OPINIÃO

O lado 'bom' de Eurico Miranda

24/04/2015 11:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
MARCOS DE PAULA/ESTADÃO CONTEÚDO

Botafogo e Vasco farão a final do Carioquinha 2015. Essa é sem dúvida a decisão com qual a federação do Rio sonhava. E como sempre acontece nesses dias que antecedem o fim de um campeonato, é hora de se fazer aquele bom e velho balanço. Numa competição em que entreveros políticos, rachas, trocas de ofensas, brigas por lado de arquibancada e valor de ingressos, mordaças e julgamentos tiveram muito mais destaque do que qualquer partida, gol ou jogada, nada mais justo do que falar da figura que melhor representa o atual estado das coisas no futebol do Rio de Janeiro: Eurico Miranda.

Não é de hoje que Eurico Miranda arrasta suas correntes pelos porões do futebol fluminense. Para além daqui, porém, sua influência já foi bem maior, assim como o temor que muitos tinham dela. Hoje em dia, apesar de o futebol brasileiro ainda viver numa espécie de Matrix, onde o profissionalismo não passa de um discurso vago e distante à beça de se confirmar na prática, seu estilo não é capaz de fazer mais do que arrancar gargalhadas de quem ainda pára pra ouvir o que sai daquela boca entre uma baforada e outra no inseparável charuto. Mas não é pouca gente que para pra ouvir o que Eurico tem a dizer. E não são somente os vascaínos, principais responsáveis pela subsistência desse ser tão peculiar. Ele segue sendo escutado por milhares, só que é levado a sério por cada vez menos gente. Aos poucos vai se tornando uma espécie de caricatura viva. Apenas no Rio, onde ainda encontra respaldo suficiente pra manter sua conduta de senhor feudal, as coisas permanecem meio que do mesmo jeito que eram há 20 ou 30 anos. E isso ajuda a explicar um bocado do porquê de hoje haver mais times de Santa Catarina do que daqui na Série A do Brasileiro.

Todas as críticas podem ser feitas a Eurico Miranda. Dificilmente se poderá defendê-lo de qualquer uma delas. Entretanto, não é possível negar que o sujeito também tem lá seus predicados. E devo confessar que esses seus predicados me fazem nutrir uma profuda admiração por sua pessoa. Quem mais, além do Eurico, seria capaz de, em pleno século 21 e diante de tudo que se vê e se sabe dos estaduais hoje em dia, anunciar aos quatro cantos que o Carioquinha é a competição mais importante pro seu clube na temporada? Quem além dele, no discurso de posse, berraria com todas as letras que o Vasco jamais será rebaixado enquanto ele for presidente, mesmo que termine o campeonato em último lugar? E quem mais, no mesmo discurso, dedicaria a maior parte do tempo a falar do maior rival e do que pretende fazer pra transformar sua vida num inferno?

É preciso admitir que o cara tem coragem de sobra e nenhum receio de fazer o papel de advogado do diabo. E também é fiel. É fiel aos seus princípios, mesmo sendo esses completamente deturpados, e é fiel aos seus aliados. Poucos têm a sua disposição pra botar a cara e integrar de peito aberto a linha de frente pela manutenção do atual status quo do futebol no Brasil e, mais especificamente, no Rio. Porta-se como o cabeça de uma família mafiosa "old school", do tipo que vai à igreja com a esposa, filhos e netos todos os domingos, não permite que se fale palavrão dentro de casa e exige que todos lhe peçam a bnção, mas, ao mesmo tempo, não economiza nas barbaridades na hora de burlar, corromper e manipular quem e o que quer que seja pra que as coisas saiam exatamente do jeito que ele quer. Se eu tivesse a mínima capacidade de escrever um romance ao estilo "O Poderoso Chefão", certamente me inspiraria no dono da Colina pra cirar a personagem central da minha trama.

Outra característica que eu adoro no Eurico é a sua nenhuma preocupação em não parecer ser o que de fato é. Eurico não faz cena, não adota o papo furado do "não é bem assim". Com ele não tem essa de meias mentiras.. É tudo na lata, doa a quem doer. Você pode discordar de 100% do que ele diz e faz, pode até ter vontade de se matar ao ouvir aquele monte de sandices, mas de jeito nenhum vai poder dizer que foi dissimulado, nem que não faz muito bem o papel que se presta a fazer. Sim, porque uma coisa é criticá-lo por ser como é, outra é não reconhecer que cumpre como ninguém a função de ser a personalidade mais escroque dentre as muitas que ainda sobrevivem no cenário futebolístico tupy.

Apesar de reconhecer algumas "qualidades" no presidente do Vasco, é uma vergonha que ainda haja espaço no futebol pra gente como ele. A boa notícia, entretanto, é que essas personagens, mesmo que ainda muito lentamente, vão perdendo força. A proliferação de absurdos que se viu no Carioquinha deste ano, por exemplo, nada mais foi do que o desespero batendo à porta de quem sabe que não há mais como impedir que o futebol brasileiro se modernize e se profissionalize de verdade. O processo é moroso e todavia não visível à maioria dos que não vivem o dia a dia do esporte e, principalmente, dos seus bastidores, mas está em curso. Se o lado que ainda domina a cena conta com a força do corporativismo de uma classe que não quer de forma alguma largar o osso, o outro conta com as pressões que a própria realidade do esporte impõe a todos que querem sobreviver com sucesso nele. Não há mais como barrar esse processo de evolução. É como tentar tapar o vazamento nas comportas de uma represa metendo o dedo no furo. Agora, se nem assim eles deixarem de resistir, aí só nos vai restar torcer pra que a natureza faça a sua parte e leve embora do mundo dos vivos aqueles que já estão fazendo hora extra por aqui.