OPINIÃO

A jornada pela representatividade

Um passo é diminuir a lacuna entre as exigências do mundo corporativo e a qualificação e empregabilidade de jovens negros.

09/11/2017 16:34 -02 | Atualizado 09/11/2017 16:34 -02
Getty Images
Discutir a diversidade racial não é uma questão dos negros, mas uma questão social.

Há 15 anos, trabalho em uma multinacional que defende a diversidade há décadas. Para nós, a diversidade transcende raça, credo, gênero ou orientação sexual, sendo uma questão de liberdade de opinião e de pensamento.

Entendemos que nosso ambiente corporativo precisa refletir o mundo mais justo que estamos nos tornando e não o mundo que a sociedade precisa deixar para trás. Nos perguntamos o tempo todo: o quão sérios somos sobre fazer a diferença? E dessa forma procuramos ser mais colaborativos e, sobretudo, abertos a ouvir tanto pessoas quanto outras empresas.

Dado que diversidade é o que temos e inclusão é o que fazemos, analisamos o tempo todo nossas ações e comportamentos. Sabemos que muitas vezes é preciso tratar desigualmente os desiguais para que possamos diminuir as distâncias. Ou seja, entender que as pessoas partem de pontos diferentes na jornada social.

Assim, buscamos um ambiente diverso no qual as pessoas possam ser elas mesmas. Quando isso acontece, os funcionários trabalham mais felizes, são mais inovadores e trazem mais resultados para a própria empresa.

Todas as pesquisas globais mostram que, quanto mais diverso é um time, melhores são as tomadas de decisão. Ou seja, a diversidade é boa, e pessoas diferentes juntas criam fagulhas criativas.

A má notícia é que sei que tenho a oportunidade de estar em um ambiente que não é a regra. A realidade dos negros no mercado de trabalho é bem diferente. Embora 54% da população brasileira seja composta por negros, essa porcentagem não está representada dentro das escolas, faculdades e, claro, empresas.

E, quando pensamos em cargos de liderança, a falta de representatividade e proporcionalidade é ainda maior. Apenas 5,3% dos executivos são homens negros e 0,5% representam mulheres negras. Então me pergunto: onde está nossa cor?

Ao olharmos para a História do nosso pais, percebemos por que as coisas são como são, por que pessoas negras têm menos oportunidades. E por que discutir a diversidade racial não é uma questão dos negros, mas uma questão social. A empatia é fundamental nesse processo. Para falar de diversidade, é preciso atravessar ponte, entender e se colocar no lugar do outro.

Diante desses questionamentos, eu sentia necessidade de contribuir de forma mais ativa na questão da diversidade racial dentro e fora do meu ambiente profissional. Felizmente outras pessoas se sentiam da mesma forma e assim surgiu a necessidade de uma rede que discutisse o tema dos negros dentro e fora da companhia.

Quando recebi o convite para liderar esse novo grupo, aceitei imediatamente porque era a possibilidade concreta de retornar à sociedade todas as oportunidades que tive ao longo da minha jornada. Era o momento de ajudar aqueles que não tiveram as mesmas chances e que não têm a vantagem de vivenciarem ambientes onde a diversidade é valorizada.

Hoje, somos um grupo de profissionais voluntários que busca a capacitação e o desenvolvimento do público negro, aumentando seu potencial de carreira. Apoiados pela política de diversidade da empresa, buscamos promover a equidade entre etnias e estimulamos o diálogo constante, explorando oportunidades de mentoring e compartilhando experiências com colegas e pares.

Mas sabemos que só avançaremos de fato se colaborarmos para que a equidade de raça seja fomentada em toda a sociedade por meio de ações efetivas e parcerias estratégicas. Para isso, estabelecemos uma parceria com a Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo (SP).

Lá, nossos funcionários voluntários dão periodicamente aulas de informática e de raciocínios lógicos aos jovens. E, a partir do ano que vem, vamos iniciar um programa de mentoring voltado aos alunos com o objetivo de ajudá-los em processos seletivos. Assim, tentamos diminuir a lacuna entre as exigências do mundo corporativo e a qualificação e empregabilidade desses jovens.

Além disso, estamos nos conectando a empresas que, assim como nós, tenham a diversidade como valor fundamental e que, por isso, buscam o mesmo objetivo para que possamos compartilhar e compilar boas práticas. Compartilhando conhecimento com outras empresas que estão no início de sua jornada inclusiva, poderemos multiplicar essas ações para aumentar a população de negros nas empresas.

Há um ano e meio focando nesse propósito de diversidade racial, sei que ainda estamos no começo dessa trajetória, mas o diálogo e a aceitação que temos encontrado nos diversos públicos, sejam representantes da comunidade negra, instituições, universidades e empresas, nos deixa otimistas de que estamos no caminho de uma sociedade mais equilibrada e de maior justiça social.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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