OPINIÃO

Sejamos todos feministas

A palavra "feminista" tem sido empregada como elemento distante e carregado de tom fortemente pejorativo.

08/03/2017 13:00 -03 | Atualizado 09/03/2017 14:46 -03
Coco Flamingo
Mulheres de conduta feminista muitas vezes não gostam de ser classificadas como feministas.

Esses dias eu estava conversando com uma amiga de infância, a Cris. Ela é uma pessoa por quem eu tenho um carinho imenso há mais de 20 anos, e uma das mulheres mais bonitas que conheço, por dentro e por fora.

E era justamente sobre o sucesso de suas fotos que estávamos conversando. Sempre produzidas e provocantes, cada foto motiva dezenas e às vezes até centenas de pessoas a apenas dar uma passada pra fazer um comentário elogioso – inclusive eu, que estou sempre lá dizendo que ela é a rainha das rainhas.

Ela comentou que gosta muito desse fetiche de publicar fotos provocantes, desse jogo de se mostrar através do oculto, da sensualidade em geral.

Mas que aquilo era uma decisão que partia dela, que o corpo era dela, e que não aceitava nenhuma atitude desrespeitosa e deixava isso bem claro para todos.

Muito naturalmente eu falei algo como: "Issaê, sempre bom ensinar um pouco de feminismo pra esse povo!".

Pra quê?!

Ela ficou sem graça e disse que até concordava com algumas coisas que as feministas falavam. Mas ela gostava de ser bonita, de se produzir, gostava de receber elogio dos homens.

Além do mais, queria amar e ser amada por um homem, formar uma família etc. "Quer dizer, as feministas vão me odiar por isso, né?", concluiu.

Eu me lembrei muito dessa conversa com a Cris quando estava lendo uma reportagem sobre a Rafaela Bastos, geógrafa e passista da Mangueira, que acabou de ser condecorada pela Fundação Casa de Rui Barbosa por realizar um estudo sobre a objetificação da passista na Sapucaí.

Ao longo do texto, Rafaela aponta como o assédio, a invasão de privacidade e o desrespeito à mulher passista são problemas que permeiam o Carnaval, problemas atrelados ao racismo e ao machismo, e heranças fortíssimas da nossa escravidão.

Rafaela dá palestras e pauta a necessidade de estabelecer um limite claro entre o que a passista faz e o que os outros acham que podem fazer com ela. Mas enfatiza: "não sou feminista".

O texto sempre pontua "a feminista" como um elemento distante e carregado de um tom fortemente pejorativo. "Uma feminista chegar e falar pela gente, eu acho até um pouco complicado porque ela não tem a nossa vivência."

Afinal, ela quem?

Pequenos acontecimentos como esses me enchem de uma tristeza tão profunda porque mostram como é bem-sucedida a estratégia das mídias em geral em demonizar a causa feminista. Bem-sucedida há décadas.

Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, confessa que se sentiu praticamente ofendida quando foi chamada de feminista pela primeira vez, porque o estereótipo de uma feminista é o de quem "odeia os homens, odeia sutiã, acha que as mulheres devem mandar nos homens; não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem senso de humor e não usa desodorante". E ela não é nada disso: na discussão em que o termo surgiu, ela estava "apenas" estava defendendo a igualdade entre homens e mulheres.

Quando se fala em feminismo, o que percebo é que logo vêm à mente das pessoas imagens como um espaço hermético, combativo e pouco acolhedor, no qual um grupo restrito de pessoas raivosas discute regras para definir quem deve e quem não deve ser aceito por aquele "clube"; que, pra ser aceita, a pessoa precisa assinar um contrato concordando com absolutamente todos os preceitos. Que neste clube será definido quem vai escrever nas portas dos banheiros as frases da Simone de Beauvoir, quem vai dar zero pra lojinha de móveis que defende que homens são melhores do que mulheres, quem vai mostrar os peitos em praça pública e que todas terão pelos no sovaco. É uma palavra que prenuncia atenção máxima: opa, cuidado, aquela ali é feminista.

O feminismo, muito pelo contrário do que tanto se difunde por aí, não trata de detestar homens nem mandar neles nem proibir se depilar nem abandonar o sutiã nem rechaçar a sensualidade nem abominar a família nem a feminilidade nem criar uma lei que torne o aborto obrigatório.

Uma das coisas que eu mais falava quando admirava uma mulher forte e guerreira era que ela era "muito macho", sem sequer me dar conta de que a ideia de resistência está diretamente ligada à figura masculina.

Feminismo trata basicamente da luta pela igualdade de gêneros. E, quando falamos em igualdade de gêneros, essa luta vai desde o direito à autonomia e à integridade do corpo, passando pelos direitos trabalhistas até a luta contra o patriarcado, a cultura do estupro, o feminicídio, a violência doméstica, as jornadas duplas e triplas ou qualquer forma de discriminação pelo simples fato de se ser mulher.

Essa luta abrange, inclusive, a ideia de que você não precisa ser "muito macho" pra ser respeitada. Você não precisa mandar em um homem. Mas você tem o direito de que um homem não mande em você nem dite as regras que lhe dizem respeito.

Você deve ser respeitada, e seus direitos devem ser garantidos seja você uma mulher de família, seja uma vadia, seja bela recatada e do lar ou desbocada e do bar, seja cabeluda, seja depilada, com sutiã, sem sutiã, seja com filhos ou numa casa cheia de gatos, seja com fotos sensuais ou sem fotos sensuais, seja hétero, cis, lésbica, trans. Seja mulher.

O respeito nos é inerente, apesar de muitas vezes tentarem nos convencer de que não. E, acredite, ser quem se é e ter respeito por si próprio muitas vezes é aterrorizante para os outros.

Fomos criados sob parâmetros machistas e heteronormativos, carregamos ideias completamente calcadas em valores conservadores, sim.

Ninguém nasce no berço da desconstrução. Neste Dia Internacional da Mulher, dê a si mesmo a oportunidade de repensar os conceitos, de debater, de desaprender, de reaprender.

É um dia de reflexão, de lembrança, um dia para nos lembrar que há luto e muita luta. Não estamos ainda na metade do caminho. Trocamos flores por respeito.

E, se você também luta pela igualdade de gêneros, não tenha medo: sejamos todos feministas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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