OPINIÃO

O Enem me tirou do telemarketing: Virei a 1ª universitária da família

20/10/2015 17:44 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

paula

Por Paula Farias, 27 anos, moradora do Grajaú, São Paulo.

Para mim, todo mundo nasce com uma vocação. Muitos demoram para sacar qual é a sua. Outros, descobrem logo de cara. E há ainda aqueles sacam rápido, mas que não tem condições de seguir e realizar seus desejos e sonhos. E aí, o que fazer?

Eu me joguei nos estudos e fui fazer o Enem, porque sabia que esse seria meu passaporte para uma nova vida, para a vida que eu queria, para a qual achava que  tinha mesmo vocação. Em meados de 2006, quando o Facebook ainda era o point da galera e o WhatsApp nem exista, eu trabalhava como atendente de telemarketing e sonhava em cursar uma universidade: queria ser jornalista, mas não para aparecer na televisão - queria apenas mudar mundo. Juro que era só isso! :)

Moradora da periferia de São Paulo, essa cidade cinza que pulsa forte, eu não estava afim de casar, nem de ter filhos, como as minhas amigas afirmavam querer. Nada contra as escolhas delas. Mas a minha era continuar estudando. Era disso que eu gostava - e gosto ainda hoje.

Me pergunto quantos jovens da periferia têm o mesmo desejo?

Só que a vida vai empurrando a gente para outros caminhos, tipo aquela cena do busão lotado, em que você vai sendo amassado e jogado para outro lado - mesmo que não queira. Nessas horas, em que parecia que não ia dar certo, que não ia conseguir continuar perseguindo meu sonho, colocava meu rap no último volume e seguia em frente. Se a vida era dura eu seria mais dura ainda.

Fiz a prova do Enem três vezes. Isso mesmo: TRÊS vezes, nos anos de 2006, 2007 e 2008 - sempre com isenção da taxa de inscrição, já que estudei em escola pública. Os cursos de jornalismo nas universidades particulares que faziam parte do Prouni (Programa Universidade para Todos) (naquela época, o Enem ainda não valia para universidades públicas) tinha uma nota de corte alta e uma quantidade pequena de bolsas.

A cada ano a concorrência aumentava. E junto com ela, a minha ansiedade. Mas, poxa, era o meu sonho que estava em jogo, então, continuei tentando. Em 2008, a redação do Enem teve como tema a preservação da floresta Amazônica e a minha nota foi muito alta! Por causa disso, minha média foi excelente. Me inscrevi no Prouni e... Adivinha o que aconteceu?

Sim! Depois de muita luta, eu consegui. Uma baita conquista. Era a minha vaga no ensino superior com bolsa integral de 100% no curso de jornalismo da Universidade Paulista (Unip). Quando eu contei para a minha mãe ela nem acreditou. Pernambucana com quatro irmãs e várias sobrinhas, ela estava se tornando a mãe da única universitária da família (até aquele momento): Era muita emoção!

No primeiro semestre de 2009, comecei a estudar junto com milhares de outros estudantes de baixa renda espalhados por diversas universidades do Brasil. Segundo o MEC (Ministério da Educação), desde 2005, quando o Prouni se tornou Lei nº 11.096, até o segundo semestre de 2014, já são 1,4 milhões de estudantes beneficiados com o programa, sendo 70% com bolsas integrais.

É muito maneiro saber que uma galera conseguiu realizar o sonho de cursar o ensino superior, e que muitas outras mães também ficaram orgulhosas de seus filhos e filhas.

A mudança

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Sobre o emprego de telemarketing, o dia mais feliz do meu trabalho foi quando eu pedi as contas porque tinha conseguido o meu primeiro estágio de jornalismo. A partir de então, me tornei uma foca (como são chamados os estagiários de jornalismo) na Secretaria de Participação e Parceria, da cidade de São Paulo. Depois passei por outros lugares, como CTB ( Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Portal Rap Nacional - e em cada um deles aprendi muito. Mas isso já é pauta para outra reportagem.

Em 2012 concluí a faculdade e atualmente estou cursando Pós-Graduação em Comunicação em Mídias Digitais, afinal a internet ainda é um mundo a ser descoberto. E essa é a minha nova vocação ;)

E se você tá se perguntando por que estou contando tudo isso, o que você tem a ver com isso? Só quero dizer uma coisa:

Lute pelo seu sonho, mesmo que seja difícil, mesmo que muita gente duvide de você, porque não existe atalho pra felicidade e se você não correr atrás dos seus objetivos, ninguém vai fazer isso por você.

Agora, se joga na prova do Enem e vai com esperança e persistência.

Ah! Sobre o desejo de mudar o mundo, eu estou mudando o meu a cada dia, e talvez depois desse texto eu ajude você  a mudar o seu mundo também.

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