OPINIÃO

Dieta pobre em carboidratos e rica em gorduras: é o que nós, médicos, ingerimos. Você também deveria

"Adotamos esse hábito para nós mesmos e nossas famílias, por motivos de saúde e bem-estar. E continuamos comendo assim porque adoramos o que comemos."

23/10/2017 08:00 -02

Como médicos, ficamos preocupados quando vemos informações errôneas circulando na mídia, especialmente quando vêm de profissionais de saúde. Portanto, gostaríamos de corrigir algumas questões levantadas recentemente por certos nutricionistas numa carta de opinião publicada num jornal de Quebec.

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Não é a 'dieta da moda'

Em primeiro lugar, a dieta pobre em carboidratos e rica em gorduras (LCHF, na sigla em inglês) não é a "dieta da moda". É uma maneira de comer tão antiga quanto o mundo. Os seres humanos evoluíram comendo dessa forma por centenas de milhares de anos. De fato, apenas nas últimas quatro décadas o homem começou a comer uma quantidade anormal e extremamente alta de carboidratos (pão, massa, batata, arroz, frutas e doces).

A natureza "restritiva" dessa dieta é muitas vezes citada como um argumento para não oferecê-la aos pacientes. Segundo essa lógica, será tão difícil mantê-la que a maioria das pessoas desistirá no curto ou no médio prazos.

Pessoas que decidem ser vegetarianas enfrentam restrições e fazem escolhas para sua própria saúde, assim como as que são intolerantes ao glúten. Não nos esqueçamos de que os indivíduos que seguem uma dieta pobre em gorduras – a dieta da moda das últimas décadas – também enfrentam restrições alimentares, tais como: evitar laticínios integrais, queijos gordurosos, creme de leite, manteiga, ovos e certos cortes de carne. Quando se trata da saúde, todos fazemos escolhas. A dieta pobre em carboidratos não foge a essa regra, e não é mais restritiva que as outras. Merece ser oferecida.

O prazer de comer é de fato importante. Mas consideramos que o prazer de levar uma vida saudável é ainda mais importante.

Seguir uma dieta baixa em carboidratos geralmente faz com que a contagem de gramas ou calorias seja desnecessária. Essa prática, tão comum em muitas abordagens no campo da nutrição, pode desencadear um transtorno alimentar. Em vez disso, os pacientes são ensinados a ouvir seus corpos e a parar de comer quando se sentem satisfeitos. A perda de peso tem se mostrado mais efetiva com dietas baixas em carboidratos do que com o habitual regime pobre em gorduras, e ela ocorre quando nos sentimos saciados.

Devemos entender que, a fim de obter a energia necessária para o corpo funcionar adequadamente, assumindo que a ingestão de proteína é constante, a ingestão de carboidratos deve ser maior se as gorduras forem drasticamente reduzidas. Preferimos uma abordagem que seja mais baixa em carboidratos e mais alta em gorduras naturais do que as diretrizes dietéticas atuais recomendam. Gorduras naturais estão presentes na manteiga, no creme de leite, em cortes inteiros de carne, queijos gordurosos, azeite de oliva, abacate e coco, por exemplo.

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A experiência de milhares de médicos e outros profissionais de saúde

Nossa experiência clínica e pessoal mostra que essa dieta é mais variada, saborosa e saciável que o regime com baixo teor de gordura proposto pelo Guia Canadense de Alimentação. Somos milhares de médicos de todo o país e do mundo inteiro, e adotamos essa maneira de comer para nós mesmos e nossas famílias, por motivos de saúde e bem-estar. E continuamos comendo assim, em parte, por que adoramos o que comemos.

O principal objetivo da LCHF não é a rápida perda de peso. A LCHF é um modo de comer, um estilo de vida. A perda de peso é um dos efeitos colaterais dessa forma de comer – e nem sempre é rápida. Oferecemos essa dieta aos nossos pacientes porque ela pode reverter diversas doenças crônicas ligadas ao estilo de vida, como diabetes tipo 2, síndrome metabólica, dor crônica, cansaço crônico e hipertensão.

Eis o que observamos no consultório: os níveis de açúcar no sangue caem, a pressão arterial é reduzida, a dor crônica diminui ou desaparece, os perfis lipídicos e os marcadores inflamatórios melhoram, a energia aumenta, o peso diminui, o sono melhora, os sintomas da síndrome do cólon irritável são suavizados, etc. A medicação é reduzida ou até mesmo eliminada, o que diminui os efeitos colaterais para os pacientes e os custos para a sociedade. Os resultados que obtemos com os nossos pacientes são impressionantes e duráveis.

Com as recomendações atuais, por outro lado, os pacientes continuam diabéticos e precisando de remédios, geralmente em dosagens maiores com o passar do tempo. Não dizemos que a diabetes tipo 2 é uma doença crônica e progressiva? Mas não precisa ser assim. Na verdade, a doença pode ser revertida ou colocada em remissão. Dos pacientes que tratamos com uma dieta pobre em carboidratos, a maioria poderá deixar de tomar a maioria ou todos os medicamentos.

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De onde vem a energia?

O corpo humano obtém a maior parte de sua energia dos carboidratos, proteínas e lipídios ingeridos. Mas os carboidratos não são essenciais para fornecer combustível. Os lipídios podem exercer esse papel no corpo humano, muitas vezes com maior eficiência. Existem ácidos graxos essenciais e aminoácidos essenciais, mas não existem carboidratos essenciais. De acordo com a Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA, "o limite mais baixo de carboidratos compatível com a vida é aparentemente zero, desde que sejam consumidas as quantidades adequadas de proteína e gordura."

Um dos mitos mais comuns é que os carboidratos são essenciais para a função cerebral. Isso é falso. Certas partes do cérebro precisam de glicose, possivelmente cerca de 130 gramas por dia, mas a glicose não precisa vir dos carboidratos ingeridos. O fígado pode facilmente produzir a glicose necessária a partir de proteína e gordura – é a chamada gliconeogênese. Assim, reduzir a ingestão diária de carboidratos para 130 gramas já seria um passo na direção correta em relação ao que muitos pacientes comem atualmente. E corresponderia a uma forma liberal da dieta LCHF, gerando verdadeiros benefícios para a saúde da maioria dos indivíduos.

O principal objetivo da LCHF não é a rápida perda de peso. A LCHF é uma maneira de comer, um modo de vida.

Muitos de nós, médicos, assim como nossos pacientes, estamos muito bem ingerindo de 20 a 50 gramas de carboidratos por dia, com uma energia estável e uma clareza mental que não sabíamos que existia. Muitos atletas de alto nível também adotam essa forma de comer para aumentar a performance e a resistência, após um período adequado de adaptação.

É verdade que os carboidratos podem contribuir para o prazer de comer, mas não são essenciais para tornar a comida saborosa. Dito isso, uma dieta baixa em carboidratos, quando bem elaborada, abrange inúmeras fontes de carboidratos de alta qualidade provenientes de alimentos não processados, como vegetais, derivados de leite integral, nozes, sementes, frutas silvestres (como morangos e amoras), legumes e quantidades menores de grãos inteiros. Pessoas com diabetes podem escolher comer menos desses produtos, enquanto outros sem problemas metabólicos podem decidir comer mais. O prazer de comer é de fato importante, mas o prazer de levar uma vida saudável é ainda mais importante em nossa visão.

Mencionemos brevemente que as pessoas que adotam uma dieta com baixo teor de carboidratos relatam, com muita frequência, uma redução significativa ou o desaparecimento dos sintomas da síndrome do cólon irritável, incluindo menos cólicas, flatulências e inchaços. Acreditamos que seja provável, portanto, que sua microbiota (flora intestinal) melhore.

Deficiências? Outro mito!

Uma dieta baixa em carboidratos bem elaborada, com comida não processada, não gera deficiências nutricionais. Na verdade, é o contrário. Os alimentos preferíveis contêm grandes quantidades de fibra, minerais e vitaminas, incluindo vitaminas lipossolúveis muitas vezes esquecidas em dietas baixas em gorduras. Não há nutrientes úteis em produtos com grãos enriquecidos que não sejam encontrados naturalmente, e em quantidades suficientes, em carnes, ovos, vegetais verdes e nozes. A maioria dos produtos com grãos disponíveis hoje, tais como pães e massas, são processados e, às vezes, ultraprocessados. Preferimos produtos não processados.

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Guia Canadense de Alimentação: onde estão as evidências?

Acreditamos que as doenças nutricionais crônicas são causadas sobretudo por um excesso de alimentos processados. Quando sugerimos reduzir o teor de carboidratos para ajudar a reverter essas doenças crônicas, os críticos geralmente nos dizem que devemos parar de procurar o nutriente culpado e priorizar o equilíbrio. Isso deve significar que essas pessoas pensam que é melhor ingerir uma "dieta equilibrada", como propõe o Guia Canadense de Alimentação.

Mas esse guia, em sua formulação atual, não é de modo algum equilibrado. Coloca muita ênfase em carboidratos relativamente pobres em nutrientes, incluindo os processados e ultraprocessados, sem destaque suficiente para os lipídios. Essas recomendações nunca foram realmente testadas na população para ver se de fato são boas para a saúde. Tampouco são apoiadas por qualquer estudo científico. Desde o lançamento dessas diretrizes nos EUA e no Canadá – e, especificamente, desde o aumento das porções recomendadas de carboidratos –, as taxas de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, para citar apenas essas três doenças crônicas, explodiram. Será que as recomendações do nosso Guia estão nos deixando doentes?

Mais de 700 médicos e profissionais de saúde enviaram recentemente ao Ministério da Saúde do Canadá uma petição, com assinaturas colhidas em todo o país, para que as próximas recomendações do Guia sejam baseadas em evidências. Ainda dá tempo de você assinar, se ainda não o fez.

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Açúcares e fígado gorduroso

É verdade que há uma diferença entre alimentos processados ricos em carboidratos e alimentos inteiros ricos em carboidratos, tais como frutas. Mas seria simplista acreditar que, só porque algo é natural ou tem o termo "grãos inteiros" no rótulo, como uma banana ou um "pão com grãos inteiros", não podemos desenvolver problemas de saúde se os ingerirmos nas quantidades recomendadas pelo Guia. Os humanos evoluíram como caçadores-coletores, alimentando-se quase exclusivamente de carnes e vegetais. Embora as frutas sejam naturais, os humanos comiam quantidades muito pequenas, a maioria na forma de frutos silvestres, e não durante todo o ano. Eram os doces ocasionais da natureza, bem diferente dos quilos de guloseimas que vemos hoje nas mercearias o ano todo.

Também é verdade que os carboidratos vêm em diversas formas. Produtos com grãos são degradados em glicose, ao passo que o açúcar (açúcar branco, xarope de milho, mel) e as frutas contêm uma mistura de glicose e frutose. A glicose e a frutose não têm o mesmo efeito no corpo. Mesmo em pequenas quantidades, o fígado tende a transformar frutose em gordura e a armazená-la nas células. Se a ingestão de açúcar for alta, pode-se desenvolver a esteatose hepática (conhecida também como "fígado gorduroso"). Comer menos açúcar e mais gordura é um modo eficiente para reverter essa condição.

Não importa se o açúcar vem da banana, de um refrigerante ou de um pedaço de pão: ele geralmente terá o mesmo efeito na concentração de açúcar do sangue, em particular nos diabéticos. O nível do açúcar no sangue vai aumentar. E quando isso acontece, o pâncreas secreta insulina para reduzir a glicemia. Essa insulina também pode vir na forma de uma injeção prescrita pelo médico.

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Morrer de ataque cardíaco com nível normal de açúcar no sangue

Acredita-se que um excesso de insulina no organismo, devido a uma ingestão excessiva de açúcar, provoque resistência à insulina no longo prazo: as células respondem cada vez menos ao sinal desse hormônio. Ter um fígado gorduroso pode também piorar a resistência à insulina e ao diabetes. Isso promove ganho de peso, pressão alta e inflamação. No longo prazo, aumenta o risco de problemas como doença cardiovascular, cegueira, insuficiência renal e disfunção erétil. A maioria das pessoas não sabe que mesmo o perfeito controle da glicemia com um uso intensivo de medicamentos pode não necessariamente prevenir a ocorrência de doença cardiovascular em diabéticos (estudos ACCORD e ADVANCE). Por quê? Porque não se atacou a origem do problema; a resistência à insulina e o excesso de insulina no sangue não foram abordados. Morrer de ataque cardíaco com um nível normal de glicemia não é nosso objetivo, certo?

Para alguém com diabetes, não faria mais sentido reduzir significativamente a ingestão de açúcar do que tomar remédios para manejar o excesso de glicemia? Não seria melhor que essa pessoa administrasse sua diabetes tipo 2 sem remédios nem insulina, com uma dieta baixa em carboidratos?

Muitos de nós, médicos, queremos poder trabalhar com nutricionistas para ensinar os pacientes a comer menos carboidratos. Assim, poderemos reduzir ou eliminar boa parte dos medicamentos que eles tomam e ajudá-los não apenas a gerir suas doenças crônicas causadas por decisões sobre o estilo de vida, mas também a revertê-las.

Assinado,

Èvelyne Bourdua-Roy, médica de família da Cooperativa de Saúde-Solidariedade de Contrecoeur, Quebec, Canadá.

(Lista completa de assinaturas.)

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost CA e traduzido do inglês.

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