OPINIÃO

Como tratar essa epidemia?

25/08/2014 16:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Caio Leão

30% das pessoas são afetadas por algum tipo de dor ao longo da vida - que durou mais de um dia para cerca de 40% delas*. Ou seja, a dor é uma das principais causas de sofrimento e incapacitação do ser humano. E as consequências disso são impressionantes - tanto para a pessoa quanto para a sociedade.

Somando-se todos os trabalhadores que faltam ao serviço por causa de dores, todo ano 550 milhões de dias de trabalho são perdidos nos Estados Unidos**. E, apesar de não haver dados oficiais sobre o problema no Brasil, especialistas afirmam que sua ocorrência tem aumentado substancialmente nos últimos anos.

Dor se define como uma "experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou relacionada a uma lesão real ou potencial dos tecidos"***. Desse modo, sinaliza que algo perigoso está acontecendo com nosso corpo e "orienta" como responderemos a isso, com o objetivo de priorizar a fuga, a recuperação e a cura. Algo imprescindível à nossa sobrevivência.

Em linhas gerais, existem três tipos básicos de dor: a aguda (que se manifesta em períodos curtos, associada a lesões, inflamações, infecções e traumatismos e some após a sua causa ser tratada), a recorrente (que apesar de se repetir com frequência, apresenta crises de curta duração e não está necessariamente associada a outras doenças - como a enxaqueca) e a crônica (que se estende de meses a anos, e quase sempre é resultado de uma doença crônica ou de uma lesão mal curada).

Há, no entanto, dores que não estão nessa definição... Mas que doem tanto (ou mais). São as dores da vida, que afetam o corpo, mas deixam marcas ainda mais profundas na alma.

O maior exemplo disso são as mulheres vítimas de violência que atendemos no projeto "Apolônias do Bem". E para explicar melhor, eu vou me "apropriar" das nomenclaturas científicas.

Essas mulheres sentem a "dor aguda" toda vez que são agredidas por seus companheiros - quando o dente se quebra em um pontapé... O rosto se desfigura em um tapa... A pele sangra em uma queda.

As "dores recorrentes", por sua vez, aparecem em cada episódio de violência que se repete - algo que, no geral, costuma se perpetuar nessas relações.

Por fim, a "dor crônica" aparece toda vez que essas mulheres se olham no espelho e veem as marcas que o agressor deixou em seu corpo. Dá pra imaginar?

Somado a isso, a "dor da pobreza" lhes impede de se libertar do companheiro, de cuidar dos filhos e seguir a vida sozinhas.

Agora, imagine que a cada 5 segundos uma mulher é vítima de violência no Brasil. E a cada 15, a agressão é física. Ou seja, enquanto você lia essa matéria, dezenas de brasileiras sentiam na pele o horror da estatística. A maior parte, dentro de casa, ameaçada por um membro da família. As dores delas são uma epidemia!

Em abrigos que atendem mulheres vítimas de violência, anualmente a TdB seleciona 200 mulheres que perderam seus dentes com paneladas e afins. Entretanto, isso ainda é muito pouco perto das milhões que precisam de ajuda. Como trataremos as dores delas? Seremos capazes de criar um remédio para isso?

* Segundo a Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED),

** Segundo a IASP (Associação Internacional de Estudos da Dor).

*** Idem

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS MULHERES NO BRASIL POST:

A vida das mulheres na Índia