OPINIÃO

Crônica das Oportunidades

29/03/2016 14:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Caiaimage/Agnieszka Wozniak via Getty Images
Tired businesswoman with head in hands looking away

2006. Eu, jovem estudante de jornalismo, me aventurei em um evento enorme. Lá, gente famosa e importante: com minha ousadia/inocência característica, saí entrevistando as pessoas com uma câmera na mão e um microfone. Consegui falar com gente que nem emissoras grandes conseguiram. Entre as pessoas, um cara alto, de olhar forte, cheio de bajuladores à volta. Me aproximei e fiz duas perguntas, a conversa durou mais de meia hora, e ele elogiou, dizendo que "era raro alguém tão dinâmica e inteligente na condução de uma entrevista".

Então, ele, no momento "o cara" mais importante da Vale do Rio Doce, me dirigiu um convite sincero pra trabalhar na comunicação da empresa. Não foi um galanteio como alguém debochado pensaria, foi realmente muito profissional em um papo muito inteligente. Eu peguei o cartão, guardei, ele disse "não esquece que você é diferente, isso pode ser seu maior problema mas é sua maior virtude".

Nesse momento o presidente de uma emissora de TV veio convidando também pra trabalhar lá e interrompeu a conversa: este não me deu cartão, anotei em um papel que lavei na calça jeans dias depois. Dali entrevistei o Serginho Groismann, Sandy e Jr, Viviane Senna e vários figurões, entre eles os banqueiros do Bradesco.

Realmente, nunca liguei pra nenhuma dessas duas pessoas. Acho que ser "perdida" aos 20 anos é normal, me perdôo de ter perdido duas grandes chances. Mas eu não poderia largar o telemarketing pra morar no Rio, não poderia encarar um estágio de repórter que não pagava as contas. Não tive escolha, tenho que me perdoar! Não é que eu não queria, mas não podia viver meu sonho de repórter de verdade, aquele era só um trabalho de faculdade que pude fazer porque era minha folga. Quem foi meu colega ou professor deve lembrar do sono, cansaço e da vida intensa.

Eu nunca contei isso pra ninguém, mas o cara que me ofereceu emprego era o Roger Agnelli, na empresa que na época tinha maior visibilidade no cenário econômico, a Vale. O outro foi da Record, emissora que mais estava crescendo.

Conto isso hoje com pesar: o Roger morreu recentemente em um acidente aéreo com outras 5 pessoas da família (sua esposa, dois filhos, genro e nora). Eu sempre sonhei em secreto poder revê-lo, contar essa história e dizer o que aquilo representou.

Eu, você, qualquer um, temos oportunidades e sendo elas perdidas, geralmente são perdidas mesmo. Não dá um pesar? Não dá uma tristeza? Então, mas seguir em frente sabendo que não podemos ter tudo mas podemos mesmo assim ser alguém, foi meu aprendizado. Com essa e outras situações. Perder durante a jornada é normal, faz parte, mas não podemos perder a oportunidade maior: de viver intensamente, mas com leveza. Sendo responsável sim, mas sem se destruir na busca da perfeição.

Tenho perdido muito na vida. Mas a vida mesmo, através de Deus, tem me dado amigos improváveis mas verdadeiros em todas as partes do mundo e em todas posições altas, médias e baixas. Eu perdi a oportunidade de uma carreira estilo "vale do silício", masnão perdi a oportunidade de ser feliz em qualquer lugar que eu estivesse, na dor, ao perder, ao conquistar.

Eu nem sabia que ainda ia ter muitos outros momentos que me sentiria assim: perdendo tempo, chances, coisas. Mas mal imaginava o quanto perder pode ser parte de um plano maior e melhor. É sábio aprender que não podemos viver tudo que há pra viver, é questão de gerir tempo, inclusive. Escolher também, se organizar, priorizar, sem esquecer a essência das coisas. É bom ter um propósito norteador, mas não se queixe,tenha calma com o ritmo frenético do mundo, ter acesso a tudo não significa que será saudável participar e ter tudo.

Você não precisa se matar se não estiver na lista de 30 jovens importantes antes dos 30! (Ainda falarei sobre isto!)Perder não é o fim da linha. É um processo recorrente. Para quem acredita, perder a vida é ganhar a eternidade. Só pra contextualizar (com algo enorme).

Vai com Deus, Roger, família e tripulante. E que a vida nos dê a maior oportunidade que ela tem a oferecer: a de abraçar quem amamos, ser grato pelo que temos e ter essência em quem somos. Sem clichê.

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