OPINIÃO

É golpe ou não é? Uma análise jurídico-política do momento político atual no Brasil

07/04/2016 12:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ASSOCIATED PRESS
Woman shows poster written in Portuguese "There will not be a coup" next to a picture of Brazil's President Dilma Rousseff, during a rally in her support and of former President Luiz Inacio Lula da Silva, in Brasilia, Brazil, Friday, March 18, 2016. Supporters of Silva and Rousseff gathered for rallies in a handful of cities across Brazil, particularly in the industrial south, where the former factory worker has his base. Silva has been tied to a sprawling corruption investigation involving the Brazil oil giant Petrobras. (AP Photo/Eraldo Peres)

Este texto foi escrito para servir de roteiro de fala em um debate realizado pelo Centro Acadêmico Vladimir Herzog, da Faculdade Cásper Líbero.

Como professora da disciplina "Legislação e prática jurídica" no curso de jornalismo da Faculdade, a pergunta que mais tenho ouvido nos últimos dias é "Professora, o que você acha? Afinal de contas, é golpe ou não é?".

Com um pouco de receio de decepcionar com a resposta - que, em minha leitura, não admite um simples sim ou não - vou tentar expor alguns dos elementos relevantes para o debate.

Comecemos pelo (possível) final da história:

Os artigos 85 e 86 da Constituição Federal de 1988 e a Lei 1.079/1950 que definem a tramitação constitucional e legal do processo de impeachment.

Tanto a Constituição brasileira como a lei especial a que ela faz referência estabelecem os "crimes de responsabilidade" como sendo crimes muito diferentes dos crimes convencionais, definidos majoritariamente no Código Penal. Tomemos como exemplo a redação do artigo 317 desse código.

CORRUPÇÃO PASSIVA

Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. (Redação dada pela Lei nº 10.763, de 12.11.2003)

§ 1º - A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.

A descrição da conduta no Código Penal é bastante específica. A ação, solicitar ou receber vantagem indevida, deve ter relação com a função pública desempenhada pelo agente. Por meio do atendimento à solicitação ou do pagamento de vantagem quer-se direta ou indiretamente influenciar uma ação (ou omissão) de um servidor público.

Os textos que definem os "crimes de responsabilidade" na Lei de 1950, por sua vez, são muito menos precisos. Chegam ao ápice de sua amplitude no artigo 9º, incisos 3 e 7, por exemplo:

LEI Nº 1.079, DE 10 DE ABRIL DE 1950.

DOS CRIMES CONTRA A PROBIDADE NA ADMINISTRAÇÃO

Art. 9º São crimes de responsabilidade contra a probidade na administração:

1 - omitir ou retardar dolosamente a publicação das leis e resoluções do Poder Legislativo ou dos atos do Poder Executivo;

2 - não prestar ao Congresso Nacional dentro de sessenta dias após a abertura da sessão legislativa, as contas relativas ao exercício anterior;

3 - não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição;

4 - expedir ordens ou fazer requisição de forma contrária às disposições expressas da Constituição;

5 - infringir no provimento dos cargos públicos, as normas legais;

6 - Usar de violência ou ameaça contra funcionário público para coagí-lo a proceder ilegalmente, bem como utilizar-se de suborno ou de qualquer outra forma de corrupção para o mesmo fim;

7 - proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decôro do cargo.

Também o processo que leva à condenação - ou não - de um Presidente da República é menos rigoroso do ponto de vista do processo legal. Suas regras estão previstas no regimento interno do Congresso Nacional e não na própria lei. No caso de crimes comuns, há o Código de Processo Penal para definir as etapas e possibilidades de defesas, de recursos, de provas admitidas e ilícitas. No caso dos crimes de responsabilidade, há apenas a definição do quórum necessário para a abertura do processo (2/3 da Câmara dos Deputados) e do órgão competente para julgá-lo (Senado Federal).

Todas essas diferenças indicam para uma mesma constatação: embora os crimes comuns (as infrações penais previstas no Código Penal) e os crimes de responsabilidade (previstos na Lei 1079/1950) tenham ganhado o mesmo nome de "crimes" recebem tratamentos bastante diferentes em nosso ordenamento jurídico.

A amplitude da definição legal da lei de 1950 e o fato de seu julgamento ocorrer no Congresso tornam quase obrigatoriamente o processo de impeachment um processo político, com todas as suas especificidades.

Além disso, as duas etapas: admissão da denúncia por 2/3 da Câmara dos Deputados (342 deputados) e, depois, o julgamento pelo Senado Federal fazem com que esse instituto aproxime o nosso sistema presidencialista do parlamentarismo.

Se nada - nenhum ato efetivamente realizado da presidente Dilma - tivesse que ser provado ao longo do processo do impeachment, nosso sistema se assemelharia à situação que acomete alguns primeiros-ministros em sistemas parlamentaristas: a perda do apoio político no Poder Legislativo significa, quase automaticamente, a perda do cargo. Nesse regime, admite-se que sem ter o apoio de um certo número de parlamentares é impossível governar. Essa circunstância, sem mais requisitos, leva ao fim do mandato. No nosso sistema, a Constituição parece querer dizer: sem 172 deputados a favor de seu governo (e metade dos 81 senadores), é impossível governar. Mas... para começar a contar os votos, é preciso que tenha acontecido alguma ação concreta a ser discutida.

Há a necessidade de se comprovar algum ato praticado intencionalmente pela presidente para justificar seu afastamento. Esse algum ato tem sido interpretado até aqui em nossa história constitucional (EXS Hélio de Oliveira Santos - Campinas; Roseana Sarney - Maranhão) como um ato de corrupção. Mas o texto da lei de 1950 é muito mais amplo do que isso, como já vimos acima. E admitiria atos muito mais suaves, deixando uma grande margem para os parlamentares do Congresso Nacional decidirem. A ação e o procedimento de defesa são quase desculpas para o início do processo de impeachment que, no fundo, responde a decisões políticas mais do que fáticas ou de enquadramento jurídico.

Até aqui, a análise jurídica da situação.

Mas o fato é que os deputados e senadores não decidem votar a favor do impeachment da Presidência no vácuo. Sabem que, a depender da decisão, podem causar maiores transtornos políticos do que aqueles que queriam resolver. O instituto extremo precisa de um ambiente político extra-institucional que garanta a legitimidade para a decisão. É bom lembrar que os parlamentares também estão lá por causa dos votos recebidos. Muitos serão novamente candidatos em 2018. Por mais que em muitas pautas ajam sozinhos, sem respaldo social, em um tema tão delicado não decidiriam simplesmente com as próprias consciências e convicções políticas. Se agirem, agirão respondendo a um clima de época.

Aqui a segunda parte da análise, a político-jurídica.

Já que o rito constitucional e legal do impeachment é político, é preciso analisar o contexto e as condições políticas em que essa decisão está sendo/será tomada.

Desde a condução coercitiva do Lula (art. 260 Código de Processo Penal); alimentada pelo pedido de prisão preventiva do Ministério Público de São Paulo (art. 312 do Código de Processo Penal ); somada à decisão de tornar o Lula Ministro da Casa Civil e obter foro privilegiado (art. 102, I, c CF), decisão questionada por peculiar decisão monocrática do Gilmar Mendes; e, culminando - apesar da inversão cronológica - com a quebra do sigilo das interceptações telefônicas de Lula (art. 8º da Lei 9296/1996 ), seguida de intensa exposição midiática e preparação policial para manifestações de rua, podemos dizer que criou-se, institucional e algo artificialmente, um clima de pressão popular pela renúncia e de apoio ao impeachment.

Justiça Federal, Ministério Público do Estado de São Paulo, Polícia Federal, grandes veículos de comunicação, parte do Supremo Tribunal Federal, Polícia Militar do Estado de São Paulo (e outras) foram instituições que atuaram como em um concerto musical, cada um no momento exato de começar a tocar, para produzir o clima de polarização que estamos vivendo hoje.

Pouco importa se houve efetivamente uma organização centralizada que ordenou essa sucessão de atos das diferentes instituições. Possivelmente apenas o interesse comum em derrubar (por quaisquer métodos) a presidente Dilma foi a origem da série de ações promovidas por instituições do Sistema de Justiça, redes de TV, Polícia Militar, entre outros.

O fato é que essas ações foram capazes de tornar um momento, sim, de crise econômica e política em um verdadeiro inferno institucional.

A manifestação marcada para o dia 13 de março parece ter sido o sinal para que a série de ações institucionalizadas tivesse início com a condução coercitiva em 4 de março. A reunião da executiva nacional do PMDB, que desde 2015 estava marcada para 29 de março, também era data importante. O clima tinha que ser produzido de forma a conseguir produzir efeitos no partido fiel da balança do sistema político.

Alguns comentaristas já previam que, após recesso do legislativo, março seria um mês intenso. A possibilidade de prever já em janeiro a instabilidade institucional que viria em março . É possível que os atores institucionais envolvidos - incluindo um juiz federal de primeira instância - compartilhassem essa percepção.

Seja como for, as instituições foram seletivas - como costumam ser em outras circunstâncias (contra pretos, pobres, putas, movimentos sociais, índios e outros excluídos sociais). Só que, além de seletivas, atuaram em sequência para produzirem coletivamente o atual momento político que estamos vivendo.

Sem a condução coercitiva, será que a manifestação do dia 13 de março teria sido tão grande?

Sem o pedido de prisão preventiva do Lula divulgado pelos promotores de São Paulo, teria sido ele indicado para Ministro da Casa Civil?

Sem a indicação de Lula para Casa Civil, teria o juiz Sérgio Moro tido respaldo político para divulgar as interceptações telefônicas?

Sem a enorme exposição que a Globo concedeu para as conversas de Lula recém-gravadas na quarta-feira 16 de março, teriam manifestantes se aglomerado na frente da FIESP?

Teriam os manifestantes verde-amarelo continuado seu protesto se a Polícia Militar de São Paulo não tivesse garantido um quilômetro de Av. Paulista fechada mesmo quando - sou testemunha ocular! - havia apenas 50 manifestantes, na manhã de quinta-feira, 17 de março?

Sem essa sucessão de fatos institucionais as pessoas estariam se hostilizando mutuamente nas ruas meramente em função das cores de camisa com que decidiram sair de casa?

Nessa sucessão de atos, alguns "lances" explicitamente ilegais. Notadamente a condução coercitiva do Lula, o pedido de prisão preventiva e a quebra do sigilo das interceptações telefônicas. Quanto à incitação às manifestações pelas redes de TV do Brasil, deixo para vocês, comunicadores, a avaliação.

Oscilei e oscilo muito ao classificar o que está acontecendo no país, especificamente o processo de impeachment, como golpe. Por um lado, o procedimento é político. E está definido na Constituição e na lei de 1950 como sendo político. Por outro lado, esse procedimento só é aplicado em momentos muito específicos de nossa história constitucional. Basicamente, os deputados e senadores precisam de um ambiente político favorável para aprovar o impeachment (caso contrário, além da enorme chance de não dar certo, seria o suicídio político dos próprios articuladores).

No caso do Brasil de março de 2016, o que sinto é que houve ações concertadas do sistema de justiça e político cujo fim último foi criar o clima de época necessário para a aprovação do impedimento da Presidente Dilma Rousseff. Soma-se a isso o fao do processo ser conduzido pelo Cunha, explicitamente envolvido em corrupção. E que desde o início do mandato Dilma parece trabalhar para que o impeachment aconteça. Aliás, importante trazer esseoutro elemento: desde que tomou posse em seu segundo mandato Dilma vive com a ameaça do impeachment, por diferentes e variáveis no tempo motivos. A política organizada parece estar a espera de um bom motivo para realizar um objetivo que estabeleceram de antemão.

Isso não significa, porém, que a própria Presidência não colaborou para criar o clima da época. A crise econômica deve ter a ver com decisões de política econômica desse governo. A nomeação de Joaquim Levy para Ministro da Fazenda logo no início do mandato, por exemplo, pode ser considerada uma grande fraude à democracia de 2014. Além dela, a indicação de Lula para a Casa Civil também construiu o ambiente da crise. As falas - ilegalmente expostas -, muito embora tenham quase nenhuma prova contra os interlocutores, também são fato político relevante. Soma-se a tudo isso o fato de Dilma, neste apagar das luzes e extrema crise política, ter aprovado a lei anti-terrorismo que servirá, se não neste nos próximos governos, para criminalizar movimentos sociais que tomem as ruas para reivindicar direitos - ou para tentar impedir retrocessos.

Nem Dilma nem os membros de seu governo são coitadinhos. Participaram ativamente da produção do ambiente de pouca legitimidade. Mas houve decisões institucionais outras que parecem ter forjado a moldura política necessária para a decisão extrema do impeachment.

Espero que os textos normativos da Constituição e das leis que trouxe aqui - e também a narrativa que construí tenham contribuído para as reflexões de vocês e para as respostas que vocês mesmos darão à pergunta-título deste artigo.

Enviei este texto para alguns amigos meus, em quem tenho completa confiança política. Vários deles comentaram e tentaram responder à pergunta sobre se a atual situação é golpe ou não é. Talvez por serem meus amigos, suas análises foram muito próximas. Mas todos tentaram expor as razões que justificam suas próprias posições.

Assim, tomo a liberdade de citar alguns trechos dos e-mails que recebi:

Uma amiga disse:

Não, eu não acho que há motivo jurídico para o impeachment a depender da interpretação que façamos das leis vigentes. Paremos de citar artigos de lei. Acho que estão é à caça de qualquer razão que baste minimamente para que haja impeachment. Em agosto eram as pedaladas (que FHC também fazia), daí veio o argumento de que não se referiam ao atual mandato, daí encontraram os obscuros decretos de abertura de crédito suplementar quando a regulação prudencial da combinação 4.320 e LRF restringia em caso de queda de arrecadação (e fala sério que alguém entende de verdade isso?), daí, pasmem, descobrem que praticamente todos os governadores e prefeitos fazem a mesma coisa, daí querem aditar o pedido de abertura de impeachment com a delação do Delcídio (que, de mais a mais, não traz lá muita prova) mas o Cunha (gente, o Cunha?!) tem medo do processo voltar pra trás, daí vem a OAB e anuncia que vai entrar com novo pedido (não em meu nome!)... E por aí vai, um exército de paneleiros à procura de um real e sólido crime de responsabilidade. (...)

É golpe porque estão à caça do crime quando já antecipam o resultado. É golpe porque o Judiciário está a serviço da ação, atuando de forma vergonhosamente partidária. É golpe porque o Ministério Público define a régua conforme o acusado (e ainda quer dar um verniz de erudição resgatando Marx e Hegel, a grande dupla sertaneja). É golpe porque todos os meios de comunicação estão vergonhosamente a serviço da turma do pato amarelo. É golpe porque a polícia bate continência para os manifestantes de um lado e joga bomba nos do outro. Porque a conspiração se dá a céu aberto, nas mesas de restaurantes finos, em Lisboa, nos corredores do STF, enfim. Golpe, golpe, golpe.

Salomão Ximenes disse:

Sobre a pergunta, reafirmo, acho que todos os elementos estão colocados para definição de um golpe "paraguaio" ou golpe institucional. Nesse tipo o que ocorre é um movimento de aplicação de um estado de exceção jurídica, já aplicado cotidianamente por outras razões - controle social e manutenção de condições de exploração econômica - contra as classes populares. Da mesma forma, suspende-se o que é mais básico com o objetivo de destruir não o sujeito jurídico, mas o sujeito moral, no caso contando com a amplificação dos veículos de comunicação de massas.

Alimentava a mesma dúvida tua até a fatídica quarta-feira de 16 de março. Daquele dia em diante, o estado de exceção jurídica contra Dilma e o PT foi consumado. A "bala de prata" foi atirada e atingiu o alvo. O golpe já ocorreu, em certo sentido. Ele terá ocorrido vença o governo petista (improvável) ou a ultradireita.

Tiago Tranjan disse:

Mas, então, por que estamos diante de um golpe? Porque o modo de criação das condições políticas para o impeachment obedeceu a um clamoroso arranjo de poderes econômicos e sociais conservadores - os quais precisam ser examinados e denunciados -, e porque esse mesmo arranjo de poderes serviu-se de maneira inadmissível de um aparato institucional que atuou muito além dos limites razoáveis (legais?) que orientam sua existência. Em outras palavras, há um complô do poder econômico trabalhando ativamente para desestabilizar o governo eleito e criar as condições políticas do impeachment (o que, por si só, é golpe), e esse complô inclui juízes, PF, MP (o que torna tudo ainda mais grave).

A distinção relevante, portanto, não é condições jurídicas x condições políticas, e nem mesmo presidencialismo x parlamentarismo. A política está sempre aí, e não será bloqueada pela bandeira presidencialista. A análise que devemos fazer, creio, é interna à política. E a distinção relevante para o pensamento de esquerda, sobre a qual devemos concentrar nossa denúncia, está na maneira como foram construídas as condições políticas do impeachment.

João Vergílio Cuter disse:

Não é propriamente golpe jurídico, pois até comer de boca aberta cabe no conceito de "crime de responsabilidade", o que dá previamente à discussão o formato de um baby beef de politicagem servido sobre uma crosta de racionalização jurídica, para utilizar o vocabulário gourmet em voga. Mas isso mesmo nos obriga a avaliar o caso sob o ponto de vista da política, mais que do direito. E, sob esse ponto de vista, é golpe. Conspiração? Quando um time ataca, os jogadores que avançam conspiram? Não propriamente.

Mas, havendo um objetivo comum, torna-se possível orquestrar os lances sem combinação prévia. Isso, ali, no campo, em dez ou quinze segundos. Havendo dias de distância, e a possibilidade de três ou quatro conversas encobertas pelo som de um fado, o gol é certo, quando se monta um ataque desse porte. É um golpe político porque instrumentaliza instituições democráticas para criar um atalho sem votos para o poder. Por outro lado, Dilma não governa, nem é capaz de imprimir aos seus gestos uma coerência capaz de esboçar um horizonte - qualquer que seja ele. O projeto petista está completamente esgotado, e o golpe que se arma é mais um sintoma desse esgotamento do que uma de suas causas. Quem irá lutar pela descriminalização das drogas, por exemplo? Até o FHC é favorável.

No PT, isso é assunto para encontros, seminários, conversas reservadas. Não tem expressão política mais alta. Quem irá lutar pela descriminalização do aborto? Não a Dilma, que é mulher, quanto mais o Lula, que é raposa. Quem irá lutar pela democratização da mídia? Não quem está de joelhos diante dela. Deixar o PT ali para quê? Para que a Dilma loteie o ministério entre pastores evangélicos? Para que ela apanhe durante dois anos, mas faça o serviçozinho sujo na Previdência e na CLT, desobrigando os tucanos de carregar o peso político das reformas? Olhe... Sou contra o golpe, fui para a Paulista, vou para qualquer manifestação que se oponha a um movimento capitaneado pela família Marinho porque achava estar vivendo numa democracia, e descubro agora que não estou.

Então, vou aos protestos, na esperança de que se crie um impasse no país e a oposição ladina seja obrigada a sentar na mesa e negociar um pacto sem instrumentalizar as instituições para dar um "passa-moleque" no país. Vou aos protestos contra a Rede Globo, acima de tudo - contra esse stalinismo de resultados que um grupinho de famílias impõe ao Brasil.

Encerradas as citações, volto à reflexão sobre a conjuntura política.

Me parece que mais importante do que saber de que lado estamos nos gritos de guerra desta histeria-catarse política nacional é pensar no que virá pela frente. Pensar no "dia seguinte".

(Nota: neste momento, acho muito difícil escapar da polarização. Polarização que também foi fomentada e serve aos interesses de desestabilização política neste momento. É difícil - vem sendo difícil - manter uma posição de terceiro crítico reflexivo. Somos a todo momento chamados a tomar posição, e esta também é uma parte dessa história).

Assim, para pensar no depois da crise, proponho algumas perguntas:

Quer o governo Dilma Rousseff seja derrubado, quer ele permaneça, está no horizonte uma agenda de reformas que têm por objetivo reduzir direitos sociais dos trabalhadores. Modificar garantias da consolidação das leis do trabalho e da previdência social são objetivos explicitamente assumidos por Temer em sua proposta política (e que, nesta altura do campeonato, Dilma está aceitando negociar para obter os tais dos 171 votos na Câmara).

Além dos direitos trabalhistas e da previdência social, minha leitura é de que o cenário é todo de retrocessos nos direitos. Um amigo meu disse, por exemplo, que a sua luta de agora em diante será por manter a vinculação constitucional de 25% para a educação nos municípios e 18% na União e nos Estados (art. 212 Constituição) e 15% para a saúde (art. 198, § 2º, I CF ).

Além dessas, outras reformas virão. Do ponto de vista das garantias de direitos sociais, o cenário é de resistência para impedir retrocessos. E essa resistência terá que ser organizada. A questão é... por quem?

A quem o discurso sobre "tudo o que o Estado toca fica sujo" beneficia? A que projeto político? É benéfica, por um lado, a exposição dos mecanismos mais sujos da política "tal como ela é"? A política é só isso, esse jogo palaciano? Reduzi-la a essa perspectiva serve a quem? Mata quais sonhos e alimenta quais perspectivas de organização política da sociedade? (Estado neoliberal; Estado mínimo).

Quais são as funções que o Estado deve assumir na organização de uma sociedade? Distribuir renda e promover políticas sociais são objetivos impossíveis de alcançar por meio das instituições estatais? Se não por elas, por quais outras instituições? Ou reduzir as vergonhosas desigualdades da sociedade brasileira deve deixar de ser um desafio?

Isso leva à segunda grande pergunta dessa história toda: o que aprendemos com ela?

O que a história do PT no poder; do PT envolvido em corrupção, dos corruptos conduzindo processos de impeachment (Cunha), da organização política que termina melancolicamente expõe? O que aprendemos com essa história?

Será que há lições sobre quais são os bons caminhos para fazer política?

Será que há lições ligadas à necessidade de reforma política/financiamento público de campanha?

Será que há um esboço de resposta para a pergunta "quem controla os controladores?" ou uma reflexão sobre o Poder Judiciário e outras instituições de controle e fiscalização no Brasil.

Será que a Lava Jato não contribuiu para expor uma nefasta forma de funcionamento em que interesses privados de grandes empresas aparelham o Estado? Será que esta grande lista da Odebrecht não tem algo a nos dizer?

Será que ser vítima de julgamentos precipitados e de exceção não nos fazem pensar sobre o quanto, em alguns grupos identitários por exemplo, também não fazemos escrachos e justiça com as próprias mãos? Será que esse procedimento é aceitável em um Estado Democrático de Direito?

Será que o fato de o Estado de Direito ser seletivo - não estendendo suas garantias para todos, como por exemplo os pobres, pretos e periféricos - deve fazer com que desdenhemos de suas garantias? Ou será que nossa luta deveria ser para que as garantias constitucionais e legais se ampliassem para todos?

Será que esse clima de polarização política extrema, de política futebolística como diz o Prof. Alex, beneficia a democracia?

Certamente o conflito político faz parte da democracia. Viver em um ambiente em que seja possível discordar e seja possível trocar é o mínimo. O que acontece, então, quando se defende que uma posição entre outras do espectro político deve ser calada? (Placa na Fiesp, ontem: "Exterminar o PT, não tem preço".) Além do PT, todos os "vermelhos" são Petralhas, comunistas. Estamos vivendo em fascismo social disseminado contra toda a esquerda? Sem mediação institucional?

Passada a fase aguda do conflito / crise política, como sair da polarização? Redes sociais e meios de comunicação ajudam ou atrapalham?

Para além das políticas identitárias, onde se pensa a sociedade brasileira como um todo? Onde essas questões que propus aqui (e tantas outras) serão discutidas coletivamente?

Para a esquerda no Brasil, e é desse ponto de vista que falo - apesar de ser um pouco perigoso nestes dias de perseguição difusa a quem se afirmar de esquerda - é momento de recolher os cacos. Achar pontos de identidade e solidariedade. Ficarmos juntos, mostrar organização coletiva, ocupar o espaço público. E pensar, refletir. Resistir como possível às tentativas - que virão! - de impor retrocessos sociais. E pensar e refletir mais.

Enquanto são organizadas ações de resistência, é preciso não deixar de pensar nessa história. Tudo isso ainda é muito recente e o momento de extrema polarização ainda está aí. Por vezes, parece impossível não ser levado pelo turbilhão. Não se posicionar pode parecer uma omissão inaceitável agora. Mas é preciso pensar com calma nisso tudo. E aprender com a história, para reconstruir algo melhor no futuro.

Sempre gostei de política. A política é para mim o canal capaz de transformar em ação transformadora toda a indignação e a inconformidade contra as injustiças sociais que estão em nossa sociedade. Ação política organizada, sob a minha perspectiva, parece ser o único jeito de reverter as desigualdades que estão por aí. Que neste momento difícil as partes "feias" da política não afastem ou desestimulem os jovens a se organizar e agir politicamente.

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