OPINIÃO

Campeonatos estaduais viraram questão de caráter. Ou falta dele

01/02/2016 22:22 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

2016-02-01-1454358582-6011112-dc219ce9f32646b1a24532df4d874d0a.jpg

O campeonato Carioca 2016 começou do mesmo jeito que o de 2015 e praticamente todos os 10 ou 15 anteriores a ele: estádios vazios, jogos insuportavelmente chatos, brigas nos bastidores e alguns lances patéticos, como no caso do Tigres do Brasil, de Duque de Caxias, que relacionou apenas 12 jogadores para o jogo contra a Portuguesa da Ilha do Governador (3 a 2 para a Lusinha) e ainda escalou dois de forma irregular.

Sim. Um time de futebol profissional, disputando uma competição de primeira divisão com alguns dos maiores do país e com cobertura de todos os principais meios de comunicação do Brasil, relaciona somente 12 atletas para uma partida e ainda põe dois para jogar fora das devidas condições. Quer um retrato mais fiel do que viraram o Estadual do Rio e sua federação?

O que se vê no Carioca não é muito diferente do que se tem em praticamente todos os outros campeonatos estaduais. Particularmente, não gosto deles há pelo menos 15 anos, quando passei a defender ferrenhamente seu fim. Eles não acabaram. Em alguns casos até aumentaram. No geral, tornaram-se verdadeiras aberrações, a face mais retrógrada e provinciana de um futebol que míngua.

Defender os estaduais, hoje, não é apenas falta de bom senso e conexão com a realidade, mas de falha de caráter, uma vez que sua existência só favorece a que se perpetue um modelo, cujo interesse exclusivo reside em manter as coisas exatamente como estão, pois essa é a única forma que seus dirigente têm para continuarem a gozar dos privilégios, prestígio e prerrogativas que jamais terão quando finalmente nos dermos conta de que eles de fato não servem para nada.

Talvez estejamos mais perto de assistir ao fim desse modelo do que jamais estivemos. A Primeira Liga e o torneio Sul-Minas-Rio são a grande esperança. O simples fato de a competição estar em curso, apesar de toda a pressão da FERJ e da CBF para que não acontecesse, deve ser considerado um avanço importante nesse sentido. Ainda mais quando a iniciativa conta com apoio maciço dos torcedores, inclusive os de times que não estão envolvidos na Liga, imprensa e do governo federal, com o ministro dos esportes, George Hilton, declarando publicamente, ao lado dos presidentes de Flamengo e Atlético Mineiro, apoio à Primeira Liga e à criação de uma Liga Nacional, que deixaria para a CBF apenas as tarefas de cuidar das seleções nacionais masculinas e femininas e da Copa do Brasil.

Ora, por mais que devamos ter os dois pés atrás com essa gente da política, é a primeira vez que um membro do primeiro escalão da presidência faz uma declaração tão direta quanto a de Hilton. Foi muito mais relevante, por exemplo, do que as notas emitidas por CBF e FERJ no dia seguinte ao da realização da primeira rodada, nas quais mudam de posição e decidem autorizar a continuação do torneio. Elas não precisavam autorizar nada e a Liga continuaria sem essa autorização. A Lei Pelé, que é federal, garante esse direito aos clubes. Foi só mais uma tentativa ridícula de tentarem mostrar quem é que ainda manda no pedaço. Já não mandam mais tanto assim. Nem devem.

Não há mais espaço para os estaduais na vida do futebol brasileiro. Eles até podem continuar a existir, mas não para todo mundo. A idéia de que precisam ser como são para que os clubes menores e seus jogadores possam sobreviver é mais uma dessas mentiras que se contam várias vezes e acabam virando "verdades" na cabeça dos menos atentos. Eles já não têm como se manter.

O modelo atual garante somente uma "ajudinha" que vem das federações em troca de apoio político a seus presidentes. É desse jeito que eles mantém o cabresto e, consequentemente, a máquina a funcionar. Até quando? Não sei. Mas espero que não por muito mais tempo. Ter que falar disso todo começo de ano já está mais chato do que assistir a Flamengo x Boavista em Edson passos.

LEIA MAIS:

-6 coisas que Eurico Miranda precisa saber antes de se mudar pra Sibéria

-Por que Zico tem o direito de sonhar com a presidência da FIFA

Também no HuffPost Brasil:

O que esperar do esporte em 2016? 11 momentos que vão valer a sua torcida

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: