OPINIÃO

O sucesso de Tite é combustível para a impunidade na CBF

As consequentes vitórias da Seleção calaram a Globo e o Galvão de novo. E também a imensa maior parte desse gado que a gente chama de povo.

23/03/2017 22:16 -03 | Atualizado 28/03/2017 19:03 -03
Paulo Whitaker / Reuters
Tite, Neymar e Seleção estão em ótima fase rumo à Copa da Rússia 2018.

Escrevo estas linhas algumas horas antes de o Brasil entrar em campo contra o Uruguai lá no Centenário de Montevidéu. Um jogo sempre cercado de muita rivalidade, repleto de tradição e histórias que ajudaram a formar a base do futebol de ambos os países.

A partida desta noite tem outro elemento que a torna ainda mais atrativa, já que ao Brasil basta um empate para que o passaporte para a Copa da Rússia do ano que vem seja devidamente carimbado.

E mesmo que saia derrotada pela Celeste em sua mítica cancha, ninguém mais duvida que a Seleção irá se classificar e até com boa folga. Pessoalmente, nunca duvidei que iria, embora até torcesse por isso. E as razões vocês compreenderão mais a seguir.

O que realmente me irrita – mas que de jeito algum surpreende – nesta boa fase da Seleção, além, é claro, daquele jeito insuportável que o Tite tem de se expressar, fruto de um media training tosco, cafona bagarai e que o deixa parecido com um desses malas da autoajuda e do zebeleosismo curupira, é que ela tem servido aos interesses da canalhada da CBF mais do que em qualquer outro momento da História daquele antro.

Foi só o time começar a ganhar que logo pararam de falar dos crimes cometidos pelos senhores da CBF, que há décadas comandam as orgias feitas lá dentro.

Aliás, justiça seja feita, não pararam de falar, não. Alguns até continuam fazendo o seu papel de informar, denunciar, criticar, cobrar etc. Mas esses são apenas os que o ex-presidente Ricardo Teixeira em entrevista à Revista Piauí em 2011 chamou de "traços". E os "traços" não têm peso suficiente para impactar a massa como impacta, por exemplo, a Rede Globo.

Alguns não muitos meses atrás, terminado mais um jogo do Brasil, no qual a Seleção do Dunga havia dado outro vexame, o narrador número um da Globo, Galvão Bueno, cobrou de forma veemente – veemência até ali inédita –, que mudanças fossem feitas logo. E citou os casos de escândalo envolvendo a cúpula da CBF, em especial seu atual presidente, Marco Polo Del Nero.

Foram palavras duras, diretas, ditas por alguém, cuja relevância midiática, pelo menos no esporte, é muito maior do que a de qualquer outra pessoa no Brasil. E providências foram tomadas pouco depois disso. Caiu o Dunga, o Gilmar Rinaldi, o Gallo... caiu geral! E para o lugar deles veio quem o País todo queria já desde o desastre da Copa de 2014.

O discurso de chegada do Tite foi num tom mais político do que se esperava. Mas o que importava já não era mais a parte política e/ou criminal da coisa. Só campo e bola voltaram a importar. Principalmente para quem investe muitos milhões para ter exclusividade nas transmissões dos jogos e que por isso não quer ver sua audiência desabar diante de atuações ridículas de um time mal treinado, mal-escalado e mal-acabado, comandado por um boçal sem educação, antipático, rancoroso e com comprovada incompetência para estar naquele posto.

As vitórias e boas atuações voltaram, e ao mesmo tempo a indignação com os cartolas acabou, assim, num estalar de dedos.

Não se ouve mais nada sobre o fato de o presidente Marco Polo continuar não fazendo viagens internacionais por medo de ser preso no momento em que puser os pés para fora do avião, nem sobre o "exílio" de José Maria Marin, tampouco sobre o sumiço do Ricardo Teixeira.

O justo e merecido sucesso do Tite e as consequentes vitórias da Seleção calaram a Globo e o Galvão de novo. E calaram também a imensa maior parte desse gado que a gente chama de povo.

O que eu ainda não consegui entender é por que trouxeram o Dunga de volta. Para mim há apenas duas explicações possíveis. Às vezes acho que foi só por burrice, mesmo. Um velho arrogante daqueles deve ter levantado a bola de que o melhor a fazer era trazer alguém que fosse arrumar tanto problema com a imprensa, que ela não ia ter tempo para falar deles, só do técnico.

Porém não levaram em conta – eles nunca levam –, que o futebol não permite esse tipo de improviso há um bom tempo. Já não permitia lá em 2006, quando o Dunga foi escolhido pela primeira vez. Mas ali ele ainda tinha o Jorginho ao lado, então a questão da arrumação do time ficava sob controle.

Sem o Jorginho e dependendo só de si para montar uma equipe, o capitão do tetra fracassou de forma retumbante. Ali ficou claro que ele não tinha a menor ideia do que fazer. Ficou claro que ele não é treinador de futebol. E aí o "fato novo" criado pelos velhotes foi pro brejo. O factóide surtiu efeito reverso, e foi nessa que todos os holofotes, câmeras e microfones se viraram para cima deles de vez. O bode expiatório deu em mico.

Outra explicação, essa bem mais inteligente e ardilosa, é a de que tenham previsto que as coisas com o Dunga sairiam exatamente do jeito como saíram. Levariam o caso até o limite, para só então chamar o Tite, que chegaria com status de herói e salvador da Pátria de chuteiras.

Deixariam os críticos bem raivosos, ladrando e babando por um longo tempo, e só aí jogariam para eles o pedaço de carne pelo qual tanto ansiavam. E esses, saciados e satisfeitos, não mais latiriam, e a vida de todo mundo voltaria ao normal, como agora. Tal possibilidade requer um nível de filhadaputice muito grande, mas bem adequado ao dos agentes envolvidos.

Seja lá o que tiver acontecido, não vai mais mudar o fato de que a Seleção irá se classificar, seja logo mais contra o Uruguai, ou contra o Paraguai na semana que vem, ou na próxima data Fifa.

O que também não muda no Brasil é o estado das coisas. Ou talvez até mude, mas quase sempre para pior.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública

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