OPINIÃO

Samba de subornos: Corrupção e cocaína ameaçam um acordo final de paz na Colômbia

Indícios de propina da Odebrecht paga ao presidente Juan Manuel Santos e às Farc podem ameaçar o futuro da paz no País.

13/10/2017 15:31 -03 | Atualizado 13/10/2017 15:51 -03
Anadolu Agency via Getty Images
O presidente colombiano Juan Manuel Santos e o líder das Farc Rodrigo Londono celebram o histórico acordo de paz.

Na véspera da visita do papa Francisco à Colômbia, em setembro, para promover um acordo final de paz, um escândalo de suborno começou no Brasil, envolvendo a maioria da América Latina e o mundo de narcotraficantes e guerrilheiros. A situação levou a críticas da liderança moral do presidente Juan Manuel Santos.

No que o Miami Herald chamou de una "reunião secreta" com o presidente Donald Trump, o ex-presidente da Colômbia Alvaro Uribe acusou seu inimigo político, o atual presidente, de fazer muitas concessões às Farc.

De acordo com o jornal colombiano El Tiempo, a Odebrecht, que fez contribuições para a campanha do presidente Santos em 2014, também tem sido permissiva com a guerrilha.

A empresa brasileira tem uma história de pagar subornos para às Farc a partir dos anos 1990.

Graças à corrupção, a guerrilha parou sua política de sequestro de executivos da empresa. A organização guerrilheira também permitiu que a empresa construísse estradas através do território que controlava.

Apesar da cobertura positiva da imprensa internacional e dos esforços de defensores de direitos humanos, o atual acordo continua a ser um "trabalho em andamento".

Porque envolve a distribuição de dinheiro, o componente mais controverso do acordo é "como reparar as consequências sociais da violência e da corrupção causadas por forças armadas, guerrilhas e grupos paramilitares".

A presidência e consultores de mídia leais estão posicionando sua estratégia para alcançar um acordo final perdoando ações passadas para proporcionar a paz e a segurança para as gerações futuras.

Enquanto isso, o negócio da cocaína continua a crescer. E segue um caminho rentável graças à influência de elementos da Farc e seus aliados na região transamazônica e em outros lugares.

De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o cultivo de folhas de coca na Colômbia dobrou durante os mandatos de Santos.

Ironicamente, o presidente tem apoiado o Plan Colômbia. Este é um projeto estratégico desenvolvido pelos Estados Unidos em 1999 com o objectivo de acabar com as insurgências comunistas e realizar sua "guerra às drogas."

Washington gastou cerca de dez bilhões de dólares no plano. Mas é uma pequena quantidade quando comparada com a estimativa de três a seis trilhões de dólares que, segundo a revista Time, Washington desperdiçou no Afeganistão.

Há preocupação em Washington e Brasília. Com o aumento do narcotráfico na região transamazônica, e a Colômbia (como o Brasil), realizando eleições nacionais no próximo ano, o presidente Michel Temerconvidou os Estados Unidos para participar de exercícios militares em solo brasileiro em novembro.

O objetivo anunciado da ação, chamada "Operation América United", é promover a segurança regional e os valores democráticos na região em geral. Independentemente da sustentabilidade ou insustentabilidade do acordo prospectivo de paz final na Colômbia.

Conselheiros civis e militares dos Estados Unidos já compartilham uma base militar no sul da Colômbia.
Recentemente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos emitiu um aviso de viagem, alertando os cidadãos do País para que "tenham cuidado, pois a violência ligada a insurgência doméstica, narcotráfico, crime e sequestro ocorre em algumas áreas rurais e urbanas".
As operações de treinamento terão lugar em Tabatinga (AM), na cidade colombiana de Leticia e em Santa Rosa, no Peru. Envolvem forças armadas e pessoal civil das quatro nações. No entanto, a maioria do treinamento será feito por especialistas estadunidenses.

A participação da Colômbia na operação é um lembrete de que, apesar de articular a retórica de paz, o governo do presidente Santos é incontestavelmente relacionado com os objetivos da política externa dos Estados Unidos.

A região é o principal corredor de produtos de coca e outras drogas para os mercados norteamericano, brasileiro e europeu. É uma área onde, historicamente, as Farc e seus aliados têm mantido uma forte presença.

De acordo com a BBC e a Telesur, a base temporária "multinacional" no Brasil vai ser provisionada com elementos logísticos para incluir equipamentos de comunicação, veículos, munições e armas de fogo.

Para mostrar seu boa fé para um acordo de paz final, as Farc entregaram todas as suas armas registradas às autoridades da ONU em julho.

Mas é difícil para uma guerrilha supostamente pacificada se reintegrar em uma sociedade colombiana, na qual 50,2% dos eleitores a rejeitaram em referendo nacional.

Em setembro, após a visita do Papa Francisco, a Colômbia alcançará uma nova delegação das Nações Unidas, cuja missão é verificar que as Farc estão se reintegrando à sociedade.

Mudanças sociais na sociedade colombiana para facilitar a reintegração dos grupos guerrilheiros exigiriam década. E poderiam ser problemáticas se a demanda mundial por drogas como a cocaína continuasse crescendo. O mesmo pode ser dito de grupos de direita paramilitar.

As Farc nasceram três anos antes do escritor colombiano Gabriel García Márquez escrever 100 Anos de Solidão, em 1967. Que escritor colombiano escreverá 100 anos de Farc em 2067?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Diálogo de paz entre las FARC y gobierno colombiano