OPINIÃO

Atos e comportamentos de intolerância, preconceito e violência assustam o Brasil e afetam imagem do país

14/02/2014 09:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Reprodução

O cantor e compositor Cazuza fez uma música bela, dura e reveladora, chamada "Brasil". Falava, embora de forma poética, sobre um Brasil que o assustava.

"Brasil! Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim/Brasil!/Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/Confia em mim" -- este é um dos trechos mais fortes de "Brasil", de Cazuza.

Nos últimos dias, parte deste mesmo Brasil tem tido reações que deixariam Cazuza, que morreu em 1990, de Aids, de cabelo em pé -- e com muita vergonha do Brasil que se comporta de forma preconceituosa.

O Brasil de 2014, 24 anos após a morte de Cazuza, que era homossexual assumido, é o Brasil da intolerância e do preconceito -- social, racial e de orientação sexual. Tudo o que Cazuza sempre abominou não só em "Brasil", como em outras músicas.

Vejam os casos mais marcantes de intolerâncias e preconceitos mais recentemente que assustaram o Brasil mais recentemente -- ou pelo menos parte do Brasil que pensa de forma mais civilizada. Foram atos que causam enormes danos à imagem interna e externa do país.

1) Um jovem homossexual foi perseguido e morto no centro de São Paulo por um grupo de skatistas. O jovem foi atacado a golpes de skate. Foi encontrado morto, com o rosto desfigurado. Os assassinos foram presos, depois que as imagens do crime foram reveladas por câmeras de videos.

2) Uma professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio expôs em sua página do Facebook fotos de um homem mal vestido que estava ao seu lado, em um aeroporto do Rio. "Aeroporto ou rodoviária?", postou a professora. Depois, a professora fez outros comentários preconceituosos contra o homem, que foi compartilhado por outros professores unviersiatários que faziam parte da sua rede do Facebook, entre eles o reitor de uma universidade federal do Rio.

3) Durante uma manifestação contra aumento de passagens de ônibus, no Rio, integrantes do grupo radical que participa manifestações públicas, conhecido por Black Blocs, acionaram um rojão contra a nuca de um cinegrafista da TV Bandeirantes. Após alguns dias em coma, o cinegrafista morreu. Dois black blocs responsáveis pelo crime estão presos. A reação do Brasil que pensa foi enorme.

4) Um jovem negro (foto acima) foi duramente espancado e amarrado nu em um poste no bairro do Flamengo, no Rio. Os responsáveis foram "justiceiros" brancos e de classe média que acusaram o jovem de praticar roubos no bairro. Os que pensam foram contra, mas muita gente defendeu a barbárie, entre elas a apresentadora de um jornal do canal de TV SBT.

5) O Conselho Federal de Medicina, que sempre foi contra a vinda de médicos de Cuba para o Mais Médicos -- que leva assistência médica a locais em que médicos brasileiros não querem trabalhar -- está estimulando médicos cubanos a abandonarem o programa em troca de empregos. Isso porque uma médica cubana se asilou na bancada do DEM, no Congresso Nacional, um dos partidos mais reacionários do país, e quer ir para Miami (EUA), onde mora seu namorado. A direita brasileira brasileira fez disso uma bandeira contra o Mais Médicos, do governo federal, que tem o apoio de 80% da população do país.

6) Na Bahia, um outro jovem negro e pobre foi preso porque, sem dinheiro para comprar seus livros escolares, entrou numa livraria e roubou três livros. Até o início desta semana, o jovem continuava preso porque sua família não tinha dinheiro para pagar a fiança e tirá-lo da cadeia. Uma falha enorme do Estado brasileiro -- mais precisamente no Poder Judiciário.

7) Shoppings finos de São Paulo -- e de outras cidades brasileiras -- se levantaram contra os chamados "rolezinhos", movimento formado por jovens da periferia que queriam apenas se divertir nos centros de compra da granfinagem brasileira. Houve shoppings que conseguiram liminares na Justiça para que os jovens pobres -- e negros -- não entrassem em seus ambientes refinados.

8) Jornais noticiaram que uma loja da marca Havaianas de um shopping fino de São Paulo barrou um trabalhador que queria comprar uma sandália. Motivo: o trabalhador usava nos pés, advinhem, um par de sandálias Havaianas. Mas a atendente entendeu que o cliente usava "sandálias de pedreiro". Na verdade, o motivo da reação foi porque o cliente era pobre e estava malvestido.

9) O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, negou pedido de uma advogada cega que queria ter ter acesso a processos judiciais escritos e não digitais. Revoltada, a advogada disse que o cego era Barbosa, e apelou ao presidente substituto do STF, Ricardo Lewandowski -- Barbosa estava de férias na Europa --, que atendeu o pedido da advogada. Jornais dizem que, contrariado com a decisão do colega, Barbosa chamou Lewandowski de "populista".

Pelo que se pode perceber, o Brasil -- ou pelo menos parte dele -- está calibrando cada vez mais suas armas letais do preconceito contra pobres, negros, homossexuais e estrangeiros -- como é o caso dos médicos cubanos que, por serem negros, já foram chamados de "escravos" por médicas brasileiras.

Por isso, "Brasil", do Cazuza, continua atualizadíssima. Um dos trechos de "Brasil":

"Não me convidaram/Pra esta festa pobre/Que os homens armaram/Pra me convencer/A pagar sem ver/Toda essa droga/Que já vem malhada/Antes de eu nascer/Não me ofereceram/Nem um cigarro/Fiquei na porta/Estacionando os carros/Não me elegeram/Chefe de nada/O meu cartão de crédito/É uma navalha/Brasil! Mostra tua cara."

(Texto originalmente publicado no blog noBalacobaco)