OPINIÃO

De Watergate ao Águagate

15/05/2014 14:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Enquanto os políticos fazem manchetes explorando a seca, eles não reconhecem que o Brasil já está jogando na "revolução verde", reduzindo o uso de água com métodos agrícolas sustentáveis.

O Brasil é líder mundial no cultivo de terras agrícolas com o sistema de plantio direto (direct planting o no-till agriculture, em inglês), que economiza água, não precisa de aração por máquinas e reduz a dependência dos fertilizantes que causa a poluição das águas subterrâneas.

George Soros sabe. Mas, como um mestre de xadrez russo, ele está usando táticas maskirova, que mascaram uma estratégia mais ampla.

O debate sobre a seca e racionamento de água é divisionista, uma vez que coloca facções da classe política uma contra a outra. O governo da Presidente Dilma tem sido desajeitado, não respeitando os agricultores, os pobres de subsistência, ruralistas e agrônomos que têm lama nas botas.

Ao contrário dos sindicalistas em São Paulo, que estão sofrendo com a seca e lutando para manter seu status de renda média, o setor agrícola não se transforma em votos para a chapa 13 nas eleições.

Um estudo realizado pela Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas indica que o Brasil tem mais de 25,5 milhões hectares de terras cultivadas utilizando o sistema de plantio direto. Esse número representa 26% das terras aráveis do Brasil (71 milhões de hectares), segundo projeções do Banco Mundial.

Além disso, um relatório divulgado pela Associação de Plantio Direto do Pacífico na América do Norte indica que uma área de fazenda de 1.000 hectares pode economizar mais de 66 milhões de litros de água por ano usando o sistema de plantio direito.

Se os agricultores do Brasil não estivessem usando plantio direto, a atual crise da água seria pior.

"A adoção de plantio direto começou durante a abertura e continuou até a era do presidente FHC e os governos do PT", disse a este blogueiro John Landers OBE, agrônomo britânico que tem vivido e trabalhado em Brasília por 35 anos. "Produtores do Cerrado, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e otros estados que têm implementado o sistema deram um grande passo em direção a um futuro sustentável", afirma Landers.

O sistema de plantio direto não é popular com as indústrias que fabricam máquinas agrícolas nem para as indústrias que comercializam plantas de fertilizantes, porque reduz a demanda por seus produtos. No entanto, operando menos máquinas promove-se a sustentabilidade através da redução da emissão de carbono.

Muitos fatores complicam a política de água. No lado empresarial da equação, há empresas de água que emitem ações, outras que foram privatizadas pelo Estado e grandes multinacionais que estão tentando dominar o mercado. Como resultado, a política nacional da água não tem um alvo fixo. Ela se dispersa de forma aleatória, como as balas de uma espingarda.

Com as empresas, lobistas e advogados fazendo suas próprias interpretações das questões constitucionais que envolvem água criam a temperatura política ideal para um escândalo.

Para investigar a segurança alimentar no Brasil, uma organização americana chamada Climate Policy Initiative, suportada principalmente pela especulador George Soros, estabeleceu em 2011 um escritório no Rio de Janeiro. O objetivo da organização é fornecer novos instrumentos financeiros que tornam o investimento em água e agricultura sustentável mais atraente para mercados financeiros internacionais.

A Climate Policy Initiative, em colaboração com a PUC do Rio, está realizando pesquisas de gestão de risco e mecanismos de garantia de empréstimos no Brasil. Outros ramos da organização estão realizando estudos semelhantes na Índia, Indonésia e China.

A Bloomberg relata que Soros planeja doar US$ 10 milhões a cada ano, por um período de dez anos, para a Climate Policy Initiative.

Efetivamente, os projetos oferecem a Soros uma plataforma para se tornar um grande jogador na privatização dos recursos hídricos do Brasil. Soros disse à Bloomberg que vê o aquecimento global como um "problema político" e que ele gosta de investir em projetos de água que seu grupo está desenvolvendo no Brasil porque ele pode "jogá-los".

Ao mesmo tempo, Soros está se promovendo como um filantropo ético com a doação de US$ 1 bilhão num esforço para reduzir o aquecimento global.

O site da Climate Policy Initiative afirma que a organização mantém uma relação com o Gabinete de Segurança Institucional da presidente Dilma, que é atualmente liderado por Marcelo Neri. Nem a Federação Mundial para a Natureza (World Wildlife Federation), Fernando Gabeira e seus verdes ou a Human Rights Watch (também financiada por Soros) tiveram a audácia de fazer essa reivindicação.

No Paraná a CPI já está examinando as empresas de água e saneamento. O Conselho das Américas em Nova York publicou um artigo sobre possíveis irregularidades nas relações entre as empresas de água e autoridades governamentais. Citando a mídia brasileira, a revista do Conselho das Americas informou que o Brasil atingiu um recorde de 93 disputas envolvendo questões de água em 2013.

Com o racionamento de água tornando-se um "trending topic" no Facebook, Twitter e outras mídias sociais, será difícil para assessores de comunicação de Dilma mantê-lo em segundo plano. Em vez de um Watergate, o Brasil terá um Águagate. E George Soros estará pronto para lucrar, ajudando o Brasil a "reformar" o sistema de água.