OPINIÃO

O que esperar da nova MP do futebol

23/03/2015 16:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
RENATO COSTA /FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

A semana passada foi marcada pela apresentação da nova Medida Provisória (MP) do futebol. A presidente Dilma, o ministro dos Esportes, o presidente do Flamengo, Bandeira de Melo, representando os clubes, o goleiro Dida, representante do grupo Bom Senso F.C., e outros mais se reuniram em Brasília para o anúncio da medida, que agora segue para ser ou não aprovada pelo Congresso. Trata-se de mais uma tentativa de salvar o claudicante futebol brasileiro, mas que, como todas as anteriores, sofrerá uma resistência fortíssima por parte daqueles que rejeitam qualquer mudança no status quo, pois sabem que essas mudanças afetarão diretamente seus interesses pessoais. Interesses esses, que, em verdade, são o único e real motivo para ainda estarem metidos nesse negócio.

Para se ter idéia do que aguarda a MP na Câmara dos Deputados, onde a cartolagem tem um respaldo gigantesco garantido pela famigerada "bancada da bola" - grupo de deputados eleitos muito às custas de polpudas doações de campanha feitas pela CBF e federações estaduais -, basta ver que a CBF não enviou representante algum nem para esse nem para qualquer outro encontro posterior.

O próprio presidente Bandeira de Melo, que se fez presente e ativo ao longo de todo processo de construção da MP, tendo, inclusive, sugerido coisas que acabaram por integrar o texto final do documento, não estava lá em nome do todos os clubes da Série A. Não estava autorizado, por exemplo, a falar em nome de Botafogo e Vasco, clubes declaradamente aliados da federação do Rio e, por consequência, da Confederação Brasileira. Os dirigentes de Vasco e Bota demonstram bem que não são raros os casos de quem ainda prefere combater seus inimigos esportivos pessoais e até os imaginários em vez de combater o inimigo em comum, com o qual, na tentativa de ficar "bem na fita", se acumplicia.

Os que se opõe à MP e as demais iniciativas de se colocar alguma ordem nessa orgia têm razões de sobra para estarem preocupados. Se houver moralização, eles morrerão de fome. Que interesse eles poderiam ter em algo que os proibirá de se manterem eternamente em seus cargos, de gastarem mais do que arrecadam e, de quebra, ainda prevê que paguem com recursos extraídos de seus próprios patrimônios por danos que por ventura vierem a causar às instituições que dirigem?

É claro que a MP não é perfeita e pode-se dizer até que comete alguns excessos. A proibição de se gastar mais do que 70% da arrecadação para a montagem de times e o item que determina que os clubes beneficiados por ações do Estado mantenham quadros femininos nos seus departamentos de futebol são controversos.

No primeiro caso, não cabe ao governo delimitar esse gasto. Cabe, sim, fiscalizar os clubes no sentido de garantir que se mantenham em dia com seus compromissos e livres de qualquer pendência fiscal, trabalhista ou seja lá qual for mesmo que gastem mais do que os 70% previstos na Media Provisória.

Já o segundo trata de um assunto bastante complicado, uma vez que o futebol feminino jamais conseguiu despertar real interesse do público - e esse não é um fenômeno brasileiro apenas - e, portanto, não atrai investimentos que o sustentem. Isto posto, conclui-se que terá que sair do próprio governo os recursos necessários para a manutenção dessa modalidade dentro dos clubes, cabendo a eles, os clubes, somente o papel de gestores desses recursos. A verba, de toda forma, terá que ser pública. Não me parece uma alternativa inteligente, muito menos sustentável.

Entre vantagens e desvantagens, erros e acertos, a MP é boa e, caso aprovada, poderá representar o começo de uma era de avanço que há muito precisava começar. Porém, é bom relembrar as palavras daquele velho líder sindical, o qual, quando presidente da República, disse que "no Brasil tem lei que pega e lei que não pega". Nunca antes na história desse País ele esteve tão certo.