OPINIÃO

O sírio Monzir e a reunião familiar adiada pelo acordo UE-Turquia

06/04/2016 18:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Acnur/H.Holland

Começaram nesta segunda-feira (4) os retornos para a Turquia e os primeiros reassentamentos de sírios que chegaram a Grécia após 20 março. A história do sírio Monzir ilustra o drama que é uma preocupação para o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Acnur.

O ex-policial chegou à ilha de Lesbos no primeiro dia em que o pacto começou a ser aplicado e está preso no local. O barco de borracha que levada Monzir e outras pessoas chegou a terras gregas três horas depois do acordo entre a União Europeia e a Turquia entrar em vigor.

Memórias de Bombas

Monzir está distante da mulher, da filha e de um dos filhos, que agora vivem num acampamento de refugiados sírios na Alemanha. No colo, ele carrega um outro filho e tem vivas as memórias de bombas que caiam dos céus da vila síria de Ariha.

Suas lembranças vão desde os estilhaços que abalaram a casa do irmão, aos escombros da escola do filho e de grande parte do seu bairro.

O ex-policial viveu com a família num buraco de três metros de profundidade. A saída à superfície era só por uma hora por dia para comer e cozinhar. Uma cicatriz causada por um estilhaço marca seu olho direito.

Caminhada

Imagens mostradas no Facebook e na TV de milícias que estariam decapitando crianças levaram Monzir a seguir para o nordeste em direção à fronteira turca. Ele pagou US$ 1 mil ao primeiro contrabandista, que ajudou a família na rota de seis horas de caminhada pelas montanhas.

"Vão ficar e arriscar-se a morrer ou continuar a andar? Claro que andavam", descreveu ao Acnur como motivava o grupo. O trajeto foi a pé de Antaky, no sul da Turquia, para a cidade costeira de Izmir.

Depois, ele teve que desembolsar € 1,2 mil por cada integrante da família para pagar um barco para Lesbos, onde chegou para ser preso depois de uma viagem na escuridão da noite.

"Nós deveríamos nos encontrar na Grécia ou em outro país europeu", disse Monzir. "Eu não quero nada mais senão reunir-me com meus filhos", disse. A expectativa do Acnur é que eles se revejam na Alemanha, de acordo com a legislação da UE.

Viver em paz

O refugiado desabafa: "na Síria, eu era um prisioneiro de guerra. Escapei para ser livre, mas agora, de novo, estou na cadeia. Mesmo que me deem uma tenda em uma montanha, eu só quero viver em paz e com os meus filhos. "

OAcnur reiterou que não faz parte do acordo. O entendimento UE-Turquia alcançado em março tenta conter o número de refugiados que vão para a costa europeia, que aumentou mais de 17 vezes em comparação com o mesmo período em 2015.

A agência da ONU sustenta que para ser coerente com os refugiados, com os direitos humanos, o direito internacional e europeu, devem ser claramente salvaguardadas as garantias de proteção.

Pedidos

O apelo é que a medida seja observada tanto na Grécia, onde devem ser avaliados os pedidos individuais de asilo, como na Turquia.

No primeiro dia da medida, a Alemanha e a Finlândia instalaram um total de 43 refugiados sírios em seus territórios. Segundo a Comissão Europeia, terça-feira marca a chegada de mais refugiados à Holanda.

O executivo europeu anunciou que até agora os retornos das ilhas gregas para a Turquia "respeitaram integralmente" as leis.

O Acnur defende que a Grécia está mal preparada e mal equipada para lidar com a situação e opõe-se à detenção obrigatória dos candidatos a asilo.

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