OPINIÃO

Brasileiro gosta mesmo é de pão, circo e Carnaval

05/02/2016 20:16 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
mariusz_prusaczyk via Getty Images
Peruvian dancers at the parade in Cusco.

Apesar de uma das festas populares mais famosas do mundo acontecer e se consagrar por aqui, em terras tupiniquins, a origem do Carnaval data de muito tempo antes da fundação do Brasil.

Acredita-se que, ainda na Antiguidade, já houvesse comemorações carnavalescas. Sua etimologia até hoje é alvo de controvérsias, mas o que se sabe é que se tratava de uma festa relacionada a prazeres mundanos, na qual escravos eram soltos, escolas fechavam e provava-se de uma liberdade extrema, concedida apenas naquele período. Até mesmo desfiles alegóricos aconteciam, e o governo da pólis ficava momentaneamente sob a incumbência de um tal gordinho extrovertido.

Não existem estudos a respeito, mas eu pessoalmente acredito que, lá mesmo naquela época, à medida que o Carnaval se aproximava, surgiam grupos de pessoas que se punham contra a festa.

Possivelmente resmungavam que o Imperador estava mais preocupado com o Carnaval do que com as invasões bárbaras nas províncias, que alguma peste acometia os cidadãos e mesmo assim o povo estava dançando pelas ruas, que o império queria sediar as Olimpíadas mas não tinha preparo para um evento deste porte etc. etc. etc. Desconfio inclusive que algum jornal grego tenha analisado a estagnação econômica romana e afirmado que Roma comemorava à beira do precipício.

Isso, evidentemente, antes de a festa começar.

Como um bom exemplo da civilização ocidental, aqui no Brasil nunca foi diferente.

À medida que os blocos saem e que as ruas são tomadas por foliões, surgem os resmungos que passam a evocar e a priorizar todas as penúrias que até então haviam sido ignoradas pelos próprios resmungões - e continuarão sendo.

Porque, afinal, desde que o samba é samba é assim. E, para coroar a influência greco-romana, a expressão panis et circencis - pão e circo - é atribuída à personalidade do brasileiro. Brasileiro gosta mesmo é de pão e circo.

Neste ponto, eles estão certos. A gente quer mesmo é pão e circo. O pão, uma das iguarias mais antigas da História, é também o símbolo de alimento mais universal de que se tem notícia. Onde existe pão não existe fome.

Sua importância para o bem-estar social é tamanha que uma revolução insurgiu devido ao aumento do preço do pão, depondo seu último rei e invadindo e derrubando a prisão mais importante daquele país.

Essa revolução alterou a linha do tempo na história do mundo. Isso quer dizer que, sim, pão é referência; eu quero pão, você quer pão, brasileiro quer pão, todo mundo quer pão. Pão, esse maravilhoso elemento primordial tanto para a Revolução Francesa quanto para o Didi Mocó.

Igualmente como o pão e o Carnaval, o circo remonta às tradições milenares. Seus resquícios mais antigos encontram-se na China e no Egito, e as artes circenses variavam entre performances físicas e atrações para divertir e encantar. Em tempos de doenças, de dificuldades, de tristezas, lá estavam as artes para oportunizar o belo.

Como disse Gullar, parafraseando Nietzsche, a arte existe porque a vida não basta. Tão importante como alimentar o corpo é alimentar a alma, e desde a também tão citada Antiguidade falava-se sobre isso: por meio da experiência com as artes era possível realizar uma grande descarga de sentimentos e emoções, purificando, assim, quem diria, a alma. A essa purificação foi dado o nome de catarse.

É justamente em meio às mazelas que a necessidade de catarse se faz maior. E o carnaval, com sua arte, está aí para expurgar nossa frustração, nossa revolta, nosso cansaço. Para soltar aquele grito preso na garganta, para glorificar apoteoticamente toda a alegria adormecida, para ser catártico.

Porque nós, brasileiros, assim como o mundo inteiro, queremos pão, queremos circo, precisamos deles para que a realidade não se torne insuportável.

Por isso, que haja resmungos, que haja incômodo com a felicidade. Vai ter panis, vai ter circensis, e pode reclamar: vai ter carnavalis e futebolis.

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