OPINIÃO

Sou assexual, e isto é o que o sexo significa para mim

Não tenho fantasias de relações sexuais com pessoas que me encantam, com raras exceções.

07/04/2017 19:20 -03 | Atualizado 09/04/2017 00:18 -03

Sadeugra via Getty Images

No colégio, me identificava abertamente como assexual, e não acho que isso alguma vez deixou de ser realmente verdade.

Meu amigo Erik foi quem me apresentou ao termo. Estávamos no 2o ano do colegial, e seu amigo Jared nos levava para casa depois de algum evento no leste de Cleveland. Pode ter sido um debate, pode ter sido uma festa na casa dos pais de Jared. Não consigo me lembrar, mas estávamos encurralados no banco de trás de seu carro quando ele perguntou a Erik sobre suas perspectivas de namoro. Erik havia terminado com um cara que tinha as sobrancelhas mais bem cuidadas que eu havia visto, que passava glíter nas bochechas e agora trabalha em Washington como designer de interiores.

Erik fez pouco caso da pergunta. "Não estou saindo com ninguém", disse. "Sou assexual."

Estacionamos na minha rua e me refugiei em casa, abri meu laptop roxo Alienware e pesquisei o termo no Google. Um site e uma comunidade on-line foram de grande ajuda. E, embora em alguns meses Erik tivesse removido o rótulo e começado a namorar um perfeccionista orador da turma, da cidade de Erie, na Pensilvânia, eu mesma fui lentamente absorvendo o rótulo de assexual.

No colégio, era uma ativista engajada dos direitos da comunidade LGBT. Liderava encontros semanais da Coalizão para a Igualdade de Direitos dos Estudantes, juntamente com Erik. Protestávamos e pressionávamos para que as proteções aos direitos "queer" fossem adicionadas ao manual do estudante. Organizamos eventos que davam aulas de sociologia e psicologia sobre a história gay e questões dos trans.

Uma vez, nos reunimos com Dan Savage para comer panquecas à noite em um Perkins, perto da faculdade local. Fizemos campanhas de conscientização sobre crimes de ódio colaborando com o professor de efeitos especiais/maquiagem e andamos pelos corredores cobertos de versões falsas de machucados e cicatrizes de vítimas reais, biografias de suas vidas e mortes pregadas em broches em nossos corpos, cenas de crimes descritas com biografias semelhantes e coladas nos muros e janelas da cafeteria.

Me sentia afastada de tudo, gênero e beleza, luxúria. Era interessante, mas me impressionava da mesma forma que a fé: inerte para mim.

Era natural que professores e colegas pensassem que eu fosse gay. Nunca me importei ou os corrigi, e minha identidade existiu por um período em uma névoa, sem ser verificada. E, então, me revelei como assexual. Costumava explicar este fato do meu passado remoto, dizendo que era verdade naquela época, mas era simplesmente verdade, nua e crua. Não havia ninguém que eu desejasse na escola. Ninguém no mundo. Me sentia afastada de tudo, gênero e beleza, luxúria. Era interessante, mas me impressionava da mesma forma que a fé: inerte para mim. Não conseguia entender tecidos de fibras transparentes, esvoaçantes.

Quando me abri, as pessoas aceitaram da maneira como se poderia esperar em 2005. Meu professor de sociologia disse à classe que deveriam respeitar como eu me sentia, que era como eu me sinto exatamente agora, e aquilo foi bom o suficiente. Meus amigos me perguntavam com quem eu transaria se eu quisesse transar com as pessoas. O Erik me disse que uma vez se sentiu assexuado depois de sua última separação, mas que acabou superando. A tentatividade do rótulo era enfatizada repetidas vezes.

Mas era honrada na maior parte das vezes. Ninguém questionava se eu estava inventando. Minha mãe continuava me perguntando diretamente se eu tinha algo a dizer a ela. Eu disse que era assexual, ela piscou até o momento acabar e nunca mais tocou no assunto.

Entrei na faculdade e arranjei um namorado, observando como as reações dos amigos eliminaram a palavra assexual. "Então você não é mais assexual", e a identidade seria varrida através de uma superfície plana até desaparecer no horizonte. Eu amava aquele jovem estudante de alemão, supersensível e de cílios longos, e estava feliz demais em perder minha virgindade, como uma pele de cobra, então não poderia ser assexual. Nenhum dos meus amigos voltou a me perguntar sobre o rótulo.

Meu coração se contorcia por sua afeição e atenção, mas nada me movia abaixo da cintura.

Mas ele me perguntou sobre isso. Somente tivemos relações sexuais por alguns meses de um total de três anos juntos. Então, lhe disse que era assexual ou pensava que era. Ficou magoado. Sofreu ao terminar comigo bêbado, mudar o status de nossa relação no Facebook para "aberta" sem me consultar, me pressionar ao fazer sexo que não queria e sobriamente declarar seu amor. Minha rejeição feriu sua autoestima. Sentia-se traído. Não podia me forçar a sentir desejo por ele. Meu coração se contorcia por sua afeição e atenção, mas nada me movia abaixo da cintura.

Íamos para lojas de sex shop em Short North para comprar brinquedos, fantasias e vídeos de imagens granuladas de mulheres entediadas em quartos de hotel. Ele me disse que ainda poderíamos namorar, mesmo se nunca mais tivéssemos relações sexuais. Foi fazer um estágio em Nova York. Transou com uma menina dentuça de tranças castanhas, e nem me importei. Ele se irritou quando chorei com seu rosto entre minhas pernas, e todas as vezes que me sentia muito entorpecida para querer qualquer tipo de toque. Viu meus olhos virarem para o teto por frustração em vez de prazer, e me pediu para ir ao médico para fazer um checkup.

Esta última coisa me deixou furiosa. Eu sabia que não havia nada de errado comigo, nada para ser consertado. Tudo o que queria dele era sua companhia em nosso loft gelado, risadas em festas em casa, conversas bêbadas com pão de queijo e Keystone. Não queria fazer trios, os brinquedos, rolar no chão de festas com garotas e garotos iguais, a imitação noturna de paixão. Mas tive tudo isso, por um tempo.

Odiava a falta de controle. Odiava quando me segurava e entrava, e meu corpo se sacudia, fazendo parecer que eu queria.

O problema era, podia fazer sexo, sem tanta repulsa, mas entristecida e de maneira esquiva. Meu corpo era dominado por uma eletricidade que me esgotava a cada toque dele; minha genitália, ainda que entorpecida, funcionava bem e respondia. Cada surto de prazer técnico era repugnante, não desejado, fora do meu controle. Eu me sentia como sendo brevemente possuída por um demônio, presa sob uma escravidão da qual não podia escapar. Minha capacidade de responder fisicamente enviou uma mensagem a ele: eu poderia estar com ele, se apenas engolisse e aguentasse. Uma vez, ele me segurou em seu colo enquanto eu chorava, fazendo pressão sob o meu corpo.

"Não quero", disse, desolada com soluços secos.

"Eu sei", ele respondeu, gentilmente, quase com simpatia. "Você não quer." Passou o dedo pela minha calcinha, e meu corpo respondeu. "Mas você precisa, concorda?".

Toda tentativa de contê-lo era um chacoalhão de tristeza. Comecei a associar o orgasmo com coerção, desagrado, culpa. Fui fazer mestrado em Chicago, e terminamos.

É extremamente raro que eu olhe para alguém e sinta uma onda de desejo dentro de mim.

Em Chicago, namorei um homem que era tão impressionante que confundi admiração e inveja com desejo. Não é um erro incomum no amor: quero você ou quero ser você? Nunca soube a diferença. O que ele queria era muito mais evidente: sexo todo dia. Se ele não tivesse, me enganava e ficava bravo. Às vezes, fazia as duas coisas. Eu tinha 21 anos, estava deprimida, era nova na cidade e me sentia miseravelmente sozinha. Tão sozinha que, quando meu avô veio me visitar, o simples fato de me olhar o fez chorar de pena. Então continuei deitando meu corpo para este homem impressionante e exigente. Eu trocava minha presença, na maioria das vezes rígida e, ocasionalmente, trêmula, por conversas ao travesseiro e longas caminhadas ao Evanston. No processo, enfrentei uma tonelada de abusos. Minhas correntes elétricas se enrolavam e se desgastavam, mas ainda corriam com força apesar de minhas lágrimas e desconforto. Eu odiava a falta de controle. Odiava quando me segurava e entrava, e meu corpo se sacudia, fazendo parecer que eu queria.

Quando suas traições se tornaram muito difíceis de aguentar, troquei meu corpo pela amizade de outras pessoas. Eu já tinha ficado com garotos e garotas na faculdade, movendo-me de forma vazia pelas experiências da vida que meu namorado da época queria, e que pensava que Dan Savage teria desejado para mim. Era jovem e não heterossexual, iconoclasta e selvagem; claro que queria montar sobre uma menina com batom vermelho e bustiê de jeans e chupar seus mamilos em uma festa de Ano Novo. Eu queria porque pensava que deveria querer. Mas não sentia nada.

Continuei não sentido nada em Chicago, com um performer, um comediante, um estudante de ciência cognitiva e sua namorada bióloga, com um cara que abandonou a faculdade e um colega de classe de Ohio. Em uma semana, na primavera de 2010, dormi com três pessoas que acabara de conhecer. Esse foi meu recorde pessoal. Me sentia vazia e entediada, até que tudo acabou e chegou a hora de falar.

A pessoa pela qual meu corpo realmente queimava, naquela época, era a bibliotecária magrela de cabelo loiro avermelhado com a qual meu namorado vivia me traindo. Ela era tímida, tinha uma boca grande e um nariz proeminente. Ela escreveu coisas eróticas sobre mim, que li no computador dele. Chorei e estremeci com um prazer repugnante à medida que lia. Uma vez, depois que foi atacada, passei horas no telefone com ela, ouvindo-a e oferecendo apoio. Estávamos apaixonadas, de certa forma. Eu passava horas vendo fotos dela on-line todas as semanas. Ela morava a milhas de distância, mas eu conhecia cada contorno seu. Tinha fantasias com ela quase todos os dias.

Fico pensando se a atração nos faz sentir assim. Me sentia suavemente intensa, movida pela culpa e triste. Mas também era bonito. Em outra vida, teríamos sido perfeitas uma para a outra. Tudo foi estragado pelo homem que compartilhávamos, e o trauma que ele nos infligia. Sentia minha sexualidade retrocedendo ainda mais dentro de mim. Fiquei totalmente dormente por cerca de meia década depois daquilo.

Não fantasio sobre sexo com as pessoas. O sexo da vida real me excita muito pouco. Tenho fetiches, mas tentativas de incorporá-los me deixaram soluçando ou estática.

Estou com meu parceiro atual há quase seis anos. Posso sentir minhas pupilas abrindo e meu olhar se suavizando quando olho para ele. Todas as vezes. Desde o primeiro dia que o conheci, meu coração se contorceu a cada olhar compartilhado. Ele é delicadamente bonito, com um volumoso cabelo escuro e brilhante, de braços musculosos, mas muito finos. Adoro as espirais de cabelo preto em seu estômago e peito, a concavidade no seu esterno, seus olhos amendoados e as rugas que os fazem desaparecer quando está sorrindo. Me sinto atraída por ele tanto com meu corpo quanto com meu coração. Sempre foi com ambos, mesmo antes de eu ter certeza de que ele era uma pessoa boa e adorável. Eu intuí aquilo e, pelo menos uma vez, minha intuição estava certa. Eu costumava olhar para ele e pensar:

Perfeito, você é perfeito, você é perfeito

Agora, estamos juntos tempo suficiente para realmente conhecermos as imperfeições um do outro, então, olho para ele e penso:

Você é um adorável esquisitão de merda, te amo

Eu o quero muito, e quero outras pessoas, às vezes, no abstrato, mas ainda sou assexual. É extremamente raro que eu olhe para alguém e sinta uma onda de desejo dentro de mim. Não tenho fantasias de relações sexuais com pessoas que me encantam, com raríssimas exceções. O máximo que penso é beijar suas testas ou envolver seus corpos molhados em uma toalha felpuda. Mesmo com meu parceiro, isso é predominantemente verdade. Meu corpo ainda está entorpecido, e meus sentimentos ainda são obscuros. Minha libido está baixa agora, mas não entorpecida.

A fiação funciona. Os relâmpagos e descargas de energia me fazem tremer, ofegar e sentir como se meu cérebro tivesse sido perturbado por um cortina de fumaça. E, então, passa por cima de mim, e estou limpa, vazia e forte novamente, desejando que sempre tivesse sido daquela forma.

Eu gosto de amor e de afagos; admiro os tipos de corpos que gostaria de ter e as maneiras pelas quais pessoas mais capazes podem se mover.

Nunca entendi os mundos do gênero e do desejo e ainda não os entendo. Eu gosto de amor e de afagos; admiro os tipos de corpos que gostaria de ter e as maneiras pelas quais as pessoas mais capazes podem se mover. Quando pego pessoas ficando em um canto de um bar gay ou em uma banheira de hotel, meu coração canta e meus olhos acompanham rapidamente com interesse. Quando vejo um rosto bonito passando por mim na calçada, sorrio e sinto meu rosto esquentar, mas não tanto como quando encontro um corgi agradavelmente gordo.

Não tenho fantasias de sexo com as pessoas. O sexo da vida real me excita muito pouco. Tenho fetiches, mas tentativas de incorporá-los me deixaram soluçando ou estática. Realidade e visceralidade tornam tudo muito vazio e assustador. Meus mamilos não sentem nada e metade do mês minha genitália protesta contra o contato ao se sentir sensível e encher meu cérebro de tristeza. Me sinto estranha sobre meu corpo e seu 'hardware', mas aqueles sentimentos vêm, como o prazer, com paradas e recomeços. Eu não quero T [tomar testosterona], com o crescimento do clitóris e aumento da libido que o acompanha.

Qualquer coisa para me deixar mais sensível na parte debaixo está fora de cogitação. Já sou muito sensível e maçante. Não gosto de ser sexy ou assistir a outras pessoas em vídeos fazendo sexo performático, de olhos vidrados.

Sexo, quando escolho fazê-lo, é iniciado por mim, com parâmetros rigorosos determinados que são apropriados para o que meu corpo pode lidar naquele momento. Olho meu parceiro nos olhos, mordo os lóbulos de suas orelhas, puxo os cabelos de seu peito e sinto excitação quando ele se contorce ou ofega com minha pegada. Com esse tipo de eletricidade — passando através dele, gerada por mim — posso lidar. Adoro. Incha minha vulva e meu coração. É minha própria eletricidade da qual não gosto. Com raras exceções.

Sempre fui assexual, mesmo muito tempo depois de parar de usar o rótulo. De uma forma geral, sou uma constelação estranha, entorpecida e espasmódica: assexual, sem gênero e bi. Acho que os três tipos sempre foram verdadeiros. Estou tentando amar e honrar cada iota disso, para apreciar a grandiosidade; para sentir meu corpo levantar com excitação quando estou seguramente no controle de quem é tocado e como; para me deleitar na neutralidade do meu corpo e para parar de esperar que se comporte da mesma maneira que corpos com a mesma forma do meu costumam se comportar. Posso ligar e desligar o botão. Não há nada que precise ser consertado. Nada que precise ser investigado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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