OPINIÃO

A chave do feminismo

19/06/2015 14:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

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Costumo dizer que foi o feminismo que me encontrou e começou a se envolver comigo. Talvez seja assim com a maioria das mulheres. Até porque, feminismo vai mais além do que aquele velho, mas ótimo conceito de que é um movimento cuja meta é conquistar a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Antes de conhecer o movimento, eu já era feminista. Eu era feminista quando aqueles caras babacas gritavam ou olhavam para mim na rua como se eu fosse uma comida e sentia nojo deles. Eu era feminista quando minha família comentava das minhas roupas e eu enfrentava-os com "e daí?, eu tô confortável e linda". Eu era feminista quando eu sentava de pernas abertas na carteira da escola e cagava se era feio menina fazer isso. Eu era feminista quando eu, com 15 anos, saía para algum lugar e ficava com quantxs meninxs eu quisesse ficar e não ligava para o que iam falar de mim. Eu era feminista quando me chamavam de vadia e eu simplesmente ria. E, se fosse hoje, acrescentaria uma frase que aderi no movimento "se ser livre é ser vadia, então eu sou vadia mesmo, obrigada".

Eu era feminista quando passei por aquela fase que gostava de andar largada e estava nem aí, pois só queria aprender a andar no meu skate. Eu era feminista quando tomava coragem e deixava os meus amados pelos em paz e me sentia bem com eles. Eu era feminista quando via sangue no meio dos pelinhos pubianos e não sentia nojo como as pessoas sempre diziam o quanto aquilo era nojento. Eu era feminista quando eu não pintava as unhas por não gostar muito de fazer isso. Eu era feminista quando parava pra pensar duas vezes antes de falar mal de outra menina.

Não que esses sejam motivos exclusivos do feminismo e que defina tal, mas eu fui feminista todas aquelas vezes que eu achei tudo isso estranho e questionável sem nem conhecer o movimento. E todos esses motivos, se analisados separadamente, farão com que me julguem mais ou menos assim "olha lá outra feminista mal amada com pelo no sovaco". Primeiramente meus pelinhos na sovaco mandam beijos e agora eu vou resumir para você: eu era feminista quando eu fazia o que eu queria com o meu corpo e não ligava para o que falariam.

E agora vem a parte mais legal: eu não ligava, mas eu cansava. Eu cansava de ser julgada o tempo todo. E isso não é "não conseguir ligar para o que dizem". Simplesmente cansa e você tem vontade de fazer alguma coisa para isso mudar. E quando finalmente descobri que existia um movimento que me ajudaria nessa luta, entrei em coletivos com mulheres maravilhosas e aprendi muito com elas. Foi como aquela luz nos olhos que a gente recebe poucas vezes na vida. Além de ter mais conhecimento sobre o movimento e aprimorá-lo, eu pude conhecer muitas histórias e saber que eu não estava sozinha nisso. Foi muito ruim ver o sofrimento e o medo, mas tive uma sensação boa quando vi que era aqui e em mais um montão de meninas. Um montão que cada dia mais se junta e luta, e mais um montão que chega e (se) encontra (n)o feminismo. É gratificante ver esse montão nos eventos e participar dele. E lutar com mulheres empoderadas e ver a sociedade machista sendo desconstruída (por mais lento que o processo seja) é gratificante também.

O feminismo é muito mais amplo e a cada dia aprendo um pouco mais. Só iremos parar para descansar quando olharmos para uma sociedade bem diferente e melhor do que essa que vivemos; quando a sociedade machista (a qual nós NÃO precisamos) tiver fim, por mais impossível que isso pareça ser, e, quando pudermos presenciar o pleno empoderamento, solidariedade e empatia entre as mulheres. Não fazemos parte de algo limitado. A luta é muito maior.

Carina Andreotti, 17 anos, ex-participante da jornada 2014 da Escola de Comunicação Comunitária da Escola de Notícias. É feminista ativista desde quando chutava a barriga de sua mãe para se livrar de lá e ser livre aqui. Olhos negros e curiosos apaixonados por pessoas e à procura de almas enrustidas. É fissurada por poesia e quando abusa dos livros, explora a poesia dos lugares.