OPINIÃO

O racismo nada velado que existe no 'se nada mais der certo'

Recentemente, vieram à tona imagens de estudantes vestidos com uniformes de profissões como gari, ambulantes e revendedores de cosméticos.

06/07/2017 16:17 -03 | Atualizado 06/07/2017 16:22 -03

Por Lucas França

Recentemente, vieram à tona imagens de estudantes vestidos com uniformes de profissões como gari, ambulantes e revendedores de cosméticos. A coletânea de imagens é de duas escolas: Colégio Marista de Porto Alegre, com imagens de 2015, e a Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), com fotos de maio deste ano. No decorrer do texto, me atentarei à segunda escola por uma questão exclusivamente cronológica.

creativecommos

As imagens dos alunos da IENH mostram um momento de confraternização comum nas escolas brasileiras. No 3º ano do ensino médio, em determinados dias do ano letivo, os estudantes vão ao colégio fantasiados a partir de variados temas.

O tema da vez em destaque foi "se nada der certo...". As vestimentas citadas no primeiro parágrafo dizem respeito ao vestibular: se os estudantes não passarem nas provas e não conseguirem vagas nas universidades, deverão seguir carreiras que supostamente seriam "erradas".

creativecommos


Antes de entrar no ponto principal do texto, quero me prender ao ato de fantasiar-se. Tal ação tem consigo a ideia de escape da realidade, alucinação, ficção, devaneio, sonho. Vivemos em uma sociedade na qual tudo é linguagem. Toda ação imagética ou linguística transmite significados. Ao me deparar com estudantes fantasiados de específicas profissões, somado ao nome da movimentação, entendi que essas profissões estão fora da realidade deles. É irreal que eles tenham tal futuro.

creatibecommos


Respaldado nessa análise, o ponto principal da ação dos alunos e destaque do texto aparece: o Brasil é um país desigual em níveis alarmantes.

A Instituição Evangélica fica em Novo Hamburgo, região metropolitana do Rio Grande do Sul. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medido por expectativa de vida, acesso ao conhecimento e paridade de poder de compra, é de 0,809. O colégio possui teatro, biblioteca, pista de atletismo, quadra poliesportiva, sala de música, dois museus (da Educação e do Índio Tukuna) e, entre muitos outros espaços, laboratórios de química, física, microscopia e informática.

A IENH também oferece orientação profissional. A escola realiza feira de profissões, teste vocacional, palestras temáticas e visitação às universidades. Evidente que as ocupações que serviram de fantasia para os estudantes não devem aparecer nos testes de orientação profissional.

Acesso à informação com qualidade e espaço de ensino agradável não deveriam, supostamente, gerar situações que transmitam a ideia de "minha realidade é mais certa do que a outra". Penso que nossas classes A e B, nas quais os estudantes do IENH e as respectivas famílias estão inseridas, utilizam privilégios de maneira agressiva.

Como consequência, reforçam a condição de desequilíbrio social no Brasil. Mais do que isso, trazem um outro aspecto do senso comum brasileiro: o racismo. O site da escola disponibiliza galerias de fotos dos ex-alunos do ensino médio. De 2005 a 2016, passaram diversas turmas. Em 11 anos de fotos, encontrei apenas três negros.

A população negra no país, segundo dados de 2014 do IBGE, é de 53,4%. Na mesma coletânea de dados, consta que, apesar da maioria populacional, negros representam 76% dos pobres do País. A mensalidade da IENH é cara, inimaginável para a classe pobre, de maioria negra.

É preciso apontar uma questão sobre o assunto aqui tratado. A IENH não é causadora da desigualdade e nem iniciou o racismo no país. A escola, na verdade, é um recorte da realidade do Brasil e a ação de seus alunos reforçou tal retrato.

Em sua página oficial no Facebook, a Instituição Evangélica publicou uma nota a respeito do ocorrido com seus alunos. É um texto que tenta explicar a situação. Destaco o seguinte trecho:

"Dessa forma, a IENH pede desculpas pelo mal entendido com a concepção e realização da atividade que não teve o objetivo de discriminação enfatizado nas redes sociais. Também destacamos que todas as colocações e situações oriundas certamente serão temas de discussão e aprendizado em sala de aula."

Discutir o tema não basta. Aprender sobre desigualdade também é insuficiente. É necessário uma reformulação social, escolar. O desequilíbrio existente no Brasil, além de excluir uma considerável parcela da população de escolas e faculdades, de separar as profissões por cor e renda, mata. A população brasileira pobre, que é ambulante, gari, vendedora e faxineira, morre. Morrem em favelas, filas de hospitais públicos e lugares insalubres destinados à moradia.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- Achar graça de quem se atrasa para uma prova diz muito sobre nós

- Como votaram os meninos da Fundação Casa de São Paulo nas eleições municipais?

Estudantes se vestem de faxineiro, ambulante e cozinheiro em festa 'Se nada der certo'

ETC:Vozes