OPINIÃO

Opção do nordestino e do eleitor pobre por Dilma e PT incentiva nova onda de preconceitos contra Nordeste

08/10/2014 15:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
Pisco Del Gaiso via Getty Images

Tão logo foram abertas as urnas do primeiro turno da eleição presidencial, no domingo passado (5/10), foi também aberta a caixa de maldades, com variados tipos de manifestações preconceituosas, contra o eleitor do Nordeste que votou maciçamente em Dilma Rousseff (PT). Cerca de 60% dos votos da região foram para a petista.

Isso foi suficiente para que surgissem, de pessoas de várias partes do país, ataques preconceituosos contra Dilma e o PT. Segundo a enxurrada de ataques, é como se a região votasse em Dilma devido ao seu atraso econômico e, em particular, à dependência que parte da população do Nordeste tem do Bolsa Família, programa social do governo federal que beneficia a população pobre de todo o país.

Além do Nordeste, estes preconceitos também têm motivações sócio-econômica - ou seja, com foco direcionado à população pobre que vota no PT. Vejam o que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), maior cabo eleitoral do presidenciável Aécio Neves, falou ao portal UOL, um dia após a eleição:

"O PT está ficando nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados".

Com opinião semelhante à de Fernando Henrique, há ataques contra pobres e o Nordeste vindo de várias partes do Brasil (veja o mapa do voto; Estados nas cores vermelho e rosa deram maioria a Dilma, azul em Aécio e amarelo em Marina).

Apoiador do candidato Aécio Neves, o colunista e jornalista mineiro Paulinho Navarro, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, propôs o separatismo do Nordeste e do Norte do país de outras regiões do Brasil.

"A gente podia pensar em dividir o Brasil em dois. O do Norte/Nordeste e o do Sul/Sudeste. Desta forma, a Dilminha ficaria com seus preguiçosos eleitores bolsistas (Bolsa Família), fazendo uma sesta em redes nordestinas, e nós, com Aécio e demais trabalhadores esclarecidos, de mangas arregaçadas, continuando a botar lenha na produção deste país".

Não é a primeira vez que opiniões preconceituosas como esta são manifestadas depois de resultados eleitorais que beneficiam o PT. Na eleição de 2010, após a eleição de Dilma Rousseff, uma estudante de direito de São Paulo propôs, nas redes sociais, matar um nordestino por dia, para que não votasse mais no PT.

A Justiça condenou a estudante, Mayara Petruso, por crime de discriminação e preconceito.

Mas parece que esta condenação não surtiu efeito. Desde domingo passado, quando o Nordeste votou em peso em Dilma, as redes sociais se encheram novamente de preconceitos pelo fato de a maioria dos nordestinos terem votado na candidata do PT. Parece até que o Brasil está voltando aos anos 50.

Naquela época, um partido político, a UDN, propôs o chamado "voto qualitativo" - é como se o voto de um empresário (leia-se, de um eleitor rico) tivesse um peso bem maior do que o voto de um operário (leia-se, de um eleitor pobre).

O que motivava o preconceito contra o voto do pobre nos anos 50 era a liderança de Getúlio Vargas, que se suicidou em 1954, quando era presidente da República, ao não resistir aos duros ataques da mídia e de setores políticos. Hoje esta banda preconceituosa se manifesta contra a liderança de Lula e do PT.

O curioso é que, nos anos anteriores aos governos Lula e Dilma, em especial na ditadura militar, o Nordeste votava em peso na Arena, PFL e depois no DEM, que sucedeu estes partidos. Naquela época, o nordestino não era chamado de "desinformado e pobre", como chama hoje Fernando Henrique Cardoso.

É fato que quando o Nordeste votava na Arena, PFL e DEM - e depois no PMDB e PSDB - ninguém contestava o voto do nordestino e do pobre. Foi só o Nordeste mudar de opinião - por conscientização política ou motivação social e econômica - para que o cacete ideológico e preconceituoso seja usado contra nordestinos.

Um detalhe. A Folha de S. Paulo divulgou nesta terça-feira (7/10) estudo do Banco Central sobre o crescimento do Nordeste. No segundo trimestre deste ano, a região cresceu 2,55% em relação ao primeiro trimestre - que já havia crescido 2,12%. Nenhuma outra região do país tem crescido tanto nos últimos tempos.

Ao contrário de outras regiões do Brasil, o Nordeste vive fase de desenvolvimento. Então não dá para atribuir a opção eleitoral do nordestino pelo PT e por Dilma exclusivamente ao voto do "desinformado e pobre" e aos dependentes do Bolsa Família. A opção pelo PT pode vir da sensação de bem-estar sentida hoje pela população e eleitores do Nordeste.

Além de preconceituoso, os ataques contra os nordestinos e os pobres por votarem em Dilma e no PT são estúpidos por não levarem em consideração a realidade econômica e social do Nordeste.

Texto publicado originalmente no blog noBalacobaco.

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