OPINIÃO

Uísque de beber, água de lutar

21/03/2014 16:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Tom cantou. Mark Twain criou a expressão. E o Brasil tem o problema.

A política de água no Brasil não é compatível com o seu papel como sexta maior potência econômica do mundo.

Um estudo realizado pela ONG World Wildlife Federation diz que o Brasil é a maior fonte mundial de água doce do planeta (com 13,7%). Mas hoje quase 6,5 milhões de pessoas estão vivendo sob racionamento, em 142 cidades de 11 estados.

No aquário da política nacional, onde a transparência tem cor de água turva, o debate é dirigido pela política do conflito de classes. A água é necessária para os exportadores brasileiros continuarem a fornecer carne para Rússia e Irã e soja para a China. E não para aumentar os salários reais dos trabalhadores nem a distribuição de renda. A água gera lucros que fluem para o topo da pirâmide econômica.

São Paulo está enfrentando sua pior seca em 25 anos. Após o encontro com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), a presidenta Dilma Rousseff expressou sua preocupação com os níveis de água no estado. Ela ofereceu apoio federal ao governador tucano para ajudar a normalizar a situação.

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Mas é bem sabido que o PT deseja ganhar o cargo de governador do estado mais rico do país. Quanto o governo Dilma se prepara para dar aos tucanos para melhorar a situação da água após a Copa do Mundo é uma questão aberta.

No Ceará, o domínio do governador Cid Gomes (PROS, Partido Republicano da Ordem Social), os agricultores estão dizendo que é a pior seca em 50 anos. A presidenta Dilma elogiou as recentes melhorias no cinturão de água durante a sua visita ao Ceará. O projeto é financiado em grande parte com R$ 1,5 bilhão do governo. Mas a cinta é um sucesso em pequena escala comparado ao desenvolvimento de uma política nacional de água para o futuro.

Cid Gomes, que viveu e trabalhou nos Estados Unidos, é um entusiasta de soluções que estimulam as empresas e governo a trabalhar juntos para promover o crescimento e o progresso. Ele apoia políticas que são alinhados com o conceito de governança global, que não combinam muito bem com a estrutura dos Estados verticais favorecidos pela presidenta Dilma e os dirigentes do Partido dos Trabalhadores.

O projeto piloto americano de água no Ceará, promovido pela Fundação PepsiCo e Columbia University de Nova York, tem feito pouco para resolver os problemas. Então, os planos para construir a maior unidade de energia solar no Ceará e o recente convite de Ciro Gomes (PROS) para participar na campanha para reeleger Dilma parecem ter mais a ver com a temporada política do que uma estratégia de energia a longo prazo.

As empresas internacionais do agronegócio, como Bunge e Cargill, já estão jogando a Argentina contra o Brasil para obter preços mais baixos no mercado de soja, que depende da água. Elas estão intimamente ligadas aos bancos que emprestam dinheiro para o governo brasileiro e às grandes empresas que operam próximo a ele.

Enquanto eles estão negando seu envolvimento na guerra econômica, instituições financeiros europeias e o Federal Reserve dos Estados Unidos já levantaram perguntas sobre a estratégia do Brasil para o controle da inflação e o crescimento econômico.

Pesquisadores da bolsa de valores alemã (Deutsche Boerse Group-ENI) examinaram recentemente a economia brasileira e preveem que o custo da gestão da água e da crise hidrelétrica está crescendo e vai impactar a economia principalmente após a eleição presidencial.

Enquanto isso, o Federal Reserve invadiu o território das agências de notação de crédito (Moodys, Standard & Poors) chamando Brasil de "a segunda economia de mercado emergente mais vulnerável" do mundo.

A equipe de comunicação da presidenta Dilma continua a promover o sucesso de programas como o PAC 2. Mas a revista Forbes, citando analistas do agronegócio, estima que a economia do Brasil vai perder R$ 10 bilhões este ano devido a problemas com água e energia.

O governo Dilma tem dito pouco sobre os problemas de água e seca no Paraná. O governador Beto Richa (PSDB) estima que a seca causou a perda de 2 milhões de toneladas esperadas para a colheita. As grandes empresas do agronegócio no Paraná estão agora prevendo perdas de mais de R$ 2 bilhões este ano.

Os partidos podem encontrar eleitores com uma falha de credibilidade em outubro. Quem vai falar mais alto? As chapas e suas máquinas de sonhos ou os mercados financeiros?

Uísque de beber, água de lutar.

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