OPINIÃO

Foie gras: quanta crueldade você pode engolir?

10/07/2015 15:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02
Pascal Parrot via Getty Images
MONT-DE-MARSAN, FRANCE - OCTOBER 27: A farmer forcefeeds grain to a duck, October 27, 2005 as part of the process to fatten its liver for foie gras in Southern France. With more instances of avian flu being discovered in European countries, the threat to poultry farmers livliehoods is becoming ever greater, prompting an edict forcing farmers in some areas of France to bring all free range birds under cover. (Photo by Pascal Parrot/Getty Images)

A vitoriosa sanção da lei que proíbe a comercialização do patê de fígado gordo, o foie gras, na cidade de São Paulo, como era de se esperar, suscitou a revolta de alguns renomados chefs de cozinha e de outros admiradores dessa cruel iguaria.

Foi nesse contexto, de tamanha indelicadeza, que o prefeito Fernando Haddad foi xingado de "asno" e houve também a tentativa de banalizar a sanção, reduzindo-a a uma vitória quase pessoal de entidades de proteção animal, em detrimento das quase 100 mil pessoas que demonstraram seu apoio à proibição em uma petição online. Os que criticaram também ignoraram o desejo popular claramente manifestado pela Câmara de Vereadores de São Paulo, que aprovou por unanimidade o projeto de lei.

Alguns já falam que não deixarão de consumir o patê, que já teve sua produção banida em pelo menos 15 países - tais como Israel, Alemanha, Dinamarca, Itália e Suíça. Outros afirmam que estão dispostos a ir atrás de um suposto mercado negro, que já estaria prestes a se formar devido à recente proibição na capital paulista. Paro e ponho-me a pensar sobre como algumas pessoas conseguem naturalizar e aceitar um ato extremamente cruel, covarde e até mesmo, digamos, de sanidade questionável - já que o foie gras pode ser oriundo de um fígado com a patologia esteatose hepática, ou seja: está 'doente'. A esses eu pergunto: quanta crueldade você pode engolir?

Acredito que apenas uma parcela bastante insignificante da população brasileira já teve a oportunidade de aceitar ou de refutar tal produto de valor exorbitante. Mas também acredito que se esclarecida sobre o método de produção aos quais aves são submetidas na produção do foie gras, a maioria dos brasileiros não ousaria ingerí-lo. Para a obtenção desse tipo de patê, patos e gansos são alimentados com uma pasta gordurosa introduzida em longas e grossas cânulas que são enfiadas em seus bicos e forçadas através de seus longos pescoços até seus estômagos. Essa 'dieta' faz com que haja infiltração de gordura no fígado desses animais, que chega a atingir um tamanho até dez vezes maior que o natural, sendo o próprio fígado dilatado o produto final.

Orgulho-me por acreditar que conseguimos, sim, que a vontade da maioria daqueles que se manifestaram fosse ouvida e acatada pelo prefeito Fernando Haddad. A ele dedicamos nossa gratidão e admiração pelo grande ato de compaixão com os animais, que, como nós, são seres sencientes, ou seja: capazes de sentir dor, medo, tristeza e felicidade.

Não estamos, de forma alguma, em uma guerra particular contra os chefs de cozinha. Nosso intuito é extremamente claro: clamamos pela eliminação de métodos extremamente abusivos e imorais na indústria de produtos de origem animal. Aos melhores chefs, cabe a arte de criar e reinventar. Com uma sorte tão grande de variedades e possibilidades, não parece adequada tamanha frustração. Ainda que seja um prato sofisticado - e na mesma proporção, convenhamos, fútil e cruel - a sua exclusão das cartas dos restaurantes frustrará apenas a banal vontade de poucos que certamente sobreviverão a este revés.

E em relação ao foie gras: au revoir! São Paulo é só o começo. Este movimento já está sendo replicado em outros municípios brasileiros e, com toda certeza, tem potencial para atingir nível federal em um futuro próximo.