OPINIÃO

Quem policia a polícia?

10/03/2015 17:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
Raphael Tsavkko Garcia/Flickr
Protesto contra aumento das passagens em São Paulo

Por Karoline Maia, 21, do Jardim Maia, zona leste de São Paulo

Meu pai é um cara de sorte. Uma vez, quando era jovem, ele e uns amigos entraram em um terreno pra jogar bola no Jardim Maia, bairro da zona leste onde moramos. E, mais tarde, quem apareceu? Tcharam! A Rota. A Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) é um dos batalhões da Tropa de Choque da Polícia Militar paulista e, desde os anos 1970, é conhecida pelo histórico de violência.

Naquele dia, meu pai, um homem negro e da periferia, poderia ter sido morto. Sim, ele só estava jogando futebol! Mas estava no lugar errado, na hora errada. No final, os policiais deixaram que todos fossem embora. Bom, como eu já contei, meu pai é um homem de sorte.

Antes dos protestos de junho de 2013, eu nunca tinha visto a violência policial ser tão discutida. Mas a truculência dos soldados naquela época voltou a levantar outra questão: se a polícia comete esse tipo de agressão em locais públicos, no centro da cidade, diante de câmeras, o que é capaz de fazer na periferia, um lugar "invisível"?

Eu sou de lá. Sei o quanto o coração aperta quando uma viatura da Rota ou da PM passa a mil. A primeira coisa que vem à minha cabeça é: hoje alguém da minha quebrada pode ser morto por um deles... Mas, como você deve saber, isso não é novidade.

Em 2014, a Ponte, um canal de informações sobre segurança pública, justiça e direitos humanos, publicou uma matéria que aponta que, em 19 anos, a Polícia Militar de São Paulo matou mais de 10 mil pessoas - mais do que a polícia dos Estados Unidos todinho. O dado mais recente mostra que, no ano passado, a PM de São Paulo matou 926 pessoas.

Nesta entrevista que eu fiz com o jornalista Bruno Paes Manso, que escreveu durante dez anos para "O Estado de S.Paulo" e faz pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da USP, ele fala sobre as causas da repressão policial - hoje e em outros tempos, como na ditadura militar-, sobre a desmilitarização da polícia e o que pode ser feito pra acabar com esse problema.

Acredito que, agora, a melhor arma que temos são as redes sociais e as câmeras dos nossos celulares, para mostrar que, sim, a polícia está sendo vigiada: por nós.

*O título do post é uma referência à música "Quem policia a polícia?", do grupo Zumbi Somos Nós.