OPINIÃO

O que esperar da versão brasileira de Les Miserables

A estreia é em São Paulo nesta sexta-feira (10).

05/03/2017 22:10 -03 | Atualizado 10/03/2017 13:17 -03

O Brasil é oficialmente relevante na rota mundial de musicais. Prova disto é a volta a São Paulo do fenômeno Les Miserables, obra que abriu o Teatro Renault há 15 anos. Vista por mais de 70 milhões de pessoas em 44 países, já venceu mais de 125 prêmios internacionais.

T4F/Divulgação

CENÁRIO

Mora exatamente aí o desafio: há um amadurecimento do mercado de musicais no Brasil comparado a decadas atrás, bem como uma renovação do público, ainda mais jovem e conectado, mas a maior dificuldade de trazer o musical mais antigo do mundo (em cartaz) é exatamente a tradução, a linguagem e manter o entusiasmo de passar a mesma mensagem,uma vez que é uma produção em que os apaixonados pelo gênero teatral já têm muitas referências.

"Les Mis" é baseado no clássico romance de Victor Hugo sobre a condição humana no cenário da França do século XIX. A narrativa discorre sobre sonhos, amor, paixão, sacrifício e redenção, por meio das histórias cruzadas de Jean Valjean, ex-condenado que vira prefeito de uma cidade francesa e passa a proteger Fantine, uma de suas empregadas, perseguida por ser mãe de uma criança "ilegítima", Cosette.

Jean está sempre fugindo de Javert, inspetor de polícia que o vê como um ex-condenado e passa a cuidar de Cosette quando sua mãe morre, tudo isso com o cenário da inquietação dos menos favorecidos, na iminência da revolta pela morte do general Lamarque, único membro do governo que se mostrava sensível à situação de escassez e miséria social.

NOSSA VERSÃO

Gradioso e inspirador, o espetáculo foi traduzido para 22 línguas(inglês, japonês, hebraico, húngaro, islandês, norueguês, alemão, polonês, sueco, holandês, dinamarquês, francês, tcheco, castelhano, crioulo maurício, flamengo, finlandês, espanhol da argentina, português, estoniano, mexicano e coreano). Agora, é a vez de o português receber a obra repaginada.

Com a estreia aberta nesta sexta-feira (10), a produção de Cameron Mackintosh de LES MISÉRABLES escrita por Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg é a mesma realizada para celebrar o 25º aniversário da produção em Londres em 2010.

Quebrando recordes de crítica e público no Reino Unido, EUA, Austrália, Canadá, Emirades Árabes, França, Espanha e países asiáticos, ainda inspirou os cineastas a fazer o filme homônimo que ganhou três Oscar, três Globos de Ouro e quatro prêmios BAFTA, tornando "Les Mis" um dos mais prósperos filmes musicais já feitos.

No elenco brasileiro nomes como: o importado Daniel Diges (Jean Valjean), Nando Pradho (Javert), Kacau Gomes (Fantine), Clara Verdier (Cosette), Laura Lobo (Eponine), Filipe Bragança (Marius); Pedro Caetano (Enjolras), Ivan Parente (Thenardier) e Andrezza Massei (Madame Thenardier) entre os principais. Os trajes originais são de Andreane Neofitou, trajes adicionais de Christine Rowland, design de iluminação de Paule Constable, projeções realizadas por 59 produções e design sonoro de Mick Potter. A encenação musical é de Michael Ashcroft e Geoffrey Garratt.

AS MÚSICAS

A orquestração é de uma beleza inquestionável. Para os fãs, a produção de Cameron Mackintosh inclui as canções clássicas I Dreamed a Dream, On My Own, Stars, Bring Him Home, Do You Hear The People Sing?, One Day More, Empty Chairs at Empty Tables, Masters of the House. Em 2009 Susan Boyle cantou I Dreamed a Dream no programa de televisão Britain's Got Talent, e o vídeo imediatamente se tornou um dos mais vistos do Youtube.

Isso porque as canções têm um poder imenso de arrebatar o público, com excessos cênicos nos gestuais e emoções. Bem-vinda é, no entanto, a criação conjunta do letrista e do autor da melodia para trazer a melhor versificação no intuito de manter a naturalidade do texto e intenções dentro da oralidade brasileira.

Esse trabalho de tradução foi comentado pelo diretor James Powell, contando que é mais tranquilo versar em territórios onde se fala inglês. "Aqui é melhor repetir duas vezes a mesma informação para comunicar melhor."

Há um trio de sucesso a ser traduzido tanto em idioma quanto em contexto: a música de Claude-Michel Schönberg, os poemas líricos de Herbert Kretzmer e o texto francês original de Alain Boublil e Jean-Marc Natel, adaptados por Trevor Nunn e John Caird e com material adicional de James Fenton.

Esse cuidado com os versos tem ajudado Daniel Diges, ator espanhol de vários musicais mundo afora e que agora faz aulas de português: "faço (aulas de português) porque preciso ter um nível de entendimento e compreensão que tenha coração e alma, quero transmitir a mesma emoção da Espanha, mas somando às experiências dos colegas daqui, tudo acontece por um propósito de Deus, nada é por acaso".

Em seu país, inclusive, sua surpreendente extensão vocal provocou arrepios na plateia e permitiu a ousadia de trazê-lo para esse desafio no Brasil.

Paulo Nogueira, diretor experiente na área, pontuou que não há diferenças de execução musical da ópera ao teatro: "há muita densidade na música, cada orquestração é idêntica na dificuldade de uma ópera".

As orquestrações originais são de John Cameron com novas orquestras de Christopher Jahnke, Stephen Metcalfe e Stephen Brooker. A direção é de Laurence Connor e James Powell com design de conjunto e imagem de Matt Kinley baseado nas pinturas de Victor Hugo.

T4F/Divulgação

INTERNACIONALIZAÇÃO DO ELENCO

Renata Alvim, da divisão de teatro da T4F, comentou que hoje exportamos e importamos talentos na cena dos musicais: "Daniel tem um pouco de sotaque mas com apenas sete semanas de aula, canta em português belíssimamente, defende o personagem". Ela elogiou ainda o carisma do ator, que também tem uma carreira como cantor solo.

A internacionalização dos musicais faz parte do processo de globalização e da conexão facilitada das pessoas. Hoje os atores são ainda mais exigidos mas também têm o mundo todo como mercado.

Nando Pradho, ator brasileiro que chega ao seu décimo musical, relata que este é o "mais importante da carreira", o sonho da sua vida. E não é para menos: cada performance tem cerca de 101 pessoas diretamente envolvidas, 392 trajes completos com cerca de 1782 itens de vestuário e 31 perucas. Les Misérables é o quinto musical mais longo em cartaz na História da Broadway. Depois de O Fantasma da Ópera, Cats, Chicago e O Rei Leão.

BASTIDORES

O diretor James Powell conta que aceitaram o desafio de reimaginar o espetáculo pois as pessoas costumam não somente gostar, mas se apaixonar por Les Miserables: "lembremos que foi montado por uma companhia shakesperiana, podemos esperar uma grande estrutura, porém com uma facilidade de ser reculturado a cada montagem, já que é sobre a condição humana".

Conta, ainda, que a cena mais difícil de pensar foi a primeira, pois a memória do espetáculo era a original. "Por favor esperem o inesperado! Foi uma jornada longa e difícil, não pra fazer uma competição pela melhor adaptação do original, mas para dar valor emocional. Foi o ponto crítico. Mas muito compensante", diz Powell.

Sobre mais bastidores, Powell conta que no escritório de Mackintosh em Londres, decidiram apagar as luzes, bebendo o melhor vinho disponível, e começaram um exercício de imaginação da cena: "e se eles estivessem remando?", e tiveram uma ideia cênica para a interpretação de uma das músicas (quem assistir verá claramente qual!) e dias depois receberam uma mensagem do autor da canção, emocionado, pois ao compor a melodia tinha pensado exatamente em pessoas remando, sem revelar a ninguém.

Renata Alvim defende que #LesMis tem uma beleza única, para esse público novo que se formou nos últimos anos desde a primeira montagem.

O ator espanhol Daniel Diges contou um fato engraçado durante os ensaios: quis elogiar a Kacau Gomes, que faz a Fantine e procurou no Google Tradutor. Ele queria chamá-la de "fera cênica", chegou todo contente ao ensaio em posse das novas palavras do vocabulário e soltou: "Kacau, você é uma besta panorâmica!". Todos riram e esse virou um dos assuntos preferidos dos colegas e até um novo jeito de elogiar.

ESPETÁCULO ATUAL

Dado em dois atos longos, como um dos espetáculos mais longos já realizados no País, Les Miserables é mesmo assim menos longo na versão brasileira. A diferença maior dessa montagem é que não deseja ser uma peça de museu, pois a história é muito relevante e atual através dos tempos.

Buscou-se revigorar as cenas românticas sem a seriedade e tristeza de um museu, mas com a mesma energia e força das paixões humanas. A menina Cosette quer respostas às questões pessoais, mas ainda é uma garota, por isso no vestuário ao invés de um vestido surrado, dão a ela vestido verde brilhante a fim de revigorar seu sentido de vida.

A tecnologia melhora a experiência e as possibilidades de execução e está avançando desde o primeiro original: são novos recursos e ideias e isso faz bem. Projeções reais de obras do Victor Hugo são usadas de pano de fundo, o que não seria possível antes sem o aporte tecnológico, por exemplo.

Do espectador muda nossa relação em cada país com os mesmos temas -- ter frieza ou não ao recebemos a paixão e violência comuns à obra, a percepção da montagem e das cores e do cenário menos iluminado que o usual, menos comum ao grande público.

"Les Mis" tem muita força política. Força política faz parte da condição humana em qualquer tempo. "Há pessoas descontentes no mundo todo", pontua Powell complementando a fala do também diretor inglês Adrian Sarple: "é um espetáculo atemporal", relatando que passou mais tempo no Brasil que na casa dele nos últimos meses. "Vi as favelas, vi o dilema social e usamos essa vivência na montagem."

Os ensaios começaram bem no momento em que os noticiários traziam as rebeliões nos presídios brasileiros e isso foi usado como elemento de contemporaneidade. Rachel Rippani, diretora residente brasileira, teve que consolidar ideias com os diretores americanos e explorar as marcas que já existiam. "A experiência de ensaio é a mesma, deixamos os atores imprimirem suas marcas pessoais, pois este é o espetáculo do Brasil".

Adrian comentou que nas audições só procurou os melhores e os encontrou. "A gente tem o texto mas os atores trazem a vida". Adaptado ao ouvido do público de hoje, LesMis está cada vez mais pop, mas não perde as características.

Alfonso Casado Trigo, londrino diretor musical do espetáculo (que também cuida de Miss Saigon) conta que: "a maneira que LesMis é cantado é bastante atual. A chave no Brasil (para direcionar) o elenco é se assegurar que a maneira de cantar seja em benefício de contar a história. Não tem sentido uma linha vocal preciosa se a história não se passa".

Dada a notada qualidade vocal dos artistas, "tiramos o melhor de cada um, mas o que se pode esperar é um cuidado em passar a mensagem", completa Alfonso.

O que esperar, então? Uma adaptação com grandes cuidados na versão dos detalhes musicais aos poéticos e muita força em passar a mensagem. Podemos esperar um Les Mis à brasileira, mas com a força da condição humana universal, além de todo aporte tecnológico e estrutural que não deve nada a nenhuma produção do mundo. Planeje-se e vá se puder.

T4F/Divulgação

SERVIÇO

Local: Teatro Renault - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 – Bela Vista, São Paulo – SP

Sessões: Quintas e Sextas, às 21h, Sábados, às 16h e 21h, e Domingos, às 15h e 20h.

Capacidade: 1.530 lugares. O teatro conta com 16 assentos para deficientes físicos e 11 para pessoas obesas.O teatro não possui estacionamento próprio.

Classificação etária indicativa: Livre. Menores de 12 anos: permitida a entrada acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

Ingressos: De R$ 25 a R$ 330, podem ser comprados direto na bilheteria ou aqui.

Temporada: de 10 de março até 30 de julho.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.