OPINIÃO

Meu sufoco dura 4h20 e custa R$ 12,95 por dia

11/08/2015 13:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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Jéssica Souza, 24 anos, de Guarulhos (no trajeto até a Vila Olímpia)

"Pessoal, um passo para trás, por favor!" O cobrador do ônibus 105 - Guarulhos (Jardim Moreira) passa todo o trajeto pedindo sem ser atendido pelos usuários. Não que ninguém queira, mas não tem espaço pra nem um passinho no coletivo que tem como destino o metrô Parada Inglesa.

6h30 - Estou no ponto final da linha 105, no Jardim Moreira, em Guarulhos, no norte da Grande São Paulo. É ali que começa minha viagem diária de mais de 30 km até a Vila Olímpia, na zona oeste de São Paulo. São R$ 3,50 pra começar o aperto.

De acordo com a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo) o tempo de duração do percurso do 105 é de 50 minutos e os ônibus passariam a cada 4 minutos a partir das 5h58 da manhã (nos dias úteis).

Só que não parece ser bem isso que acontece. Como explicar a superlotação dos coletivos se daqui 4 minutos teríamos a oportunidade de entrar num ônibus "vazio"? Se o intervalo é esse, por que os cobradores param em todos os pontos, mesmo sem poder oferecer o mínimo de segurança aos passageiros?

Nesse aperto diário, as pessoas respondem ironicamente ao cobrador: "Vem você aqui no fundo e dá um passo para trás" ou "Vamos trocar de lugar? Eu fico sentado e você aqui em pé".

7h40 - Chego no metrô Tucuruvi, e os 50 minutos que o trajeto deveria durar já viraram 1h10. Aqui, desembolso mais R$ 1,95 - isso porque tenho o bilhete que integra o transporte da região metropolitana com o metrô e os trens (o BOM). Se não, seriam mais R$ 3,50.

Logo chego na estação da Luz, em que troco da linha azul para a amarela e vou até a estação Pinheiros. Ufa!

8h - Fico em dúvida se o trajeto de metrô foi rápido ou se virou costume. Sem resposta, começo um preparo psicológico para enfrentar a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Pego a linha 9-Esmeralda e desembarco na estação Vila Olímpia, onde trabalho.

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8h40 - São 2h10 de trajeto e chego 20 minutos antes da hora de começar o trabalho. Sem dar nenhuma cochiladinha e com fones de ouvido durante o tempo todo, só quero pegar um café e sentar.

Depois de um dia comum de trabalho, a volta

18h - É horário de pico na CPTM. Só quem já viveu o que é isso pra entender (mas eu tento compartilhar isso com a foto abaixo e no início desse texto). De novo, volto a desembolsar R$ 3,50 pra começar o aperto: vou fazer todo o trajeto que fiz na ida, agora ao contrário.

Embarco na estação Vila Olímpia (Linha 9-Esmeralda), desembarco na estação Pinheiros (Linha 4-Amarela), pego o metrô até a Luz e de lá, vou até a estação Parada Inglesa (linha 1-azul).

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19h40 - Eis que estou mais uma vez me preparando para encontrar o 105 - Jardim Moreira, que funciona com intervalos de 12 minutos após as 19h36.

Se o ônibus cumprisse o horário apresentado pela EMTU, o percurso deveria demorar 50 minutos, mas não. Levo uma hora e, sem dar um passo para trás (o cobrador pediu, mas continuava não tendo espaço), estou em casa.

Meu sufoco em números

Total de passagem ida: R$ 5,70

Total de passagem volta: R$ 7,25

Total: R$ 12,95

Tempo de viagem ida: 2h20

Tempo de viagem volta: 2h

Total: 4h20

Tem noção de quanto gasto numa semana de trabalho? São 21h40 no trânsito e R$ 64,75 no bolso.

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