OPINIÃO

Na revolta armada da vida, fui atingido pela intolerância

17/08/2015 14:04 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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O gatilho é uma peça da arma de fogo que, quando puxado, aciona o disparo. Dos revólveres às metralhadoras, o gatilho é peça comum e antecede o estrago que a arma pode causar. Mas a palavra não tem somente um significado e eu descobri seu outro sentido enquanto cobria uma manifestação. Perceber isso me feriu como se eu tivesse apontado a arma pra mim mesmo.

Nos grupos LGBTs de que faço parte, discutimos e aplicamos o conceito de Trigger Warning (TW): um aviso de que o conteúdo tem potencial para desencadear reações incômodas.

Se você viveu um caso de violência doméstica na sua vida, por exemplo, provavelmente não gostará de ler, falar ou reviver este assunto por se sentir mal.

Eu nunca havia passado por uma situação que fosse um gatilho para mim e foi como repórter, cobrindo as manifestações que envolviam o Plano Municipal de Educação de São Paulo, que eu vivi isso pela primeira vez.

Em frente à Câmara Municipal, dois grupos. De um lado, a luta pela quebra do preconceito contra LGBTs. Do outro, a luta pela preservação dos valores da família tradicional. A pauta em jogo era a inclusão da discussão de gênero nas escolas.

Só o que era para ser um debate sobre a vida de crianças e adolescentes, virou uma guerra para ver quem é o adulto que fala mais alto.

Os contrários eram maioria, estavam em frente à Câmara e boa parte vinculado a uma entidade religiosa, seja a Arquidiocese de São Paulo, a Aliança de Misericórdia, a Paróquia Santa Gertrudes e até membros da Canção Nova, entre outros.

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Vieram uniformizados em camisas brancas com os dizeres "somos família" e "não ao gênero". Tinham consigo um caminhão de som que fazia ecoar suas canções, orações e palavras de ordem em uma espécie de looping. "Respeito sim, gênero não", gritava a massa.

Mais ao lado do portão de entrada, uma minoria usava a garganta tentando fazer tanto barulho quanto o caminhão de som. Ciranda. Palmas. Gritos.

Além do gênero, que motivava a maioria de fiéis vestidos de branco, reivindicavam os 30% da receita de impostos para educação básica e 5% para educação inclusiva, a limitação de alunos por sala de aula e a erradicação do analfabetismo.

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Não tinham um uniforme específico, mas muitos usavam laranja e carregavam cartazes e bandeiras da mesma cor. O bloco Ilu Obá de Min, de mulheres que cantam e dançam músicas africanas, davam cor e som ao protesto. Entre os manifestantes estavam o coletivo Revolta da Lâmpada, o Levante Popular da Juventude, o Sindicato da Educação Infantil e diversos apoiadores da causa, como a cartunista Laerte.

No olho do furacão de protestos, me vi perdido.

Como um repórter que busca uma visão neutra perante os fatos, padeci em meio ao caos e o confronto desproporcional das ideias. Aquilo tocou em cheio minhas experiências pessoais como um tiro à queima roupa.

Os fragmentos atingiam minhas lembranças enquanto estudante de escola pública, memórias e momentos que passei durante toda minha vida, em uma confusão de gostos e desgostos, para descobrir quem eu era ou o que seria de mim.

As orações constantes e palavras de ordem venciam a voz de uma minoria incansável. Aquele cenário refletia a sociedade como um todo que, dia após dia, berra seu modelo de vida, seus padrões impostos, sua falta de empatia.

Eles gritavam contra a "ideologia de gênero", chamando-a de "ideologia de morte". "Respeito sim, gênero não" era a contradição que reverberava por todos os cantos.

Chorei.

Foi difícil engolir aquilo. Aquele ambiente de guerra disfarçado de camisas brancas, de uma paz seletiva. Aquelas pessoas que defendiam uma família específica, um amor inflexível e que se opunham a quem eu sou. Sentei e respirei enquanto as lágrimas escorriam.

Onde eu estou? Onde todos nós estamos?

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Um pouco mais ao lado, uma senhora estava sentada no canteiro central do Viaduto Jacareí. Ela repetia, em menor tom, os gritos dos defensores do gênero, enquanto tricotava calmamente. Cheguei perto, sentei, olhei em seus olhos e perguntei "o que a senhora está fazendo aqui?" e ela, tranquila e sem interromper o tricô, me respondeu:

"Não discutir gênero é uma atitude fascista e torna possível o preconceito e a violência constante contra pessoas diferentes deles. Nenhuma igreja pode mandar em alguém."

Dona Marilene Camargo, de 67 anos, me deu fôlego para acreditar que nem tudo está perdido. Fôlego para gritar contra uma massa de intolerantes. Fôlego para lutar contra qualquer caminhão de som que queira falar mais alto que meu sentimento.

Respirei, agradeci e segui minha vida e minha apuração, com a calma de alguém que tricota no centro da guerra.

Por Vinícius Cordeiro, 22, morador de Rio Grande da Serra, Grande São Paulo

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