OPINIÃO

Qual é a graça de ser gay?

03/02/2014 17:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
TV Globo

Gay, gay, gay! Entre protestos de líderes religiosos metidos em política e o país inteiro comemorando um beijo homossexual na novela, parece que "gay" é tudo no que se ouve falar hoje em dia! Será mesmo o início da derrocada moral do Brasil? Começou a tão falada "Ditadura Gay"? Por que eles estão mais visíveis, e ainda por cima clamando por direitos, visibilidade e orgulho? Será que a coisa é tão boa assim?

Apesar da desigualdade que ainda é enfrentada pelas mulheres e apesar da vulnerabilidade da população negra, a luta pelos direitos homossexuais é a última trincheira das batalhas civis no Ocidente. Ao clamar por aceitação, lutamos para provar que nosso afeto é como o de todo mundo, e que por isso devemos ter assegurados os mesmos direitos -- já que as contas são iguaizinhas. Mas não é bem assim...

Ser gay é muito diferente de ser heterossexual. É óbvio que todo gay nasce, cresce, trabalha, vota, namora, transa... Alguns até se casam e tem filhos, biológicos ou não. Depois, todo mundo morre do mesmo jeito. Mas o tratamento social da homossexualidade faz com que a vivência gay seja distinta, pro bem e pro mal.

Quem é gay ganha uma identidade, quer queira, quer não. Um menino gay não cresce para ser médico ou bombeiro. Ele cresce para ser o "Dr. Fulano, aquele médico gay", ou "a bicha que não larga da mangueira". Ele cresce com medo de se denunciar com um gesto ou um "jeitinho" de falar. Ele é dominado pela sensação horrível de desastre iminente, enquanto percebe que a cada dia vai se aproximando daquilo que a família e os amigos da rua deixaram claro que ele nunca deveria ser. Ele se culpa quando é vítima de perseguição ou, pior ainda, agride os outros para não trair seu segredo. E quando chega a adolescência, só piora. A sensação de solidão e o medo de nunca encontrar alguém para amar o fazem pensar até em suicídio, que inclusive é como terminam muitas dessas histórias.

Ser gay é diferente porque é preciso "sair do armário". Ninguém assume a heterossexualidade, ela é simplesmente presumida. Não vale dizer que é por ela ser "natural", pois a homossexualidade existe desde que o mundo é mundo, inclusive em outros animais, portanto é tão natural quanto a noite seguir o dia. O que não faz sentido é a heterossexualidade ser reforçada como modelo o tempo todo, a ponto de fazer de um beijo de novela virar ato político! Sim, pois se todos tratassem o amor homossexual com naturalidade, da forma que ele ocorre em milhões de lares brasileiros, Félix e Niko teriam sido apenas um casal numa história, ao invés de um casal que ENTROU para a História!

Mas esse é o lado ruim da diferença. Enfrentar essas barras nos fortalece. Quando até a sua integridade física está em jogo, você pensa muito bem sobre o seu lugar no mundo. É claro que alguns optam por se esconder, mas mesmo isso requer a coragem de abraçar a infelicidade. Os que assumem dão a cara à tapa e precisam aprender a impor respeito. Por outro lado, se veem livres para explorar a própria sexualidade de forma livre, sem as amarras do modelo familiar para delimitar papéis e propósitos para tudo. A família, quando vem, é uma escolha.

Há muitos problemas na cultura gay. Ainda precisamos exorcizar nosso machismo e os sentimentos de vergonha que nos fazem rejeitar a nós mesmos. Precisamos dar voz às outras letras da sigla LGBT, desmistificando a bissexualidade e cobrando respeito às lésbicas, geralmente tratadas como objeto de fetiche, além de trabalhar pela inserção dos transexuais na sociedade. Precisamos acabar com a homofobia, para que ela não seja a explicação mais provável de qualquer crime violento nas adjacências da Augusta.

No ano passado, um grande ídolo -- o cineasta Bruce LaBruce -- me disse que "a homossexualidade é uma chance de não ser conformista". É verdade. Com toda a dor e com toda a delícia, ser gay nos transforma em agentes da mudança. Nos faz contribuir ativamente com o desenrolar da História e o progresso social, o que no fim das contas é um privilégio.

Pensando bem, é até engraçado. E essa é a graça.