OPINIÃO

O mundo é gay. Seu pai, também!

14/02/2014 14:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
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Heterossexualidade não existe. Existe sexo entre homem e mulher -- seja lá o que essas definições signifiquem -- mas essa orientação sexual, como identidade, é falha por definição. É impossível ser heterossexual. Dá tanto trabalho que qualquer pessoa já começa fracassando, mesmo quando não se dá conta disso.

A questão é que para ser considerado um "verdadeiro" heterossexual, a pessoa precisaria passar a vida sem nenhum tipo de experiência ou desejo homossexual. A parte da experiência é relativamente fácil, ninguém faz tudo que quer e a sociedade nos dá várias ferramentas sociais e psicológicas para "segurar a onda". O complicado é a parte do desejo, que se manifesta sem o nosso controle, e ainda pode acabar se transformando em ressentimento pelo outro. Sabe aquele papo de que "todo homofóbico é um enrustido mal resolvido"? Então...

Homossexualidade e heterossexualidade são faces da mesma moeda. As duas definições foram criadas para catalogar comportamentos e funcionam como um "Yin-yang": uma não vive sem a outra. Essa necessidade de dar nome à experiências que poderiam ser simplesmente vividas é no mínimo chata, mas vá lá, podemos atribuir ao desejo tão humano de entender o nosso mundo. O problema é usar isso para criar castas, como se um grupo fosse superior a outro apenas pelo que gosta de fazer na cama!

Nós acabamos por nos tornar "fiscais da sexualidade", cerceando a liberdade dos outros como se fôssemos donos de seus corpos. Pior ainda, nos vigiamos também. Já que qualquer "deslize" pode ameaçar nossa posição social, patrulhamos nossas atitudes e nos privamos de uma relação sadia com o desejo. Até o jeito de falar e gesticular tem que passar por um crivo de certo/errado que só existe na nossa cabeça!

Macho, fêmea, coisa de homem, coisa de mulher, rosa, azul... Tudo isso são construções culturais que vão muito além das nossas genitálias. Um pênis ou uma vagina não precisam ditar todo o comportamento de um indivíduo e nem ele deve ser excluído da sociedade por se comportar de maneira diferente do esperado. Seres humanos são -- ainda bem -- infinitamente mais diversos. Exatamente por isso, regras tão estanques foram feitas para serem quebradas.

Desde crianças somos programados para agir de acordo com o nosso gênero, mas nenhum humano é preciso como uma máquina. Sempre há alguma variação. Talvez a criação de uma "cultura gay" e de uma "cultura hétero" tenha sida útil ou divertida, mas não dá para colocar ninguém como representante absoluto desses extremos. Uma pessoa só consegue se identificar como "gay" porque há um modelo comportamental que cria essa identidade. Isso vai além da prática de sexo homossexual porque envolve, por exemplo, dinâmicas de grupo e nichos culturais. Dessa forma, é perfeitamente possível que um homossexual sinta algum tipo de atração por alguém do sexo oposto sem que precise, por isso, abrir mão do rótulo. Lembra daquela história de que "não existe ex-viado"? Basta que uma pessoa se identifique como LGBT uma vez para que, até a morte, ela seja vista assim. Já no caso dos héteros...

Basta aquela olhadinha no pinto do colega, depois da academia, por curiosidade ou apenas porque naquele dia isso te chamou a atenção, e o trabalho de uma vida está perdido! Para as mulheres, a mesma coisa. Um beijinho alcoolizado numa amiga, durante uma festa, é levado como coisa super normal... Mas aí a mulher hétero passa a ser chamada de bi ou de "moderninha". A heterossexualidade "pura" se perde assim, num instante, porque de repente você achou um colega ou uma conhecida bonito. Não é triste?

Eu sou um homem gay. Além do desejo sexual, minha orientação afetiva é homossexual. Fora isso, me identifico culturalmente com o que é aceito como "gay" em nosso país, e por isso afirmo a minha identidade. Mas a vida é menos complexa que isso, então de vez em quando acontece de eu sentir algum tipo de atração por mulheres. Às vezes é uma amizade especial, um fascínio, ou só vontade de beijar mesmo, passar a mão no cabelo... Acontece raramente, mas quando acontece eu não entro em parafuso e fico questionando toda a minha vida e minhas escolhas. Também não sou parado por uma espécie de "polícia gay" que quebra minha carteirinha, me força a jogar futebol ou me proíbe de ir ao show da Madonna. Posso ter algum tipo de desejo por uma mulher, fazer algo sobre ou não, e apenas seguir minha vida com minha identidade intacta. E se eu posso, por que um hétero não pode? Será que finalmente os sexodiversos tem algum privilégio?

Aquilo que não é hétero é gay. Para ser hétero, é preciso passar a vida toda sem nenhuma olhadela, virada de mão, pensamento estranho ou tapinha na bunda do amigo depois do futebol. E se essas são as regras, o mundo é gay... E até o seu pai!