OPINIÃO

#SomosTodosFeministas: você precisa sair do armário

02/03/2015 19:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02
seven_resist/Flickr

Eu sou de uma geração de mulheres filhas de pais que foram adolescentes na década de 1960 e se casaram na de 1970. Mesmo tendo sido criada em um lar conservador e protestante batista, em que o sonho das adolescentes e jovenzinhas da igreja era se casar e ter filhos, meus pais tiveram o cuidado de semana sim, semana não, me dizer a seguinte frase:

"Você não está sendo criada para servir a homem nenhum."

Eu achava a frase bem forte, mas sentia algo dentro de mim que só a vida adulta conseguiria elaborar: empoderamento. Eu sabia, no meu âmago, que estava sendo criada de um modo diferente das meninas com as quais eu convivia naquela bolha.

Aos 12 anos, eu também me lembro de ter falado em voz alta aos coleguinhas da aula de redação - aula em que eu tirava minhas melhores notas - a seguinte frase:

"Eu seria jornalista se a rotina da profissão não fosse tão desregrada. Não daria para ser jornalista e ter uma família."

Em nenhum momento da minha breve vida até ali, ouvi qualquer cobrança dos meus pais para me casar, ter filhos e escolher uma profissão confortável. Como, então, uma garotinha de apenas 12 anos poderia ter falado uma frase tão incoerente?

Pois na geração de meninas e meninos que eu cresci, dentro e fora da igreja batista, a ordem do dia era a conquista de uma profissão, era fincar bandeira na guerra já ~vencida~ da geração dos meus pais e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para jamais ser chamada de #galinha. Éramos a geração que, ao mesmo tempo, desfrutaria da conquista de #ficar com alguém sem precisar namorar - é, foi a gente que conquistou isso aí na adolescência quando a expressão nem existia. Minha geração, a geração das incoerências.

Nos anos seguintes, ainda jovenzinha, a palavra #galinha virou piada. Politizada, dona do próprio nariz? Então agora você teria de evitar ser chamada de #feminista. É, porque ser feminista significava um bocado de coisas radicais e desequilibradas. E se a gente era a geração que estava protegendo a bandeira do feminismo já fincada pelos nossos pais, por que precisava mexer nisso? Era para deixar quieto. Manter a cabeça erguida era suficiente.

Os anos se passaram e vimos ao vivo que aquilo era uma grande balela. Que devolver uma cantada indecorosa na rua ou no trânsito mostrando o dedo do meio não era o bastante. Que lutar pelo empoderamento feminino e a igualdade de gêneros e não assumir-se #feminista foi uma das grandes perdas de tempo da última década.

Está lançado o apelo: saia do armário. Não evite a palavra, assuma. Uma palavra; muitos significados. #SomosTodosFeministas.

{*Hoje sou jornalista e #emdefesadetodasasfamílias, sou casada há dez anos e não tenho filhos por opção.}