OPINIÃO

Cortem os custos de vocês, mas #NãoFecheAMinhaEscola

02/11/2015 19:25 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Estudei muitos anos na mesma escola, na região do Campo Limpo, onde sempre morei - apesar da minha família se mudar muito. Mudávamos de casa para apartamento, de apartamento para outro apartamento, depois para casa novamente, mas meu irmão e eu não mudávamos de escola.

Dos meus 16 anos de estudos, entre a Educação Básica, Fundamental, Ensino Médio e Superior, grande parte foi na escola pública e oito deles na mesma escola, da 1ª a 8ª série. Eu sabia o nome de muitos professores, mesmo os que nunca haviam me dado aulas e conheci metade dos meus grandes amigos. Com eles, participei da criação e me envolvi com o grêmio estudantil, organizei festas juninas, julinas, das bruxas, de final de ano, criei trabalhos para apresentar em mostras culturais, assisti pela primeira vez um espetáculo de teatro (lembro de ter sido uma comédia chamada "A verdadeira história de Romeu e Julieta" e de ter gargalhado muito).

O que mais? Cantei em karaokê, dancei samba de bumbo, criei meus próprios livretos de cordel, acreditei que era uma boa jogadora de basquete e uma boa goleira, organizei torcidas para os campeonatos, conheci os Mutantes em uma aula de Geografia, levei uma tartaruga para apresentar um trabalho de ciências, tive contato com o grafite e outras milhares de outras experiências que não cabem em lista.

Quando fui para o ensino médio, lembro de ter sofrido as mudanças. Era uma escola nova, com alguns amigos da turma anterior, mas cada um numa classe ou horário diferente. Tudo bem, pois sabia há muito tempo que este dia chegaria e me preparei psicologicamente. Encarei as mudanças.

Comecei a passar de novo, em meu coração, estas memórias diante da proposta do Governo do Estado de São Paulo.

Entre tantas coisas boas, eu também me recordo das vezes em que reclamei que a escola parecia um presídio com tantas grades, que fiquei sem aula por falta de professores, que o professor teve dificuldades em dar aula numa sala com cerca de cinquenta alunos, em que as aulas de Educação Física tiveram que ser canceladas em dias de chuva por causa da falta de cobertura na quadra, das vezes em que tivemos que realizar provas para mostrar se sabíamos algo a organizações que nunca pisaram em nossa escola.

Nós - crianças, jovens, professores, famílias inteiras, que compõem as comunidades das escolas públicas - sabemos o que precisamos de fato para que nossa educação progrida para que o aprendizado faça sentido, para que a nossa vida seja preenchida com verdadeiro conhecimento do mundo. Mas, até agora, quem é que veio nos perguntar o que queremos para nós mesmos?

Na escola, criamos vínculos emocionais, afetivos, de segurança, de conforto. Tirar-nos delas e fechá-las sem nos consultar, de um dia para o outro, mudando repentinamente uma organização sem nos dar o mínimo de satisfação é violento. Querem cortar custos? Cortem os de vocês, pois nós já estamos pagando a conta de um processo educacional mal estruturado faz tempo. #NãoFecheAMinhaEscola

Karol Coelho não sabe se descrever, nunca desejou ser gente grande, mas não tem síndrome de Peter Pan. Na Escola de Notícias ela faz parte da equipe de Comunicação Institucional. É jornalista e nas horas vagas (ou não) canta e explora a poesia.

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