OPINIÃO

Não faltam razões para seguir acreditando no Leicester City

23/03/2016 18:28 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Em tempos estranhos, em que chineses desmontam times no Brasil, seduzem promessas do futebol internacional e superam até a Inglaterra com seus sheiks e seus bilionários russos e asiáticos em investimentos na compra de jogadores, é um milagre assistir ao feito desempenhado pelo Leicester no Campeonato Inglês.

Mesmo a derrota pro Arsenal, adversário direto na campanha, na última rodada muda esse fato.

Com 26 jogos disputados, o pequeno time da cidade do meio-oeste inglês tem dois pontos de vantagem sobre os vice-líderes Tottenham, que bateu o Manchester City fora de casa na jornada passada (1 x 2), e Arsenal (53 a 51).

Portanto, independentemente do que fizer no restante da temporada, a façanha já está consumada.

Exagero? Bem, o quase 1 bilhão de reais gasto em reforços pelo Manchester United, quinto colocado e a 12 pontos do líder, contra os cerca de 170 milhões do Leicester me dizem que não.

É bem verdade que o Leicester não escapa da nova ordem futebolística mundial, mesmo sendo um fenômeno. O clube, comprado em 2010 pelo bilionário tailandês Vichai Srivaddhanaprabha, dono de uma rede de lojas do tipo duty free, com unidades espalhadas pelo mundo inteiro, conta com um aporte de grana muito maior do que a imensa maioria dos clubes de tamanho similar ao redor do planeta. Porém, isso não diminui seu mérito.

Se fôssemos comparar com a nossa realidade, o Leicester seria uma espécie de Ponte Preta. Duvido muito que algum torcedor da Macaca, por mais otimista que seja, acredite que seu time irá disputar o título nacional pau a pau com Flamengo, São Paulo, Corithians, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Inter, Grêmio etc.

Como não poderia deixar de ser, a trajetória do Leicester tem personagens repletos de carisma e aquela dose de dramaticidade que toda personagem de um enredo tão rico deve ter.

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Aqui as que mais me chamam a atenção:

Jamie Vardy, o "herói do povo", é um autêntico representante da classe operária do Reino Unido. Aquilo que eles chamariam de um blue collar worker - algo como trabalhador braçal -, bebedor de cerveja preta, que curte sair na porrada na rua e quebrar bares.

Há cinco anos, o cara dividia seu tempo entre os treinos num time amador da cidade e o trabalho numa fábrica de talas médicas. Por ter se metido numa briga, acabou detido pela polícia e obrigado a andar seis meses com uma tornozeleira eletrônica, que o acompanhava inclusive nos jogos.

Quando as disputas eram longe de casa, o centro-avante, hoje dono da camisa 9 que um dia foi de Gary Lineker, o maior ídolo da história do clube, tinha que ajudar seu time a resolver a parada até os 15 minutos do segundo tempo, quando então era substituído e corria para o carro, onde seu pai e sua mãe o aguardavam para levá-lo para casa, pois Vardy, por determinação da justiça, tinha que estar lá antes das 18:00.

Talvez tenham saído daí a objetividade e o apetite por gols desse atacante de 29 anos, que, hoje, além da liderança de seu time na Premier League, comemora seus 18 gols, a quebra de alguns recordes, a artilharia isolada do campeonato e as convocações para a Seleção Inglesa.

Se não se lesionar, é presença garantida no time que irá disputar a Euro, em junho, na França. Que grande história, não?

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Riyad Mahrez, que passou sem muito destaque pelo Brasil com a Seleção da Argélia, em 2014, é o grande maestro do time. O meia-atacante de 24 anos não é um típico camisa 10 pelas circunstâncias físicas e táticas que o futebol de hoje impõe. Mas bem que poderia ser, porque não lhe falta qualidade para tanto.

Seja na bola parada ou em movimento, seu pé esquerdo é letal. Combina habilidade e técnica com velocidade, excelente visão de jogo e tranquilidade para fazer os gols. É simplesmente o melhor jogador do campeonato, até aqui.

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Kasper Schameichel, o goleiro, é filho da lenda Peter Schmeichel, camisa 1 da Dinamarca campeã européia de 1992 e, para muitos, o maior da história do Manchester United, clube pelo qual foi campeão da Champions League de 1999.

Aos 30 anos de idade e já tendo passado pelo mesmo United, porém sem qualquer sucesso, é pouco provável que se torne tão grande quanto foi seu pai. Mas o título ao final dessa temporada, se vier, fará justiça à ótima fase que vive.

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Shinji Okazaki é um atacante japonês de 29 anos, que jogou na Alemanha por quatro temporadas antes de desembarcar na Premier League. Rápido e habilidoso, lembra seu xará e compatriota Shinji Kagawa, meia do Borssuia Dortmund, que não emplacou na Inglaterra, onde atuou pelo Manchester United por uma temporada e meia. Os dois são ótimos exemplos do que significou para o Japão a passagem de Zico por lá.

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Robert Huth, 31 anos, faz o tipo zagueiro lenhador. Alto e forte como um jogador de rúgbi, o alemão de cintura dura é a imagem da seriedade e do bom zagueirismo, o que significa não ter vergonha de dar carrinhos, voadoras e chutões para frente sempre que a necessidade se apresenta.

Como se isso já não fosse o suficiente, é comum ver o center back se apresentando na área adversária em lances de bola parada para marcar seus gols. Foram dois no último sábado, na vitória de 3 a 1 sobre o Manchester City.

Apesar dos dois títulos ingleses com o Chelsea (04-05 e 05-06) e de uma muito boa passagem pelo Stoke City, clube pelo qual fez quase 150 jogos, não é errado dizer que vive agora o grande momento de sua carreira.

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Danny Drinkwater é meia (volante) e tem 25 anos. A trajetória do camisa 4 do Leicester não é muito diferente da que tem a maioria dos seus colegas de profissáo. Mas seu nome é único. E isso bastou para que fosse incluído nesta lista.

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Claudio Ranieri, o técnico, é um italiano gente boa de 64 anos, que fez carreira como jogador em times pequenos da Itália. Como treinador, passou por alguns grandes da Europa, como Chelsea, Inter de Milão e Juventus, mas sempre sem muito brilho.

Seu time pode não jogar um futebol espetacular, mas a campanha é. Merece ser reconhecido por ter sido capaz de montar uma equipe extremamente competitiva, que aposta muito na marcação forte e em contra-ataques, mas que está longe à beça de jogar feio.

O Leicester costuma impor um ritmo alucinante às suas partidas. Sem a bola, todos os jogadores de linha ajudam a fazer uma marcação ferrenha sobre os adversários; quando a roubam, apostam nos passes longos e na velocidade dos homens de meio e de frente para encaixar contra-ataques verdadeiramente mortais.

Trata-se de uma equipe que "despreza" a posse de bola, mas que faz um uso muito objetivo da mesma sempre que a tem. Apesar dos vários anos de estrada, Ranieri também vive o momento mais glorioso da carreira.

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Dá para apostar todas as fichas no título do Leicester? Lógico que não. A despeito de a campanha ser, sim, de campeão, é de se imaginar que em algum momento o time irá sentir o peso de suas limitações. Por outro lado, dos postulantes ao título, somente eles têm apenas o Campeonato Inglês com que se preocupar, o que diminui a necessidade de rodar o elenco.

Dá pra acreditar, sim. E se você, como eu, gosta mesmo de futebol, então não vai deixar de acompanhar o que vai rolar na Inglaterra nas próximas semanas. A história pode estar sendo reescrita bem diante dos nossos olhos. Nenhum de nós deve ser louco ao ponto de perder esse momento.

Pensar no que será do Leicester nos próximos anos é o que menos importa. Casos como o dele serão sempre os pontos fora da curva. Nessa atual configuração do futebol, em que tudo gera e custa muito dinheiro, a tendência é que eles se tornem cada vez mais raros. Mais do que nunca é preciso curtir esse momento e o que ainda nos resta do futebol que um dia conhecemos.

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