OPINIÃO

Médicos, pacientes e o direito de dizer não

07/04/2016 16:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

"Depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e as cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho. Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a honestidade que sempre pautou minha vida particular e pessoal."

A mensagem acima é de uma pediatra de Porto Alegre que se recusou a continuar o tratamento do filho da vereadora do PT, Ariane Leitão, um dia após a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil e da divulgação da conversa entre ele e Dilma. Ariane, então, compartilhou a mensagem nas redes sociais. Pronto: polêmica à vista.

"Que absurdo!". Não faz sentido sair por aí perguntando com qual partido meus pacientes se identificam. Como disse o Dr. Mauro Aranha, Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo: "a dignidade humana está acima de preferências de interesse ou de ideologias partidárias".

Hipoteticamente, eu como dentista, atenderia a Dilma, o Cunha, o Lobão, o Alckmin - até a bruxa de Blair, pois entendo que eles me escolheram mercadologicamente para seu atendimento, independentemente de gostar ou não de suas posturas político-partidárias.

Por outro lado, ao contrário do SUS, onde o atendimento é preconizado como universal, um profissional de saúde particular tem, sim, o direito de decidir se atende ou não um paciente - e se deve continuar a fazê-lo.

A prestação de serviço em saúde é baseada em relações interpessoais que vão se construindo e solidificando com o tempo. Para que isso aconteça é necessário afeto, sinceridade e, acima de tudo: confiança. O pacote básico.

Você escolhe seu médico, dentista ou psicólogo pela indicação de alguém de confiança, e depois se mantém ali pela confiança mútua estabelecida. A pediatra do meu filho, por exemplo, era uma pessoa de minha máxima confiança. Para ligar de madrugada, quando a febre não baixava, para acreditar que os exames solicitados eram de fato necessários, eu precisava enxergar nela alguém altamente comprometido em cuidar de meu filho - e de mim, também".

Agora, como em toda relação humana, o "felizes para sempre" pode acabar. Não consigo construir uma relação de confiança com um paciente que mente quando pergunto se está usando aparelho, por exemplo. Isto prejudica o resultado do meu trabalho. Daí, vale a máxima do poeta: "Que seja infinito enquanto dure!"

Posso negar atendimento se perceber que o paciente mentiu sua ficha clínica (por exemplo, dizendo que a diabetes estava controlada, mesmo não estando). E se a pessoa tiver expectativas de conquistar um sorriso que, na limitação de seu caso, não conseguirei entregar, eu prefiro não fazer. Também posso deixar de atender um paciente que assedie ou discrimine uma secretária ou outra colega... O código de ética me permite tudo isso!

Há trocentos anos no mercado, já me vi obrigado a dizer não a vários pacientes. Assim como vários pacientes, com certeza, também já disseram não pra mim e minha equipe. Faz parte do game.

Aparentemente, a criança não estava em um caso de emergência e a médica definitivamente não é a única pediatra de Porto Alegre. Imagino quantos outros bons médicos não atenderiam de bom grado a filha da vereadora. Por que, então, insistir em alguém que parece não ter um olhar humanista? Para mim, esta deveria ser a grande discussão!

E na mesma toada, a melhor resposta para a idiotice de se recusar um paciente por questões político-partidárias não é ficar se vitimizando nas redes sociais - um clássico da militância!

O paciente, antes de qualquer coisa, é um consumidor. E como tal ele pode (e deve!) escolher um profissional melhor alinhado com suas expectativas. Pra que ir num careta, se eu posso escolher um médico humanista, que não se importa com picuinha e que vê no paciente um ser humano e não sua ideologia? Isso se chama consumo consciente. Eu conheço 16 mil dentistas que não discriminam ninguém.

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