OPINIÃO

Por que eu odiava o termo alma gêmea (até ontem)

20/06/2014 09:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Getty Images
341913 02: Actors Brad Pitt and Claire Forlani in a romantic scene from the film 'Meet Joe Black.' (Photo by Liaison)

"Alma gêmea." Essas palavras me causam repulsa. Elas me remetem a Hollywood e cartões e filmes piegas em que a protagonista fica com o homem dos seus sonhos e a cena final mostra os pombinhos se beijando apaixonadamente em um aeroporto e os espectadores saem acreditando que eles viveram felizes para sempre.

Sinto decepcioná-los, mas não existe alma gêmea. Pelo menos era o que eu achava até ontem.

Só para deixar bem claro: Não conheci o homem dos meus sonhos ontem. Não me casei ontem. Ontem não foi um dia extraordinário.

Ontem foi um dia comum. Eu acordei, tomei banho, acordei os meus filhos e os arrumei para irem à escola, dei um beijo no meu marido e saí para trabalhar. Mas ontem eu li algo que me fez repensar todo esse lance de alma gêmea. Era algo que eu havia escrito quando tinha 22 anos e estava prestes a me formar da faculdade. Estava rabiscado em tinta preta, numa folha solta que achei em uma pasta vermelha com contos e poesias que escrevi durante a faculdade. Guardei essa pasta durante os próximos 16 anos. Eu estou escrevendo uma autobiografia sobre perder e encontrar o amor, então vasculhar por velhos textos e diários é algo que tenho feito com frequência. Mas, por alguma razão, peguei aquele pedaço de papel e ele me tocou imediatamente. Sabe quando você lê algo no momento certo? Você tem a sensação de que é obra do destino, como encontrar uma alma gêmea, e você acaba se perguntando se talvez exista uma força maior operando nesse mundo. Eu não vou dizer que é Deus, pois não sou uma pessoa muito religiosa, mas eu diria que é como um Espírito, como se alguém estivesse cuidando de mim (talvez a minha avó que faleceu quando o meu pai tinha 18 anos).

O que eu li foi isso:

Foi D.H. Lawrence que melhor soube expressar - uma vez que alguém para de mudar ou proíbe que você mude, o amor, a vida em si, acaba perdendo-se. Uma vez que você para de mudar, você para de viver e pode-se dizer que você está morto, pois sua alma já pereceu. "Uma alma gêmea é alguém que desafia a sua alma". Isso é verdade, totalmente verdade. Uma alma gêmea é alguém que deixa que você mude ao mesmo tempo em que aceita quem você é - e mais importante, a pessoa que você irá se tornar.

Eu nem lembro o que me levou a escrever isso. Sinceramente não lembro o que me motivou a escrever aquelas palavras. Nem sei se de fato foi D.H. Lawrence que disse que "uma alma gêmea é alguém que desafia a sua alma". Joguei a citação no Google para tentar achar o autor, mas não tive sorte. Mas não importa quem as proferiu; eu acredito nelas. Devo ter acreditado nelas aos 22 anos também, mas acho que não sabia o que elas significavam. E eu sei com certeza que naquela altura ainda não havia conhecido a pessoa que desafiava a minha alma - com exceção talvez da minha melhor amiga, que eu acredito ser uma de minhas almas gêmeas.

E é esse exatamente o ponto: a ideia de que existe uma alma gêmea para cada pessoa é ridícula. Se você amplia a definição, a alma gêmea não precisa ter uma conotação romântica. Minha melhor amiga é minha alma gêmea; meu filho é minha alma gêmea; um homem que conheci mas nunca cheguei a beijar é minha alma gêmea. Mas, às vezes, o relacionamento entre almas gêmeas pode ser romântico. Pode até durar uma vida inteira. Se você tivesse me perguntado ontem se o meu marido era minha alma gêmea, eu teria respondido 'não'. Somos diferentes demais para sermos almas gêmeas, eu teria dito. Eu teria dito que ele era "o homem da minha vida". Mas minha alma gêmea? Sem dúvida diria que não.

Podem dizer que não sou romântica, que sou prática demais. Mas eu casei com um homem por quem eu não só me apaixonei - mas que eu também via como meu parceiro de vida. Alguém com quem eu poderia dividir a vida e com quem eu também poderia viver a MINHA própria vida. Não uma alma gêmea.

Até ontem, quando achei aquela folha de papel. Se eu defino uma alma gêmea como alguém que me permite mudar e que me apoia nessas mudanças, então com certeza meu marido é minha alma gêmea. Na verdade, ele é o único homem - além do meu pai - que me apoia dessa maneira, o único homem que desafia a minha alma e me ama mesmo quando é difícil me amar, mesmo quando deixar de me amar seria mais fácil.

Na edição de Abril da revista Glamour americana, perguntaram a Lena Dunham, protagonista e criadora da série "Girls", da HBO, "Como é ter um relacionamento em que o outro te apoia?"

Ela respondeu:

É quando alguém te dá o espaço e o tempo que você precisa para fazer o seu trabalho. É uma pessoa que diz: "Você não poderia fazer nada que me deixasse com vergonha de você. Simplesmente seja você de maneira íntegra e eu ficarei orgulhoso de você". Acho que as mulheres aprendem a ficar ao lado do seu homem, observando a ascensão dele até o topo, mas a maioria dos homens nunca acredita que a mulher com quem se relacionam vai alcançar uma posição mais alta do que tinha quando eles a conheceram. A pessoa precisa ser muito especial e evoluída para conseguir lidar com as mudanças dentro de um relacionamento".

Acho isso o máximo. A Lena acertou em cheio. Antes de conhecer o meu marido, todos os homens com quem me relacionei queriam que eu continuasse a ser a mulher que eles conheceram em um momento específico. Eles amavam o meu lado sonhador, mas detestavam quando aqueles sonhos começavam a se realizar. Eles queriam abafar aquelas mesmas ambições que antes haviam achado tão apaixonantes.

Então, quando eu penso em almas gêmeas agora, eu penso em alguém que te apoia. Se você encontrar alguém que permite que você mude enquanto ele ou ela aceita quem você é e quem você se tornará, fique bem próximo dele ou dela. Não deixe que essa pessoa escape.

Isso, sim, é romance. Não é aquela cena apaixonada no aeroporto. Não é aquele beijo de três minutos com uma música arrebatadora de fundo. Não é aquele abraço na cena final. É tudo que vem depois disso (só não o "e viveram felizes para sempre").

Evelyn está preparando uma autobiografia sobre o amor e escreve no blog www.firstpagelast.com. Pode segui-la no Facebook, Twitter, ou Instagram.

TAMBÉM NO BRASIL POST

10 declarações de amor mais marcantes do cinema