OPINIÃO

O fazedor de mulheres

29/02/2016 22:53 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Guilherme de Faria

Flanar pela cidade e descobrir coisas legais por acaso é o esporte preferido do nosso tempo, o que explica, em parte, o fato de que você não anda dois quarteirões ou lê duas páginas sem tropeçar em "curadores" ou, se preferir, "cool hunters".

O acaso só favorece cabeças cultivadas neste espírito de serendipidade, palavra que define um agudo senso de observação e a habilidade de fazer descobertas inesperadamente.

Se o acaso te apresenta uma coisa, o que você faz com ela?

Gosto de litogravuras de artistas brasileiros, estou sempre atento a elas. Comprei uma recentemente. Uma mulher em cena clássica de boudoir, em frente ao espelho, espaldas delicadas, assinada por alguém que a vendedora informa ser Guilherme de Faria, 1975, duzentos reais.

Segui direto à casa - moro a um quarteirão da praça Benedito Calixto, em São Paulo, onde se faz aos sábados uma alegre feira de antiguidades - para olhar longamente a imagem.

A qualquer um ocorreria fazer uma pesquisa no Google Images, maravilha do mundo moderno que acaba te levando não só ao conjunto de reproduções digitais atribuídas ao suposto autor como também à sua página do Facebook e outras intimidades.

Pedi então ao Guilherme de Faria que aceitasse minha ~solicitação de amizade~, perguntei se aquela era de fato uma gravura de sua lavra e logrei conquistar a honra de que me recebesse em sua casa para falar sobre aquela mulher. O negócio foi bom, disse-me no messenger, você comprou uma peça rara, não a venderia por menos de dois mil.

Quando pela primeira vez vim morar na cidade, no começo da década de 90, foi para habitar um pequeno apartamento no edifício Palma D'Oro, na esquina das ruas Oscar Freire e Haddock Lobo. Este é o endereço de Guilherme de Faria desde 1979. Fomos vizinhos, sem saber. É uma boa coincidência.

Eis que estou novamente pela primeira vez em vinte e cinco anos dentro do mesmíssimo elevador, em segundos farei uma saudação ao avistar o homem de barba e cabelos brancos, ereto em seus 73 anos de uma vida de sexo, álcool e rock'n roll, não exatamente nesta ordem de intensidade.

O fato é que já estou nos domínios do artista que acaba de postar no Facebook uma pintura a óleo feita na década de 50, pertencente ao acervo da Pinacoteca do Estado, duas caveiras assustadoramente pesadas.

Miséria negra

Ele odeia os playboys do Mackenzie e deixa o curso de arquitetura pela metade. Paulistano de modesta classe média, sai de casa e decide pagar o preço de ser outsider. É a época em que conhece o maldito Roberto Piva e o séquito de jovens arrebatados pelo magnetismo intelectual do poeta. Pouco mais tarde, despreza a oportunidade de trabalhar nas agências de publicidade de Licínio de Almeida, Petit e Zaragoza.

Guilherme me contou uma história de paixão infantil. Havia no bairro de Cerqueira Cesar, onde morava, uma menina ruiva, filha de pais americanos, por quem nutria uma paixão platônica.

"Os meninos sempre foram muito desinteressantes, nunca gostei do cafajestismo que permeava as conversas deles. As meninas eram superiores, se moviam de maneira superior na graciosidade de suas brincadeiras de rua e, entre elas, havia uma especial. Tudo o que ela fazia era melhor, seus patins, sua desenvoltura, foi a primeira garota que vi usando uma calça jeans, uma visão da perfeição. Perdemos contato, mas sua imagem nunca saiu da minha cabeça".

Os primeiros anos, no fim da década de 50, foram de "miséria negra num porão infecto e mal iluminado". Desenhava com nanquim e, sobretudo, consumia quantidades industriais de álcool barato para segurar a onda.

Esta primeira obra reflete um espírito torturado, cheio de revolta juvenil, figuras femininas, pulsões sexuais e simpatia pelo subterrâneo.

Prolífico, desenhava compulsivamente. Bebia com jornalistas do Estadão no centro da cidade, maravilhado com a sabedoria daqueles homens, não demorou para que começasse a fazer ilustrações para o antológico Suplemento Literário do jornal. O traço amadureceu rapidamente e o acaso entrou em ação.

Se o acaso te dá uma coisa, o que você faz com ela?

A mãe de um amigo trabalhava na galeria Selearte, na rua Augusta, e o convidou para uma visita. Lá chegando presencia um homem enérgico dando um esporro na mulher em prantos: era o dono, o italiano Giuseppe Baccaro, marchand que acabara de chegar à cidade e que viria a ser um dos maiores promotores das artes plásticas em São Paulo.

Baccaro reclamava que os quadros que logo entrariam em leilão não tinham sido restaurados. Na mesma hora, sem nunca ter restaurado uma xícara sequer, Guilherme se candidatou a fazê-lo graciosamente e caiu nos encantos do homem.

Baccaro resgatou modernistas, fez exposições de Mira Schendel (1919-1988) e Rossi Osir (1890-1959). Na época, os leilões dominavam o mercado da arte paulistana. Em 1965, abriu a Casa de Leilões e, assim, ocupou um espaço que antes era quase exclusivo dos leilões beneficentes do Hospital Albert Einstein. Guilherme sacou que a única maneira de ascender seria ter seus trabalhos nos leilões do italiano.

E assim foi. Um dia, faminto e duro, pediu dinheiro emprestado a Baccaro sob a condição de saldar a dívida com seus desenhos. Trezentos deles. Baccaro assentiu e logo o jovem Guilherme, que ninguém conhecia, era vendido nos leilões entre Bonadeis e Volpis.

Guilherme de Faria virou um clássico antes dos vinte e poucos anos, com acolhida de críticos influentes como Carlos von Schmidt (1930 - 2010), José Geraldo Vieira (1897 - 1977) e Livio Abramo (1903 - 1993).

Guilherme lembra a decepção de um colecionador, "cabelo penteadíssimo, figurão cara de rico", quando soube que o autor do quadro que ocupava a melhor parede de sua mansão nos Jardins em nada se parecia com um velho mestre das artes.

"O cara, incrédulo, me colocou dentro de um carrão com chofer para que eu fosse até a casa dele confirmar a autoria".

Best-seller

A partir da década de 60 a arte pop americana passou a ter grande influência na arte contemporânea e a gráfica Gemini G.E.L, do mestre gravador Ken Tyler, teve papel central na disseminação das técnicas da gravura moderna. Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein, Willem de Kooning, Claes Oldenburg e Ed Ruscha estão entre os artistas publicados pela Gemini.

No começo da década de 70, os brasileiros Elsio Motta e Otávio Pereira trouxeram o savoir faire da Gemini ao país quando estabeleceram o atelier Glatt & Ymagos e, ao longo de vinte anos, promoveram um verdadeiro surto da litografia no Brasil.

Guilherme de Faria é o artista brasileiro que mais imprimiu gravuras em território nacional, de 1974 a 1995.

Muito mais do que Gruber, Gershman, Granato, Maria Bonomi, Aldemir Martins e quase todos os grandes nomes da gravura brasileira -- exceto Marcelo Grassmann -- editados pelo atelier. São mais de mil imagens diferentes, desenhadas diretamente na matriz de pedra, com tiragens médias de cem exemplares, o que perfaz um total estimado em 100 mil gravuras que passaram a ser vendidas em galerias, moldurarias e até lojas de departamento.

A maior parte delas mostra mulheres nuas, lânguidas, silhuetas definidas em um único traço. São mulheres passivas com rostos esvaziados de expressão, invariavelmente oferecendo a intimidade dos corpos em seus quartos.

Há um clima de decadentismo permeando as melhores, feitas em meados da década de 70, em preto e branco, finalizadas com pincel e lavis (touche de água). Há um kitsch desconcertante nas piores, coloridas, impressas na década de 80 -- se você tem mais de 40 anos deve ter visto alguma delas em quartos de motel.

"De repente me transformei no rei das gravuras de motéis no país". A essa altura, Guilherme decidira, não por acaso, rifar o prestígio angariado com os desenhos da primeira fase para, enfim, ganhar algum dinheiro.

Foi nesta época que pôde comprar o apartamento da Oscar Freire e colocar os filhos em boas escolas. "Os donos da Glatt & Ymagos diziam que comigo faturaram alto". Esta escolha definiu a carreira do artista.

Ao final da década de 90 o mercado brasileiro de gravuras declinou. A gravura, que sempre foi uma alternativa para colecionadores que não podiam investir em pinturas a óleo, passou a concorrer com os pôsteres em off-set dos museus do mundo todo e, claro, com um sem-número de imagens, colagens e mashups de artistas nascidos sob a égide da internet.

Tudo isso teve um impacto decisivo na vida de Guilherme de Faria e outros artistas brasileiros.

Maturidade

Eis que estou novamente, pela primeira vez em vinte e cinco anos, dentro do mesmíssimo elevador, e no momento em que cumprimento o homem de barba e cabelos brancos, ereto em seus 73 anos de uma vida intensa de sexo, álcool e rock'n roll, não sei exatamente quem vou encontrar: será um homem mundano, afiado, transgressor e sofisticado sentado em cima de um respeitável repertório da Erotica universal ou um artista desarticulado quando fala da sua arte?

Não é nem de longe um intuitivo. Conhece bem a arte americana, discorre fluidamente sobre Andrew Wyeth e Whistler, a sala está abarrotada de livros de arte e não há muito espaço para caminhar. Ele me serve água de coco. Tem a exata dimensão do que é piegas, do que está corretamente dentro do bom-gostismo e do que é simplesmente cafona.

Mas, em sua obra, fez concessões mercadológicas estudadas -- e perturbadoras. Quando o assunto é literatura, embora tenha lido cânones, a mesma lógica não se aplica.

A partir da década de 80 desenvolveu um grande interesse pela literatura de ficção -- que exercita na internet, tendo passado pelo deslumbramento inicial propiciado pelo anonimato na rede, escrevendo sob proteção do pseudônimo Alma Welt, uma personagem feminina, espécie de anagrama para Anima Mundi, a força vital. Gosta de nomes como Marga, Leotácia, Lavínia e de um certo psicanalismo, o que indica o registro temporal de tudo o que faz.

Sua produção pictórica recente, que vende pela internet, se resume a telas de paisagens um tanto para o fauve, em alguns casos contendo uma estética esotérica e, não raro, com a presença da ruiva Alma Welt, a personagem dos livros que escreve em poesia e prosa e que até o presente momento aguardam a publicação por uma editora.

Alma escreve poemas e pensamentos, é uma gaúcha de hábitos liberais, dona de uma estância nos rincões do Rio Grande do Sul, cavalga nua e se vê em situações de lesbianismo soft como as da clássica Emmanuelle.

Guilherme é o que se pode chamar de um homme a femme. A lolita ruiva dos patins da infância que ele me descreveu vivamente o procurou décadas depois, casada e com filhos adultos; meses depois, se matou com um revólver na frente da filha. Foi uma barra. Guilherme não consegue esconder a emoção quando fala do assunto. Assim como, muitas vezes, generosamente, emocionou-se ao falar da vida pessoal.

O artista é pai do escritor Santiago Nazarian, autor de romances de títulos legais como Mastigando Humanos e Pornofantasma, e do ator Tamayo Nazarian, frutos do casamento com a escritora Elisa Nazarian.

Ao todo, são sete casamentos: ao término de cada um, as mulheres levaram consigo uma parte da obra, o que torna difícil catalogar seus trabalhos. É tio do Rafael Cortez, violonista e ex-apresentador do CQC, de quem parece gostar muito. "O Rafael recentemente comprou muitos óleos meus para decorar o apartamento".

O acaso me deu uma coisa e resolvi transformá-la em uma das muitas histórias possíveis sobre este adorável artista brasileiro.

Nas semanas que se seguiram ao nosso encontro venho acompanhando a publicação, em posts sucessivos no Facebook, de seus manifestos anti-PT e aquilo que pode vir a ser o projeto de uma autobiografia. Poderia começar com este:

"Em 1980 eu estava no auge do sucesso em minha carreira iniciada em 1962, ganhando muito dinheiro. Mas, sendo um bebedor e fumante inveterado desde os 14, tinha, subjetiva e emocionalmente, chegado ao fundo do poço.

Entretanto, sentindo a loucura se aproximar, recusei uma gloriosa pecha de "maldito" que já se delineava num breve futuro e renunciei à vertiginosa autodestruição que provavelmente me celebraria como mais um jovem herói ou mártir da arte da minha geração.

Tendo visto de perto "a goela do lobo", apavorado, parei subitamente de beber e fumar, e numa súbita espécie de iluminação abandonei toda a boemia que tanto me seduzia desde adolescência. Passei a viver desde abril de 1981 uma vidinha pacata, sem festas, libações nem delírios, e descobri que não precisava de nada, nenhuma gota, nada de paraísos artificiais para continuar criando.

A vida ficou muito melhor, todos os conflitos íntimos da minha louca juventude cessaram ou foram me deixando e a roda do amadurecimento, estacionada desde os 14, recomeçou com atraso a girar lentamente. Agora, emocionalmente devo estar com uns 30 e minha imaturidade passa quase despercebida".

LEIA MAIS:

- Primórdios da hipsterlândia

- Melhor experiência "artística" na Bienal teria sido pegar piolhos

Também no HuffPost Brasil:

Artista Guilherme de Faria

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: