratégia é casar e adotar um gato para mostrar nossa normalidade.

Uma parada custa tudo isso. A existência de um "Movimento LGBT" custou as vidas e as dores de inúmeras pessoas, a maioria esquecida para sempre no passar da história. Mas é por causa delas que alguns de nós poderão desfilar por orgulho, por alegria ou apenas para fazer pegação no domingo (18).

Durante o desfile, vai ter alguém sendo morto por ser LGBT em alguma parte do mundo ou em outra esquina de São Paulo. Isso é injusto? Certamente. Isso pode ser evitado? Não. É outro dos "custos" da parada, assim como a legitimidade de um evento político que precisa de patrocínio privado ou da articulação com conceitos duvidosos sobre moral, promiscuidade, preconceito e fragilidade para pedir o apoio de instituições públicas e serviços de saúde.

Só que essa conta não é nossa. Esses custos nascem da relação de inferioridade que é atribuída a quem é LGBT por quem precisa de um "outro marginal" para sustentar a própria fantasia de superioridade. E isso sim é uma vergonha.

Quando celebramos o ORGULHO, honramos a todos que viveram e morreram para provar que a nossa diversidade é linda. E esse orgulho não tem preço.

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*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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