OPINIÃO

O que fazer quando o problema vem até o quintal de casa?

26/05/2015 19:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
Marco Gomes/Flickr
Cracolandia, Sao Paulo, SP. Zenit 12 XP, filme Ilford XP2 Super, ISO 400

Desde o começo das operações que "desmontaram" a região da "Cracolândia", no centro de São Paulo, a concentração de usuários foi se dissipando para outras regiões da cidade. Ou seja: a "grande Cracolândia" deu à luz a diversas "cracolandiazinhas". E uma delas veio parar no "quintal de casa"!

Contextualizando: Quando reformei o prédio que hoje abriga o IBO (minha clínica) e a TdB, minha maior preocupação foi criar um espaço diferente, inspirado nas casas do Warchavchik: com fachada aberta, árvores, sem grades... que se integrasse de um modo diferente com a cidade, dando um respiro. Nem sei quantas vezes reforcei esse desejo para o arquiteto. Pra fechar, coloquei uma obra de arte na fachada... Meus amigos urbanistas arquitetos elogiaram.

Eis que um dia surgiu um homem na vizinhança, andando para cima e para baixo com seu carrinho de bebê abarrotado de coisas. Para se proteger do sereno, ele começou a utilizar a garagem da clínica - um lugar coberto e sem portão, que ficava vazio a noite toda. E ali ficou... pitando seu cachimbo... dormindo...

O que fazer?

À base da conversa ele se recusou a sair - hora eles são dóceis, hora eles são bem agressivos. Liguei pra polícia. - "Senhor, não podemos fazer nada em casos assim. Recomendamos que o senhor contate a Prefeitura". Liguei pra Prefeitura: - "Senhor, temos de 24h a 48h para comparecer ao local. E só podemos remover o morador de rua se ele permitir!".

Com o passar dos dias, foi chegando mais gente. Para piorar, descobriram um ponto de água e energia e fizeram gatos - tinha até TV no acampamento improvisado. E o que abrigava um homem se transformou numa "habitação coletiva". Agora eram seis! Todos com seus cachimbos... suas drogas (escondidas no jardim!)... suas cobertas... e suas necessidades fisiológicas... na frente da clínica!

Eu tenho um estabelecimento de saúde, não posso ignorar o cocô e o xixi... fui obrigado a lavar a calçada - todos os dias pela manhã... Os vizinhos, claro, não gostaram nada disso ("Olha a Cantareira, c@%@$#*"). A minha conta de água foi às alturas... e a SABESP, compreensiva, ainda me aplicou uma bela multa - como se o governo estadual não tivesse nada a ver com meu problema. Mas o que eu posso fazer? Fico com a clínica toda cagada? Espero a humanidade resolver o problema? Quem ajuda um cidadão na minha situação?

E não me venham com esse fla-flu de direita X esquerda. Eu não sou um higienista com nojo dessas pessoas - pelo contrário, morro de dó: elas estão ali, na rua, no frio... sem nada... dando a vida por alguns segundos de prazer - e olhe lá. Mas o problema está aqui... no "quintal de casa". O que eu faço? Patrocino um acampamento? Eu pago IPTU e os outros trocentos impostos (municipais, estaduais e federais). Como ninguém pode me ajudar? Políticas pontuais, políticas que não se conversam, políticas que não são boas pra ninguém...

A solução que encontrei foi encomendar um portão e, como o resto de SP, me trancar do mundo. Esquecer o Warchavchik e transformar minha clínica em outro comércio horrível, sem nenhuma relação com a cidade. Quando mais jovem, sonhava com um movimento onde todos os cidadãos paulistas arrancariam as grades e cercas e a cidade ficaria linda... Enfim, vou me render e por um PORTÃO.