OPINIÃO

No ensaio de Entredentes, com Gerald Thomas

24/03/2014 16:33 BRT | Atualizado 26/01/2017 21:16 BRST
Divulgação

A portuguesa eletrônica do GPS anuncia a chegada e estaciono em frente ao galpão na rua Barra Funda, atmosfera pós-industrial, um tanto para o decadente, com espessos fios negros pendendo dos postes de luz. No caminho, pensava em quando tinha visto Ney Latorraca e Gerald Thomas juntos da última vez.

Muito longe, talvez nunca juntos, havia Gerald Thomas (GT, doravante) fumando Gitanes dezenove anos atrás com cabelos acobreados no foyer do TUCA, na estreia de Don Juan, texto de Otávio Frias Filho; Ney talvez estivesse na coxia se preparando para entrar em cena naquela peça que tinha também Fernanda Torres.

Pensava em quando o teatro deixara de ser a tribuna para discussões nacionais, que tipo de gente vai ao teatro, qual foi a última peça a que os meus amigos do Facebook assistiram, será que amigos do FB vão ao teatro, Nelson Rodrigues talvez pudesse se adaptar à lógica telegráfica do Twitter mas jamais os representantes de um certo teatro político. Ainda temos representantes vivos desta linhagem?

Estou tocando o interfone e em segundos estarei dentro dos domínios provisórios de GT, sua equipe de produção e os atores Ney Latorraca, Edi Botelho e Maria de Lima. Eles estão terminando a primeira passagem do texto, não saberei bem o que está acontecendo até o diretor me apresentar gentilmente a todos, com reverência imerecida; logo retomarão o texto do início.

Mas vamos começar pelo fim: GT me diz que esta é sua última peça e não entendo muito bem se é a última em terras brasileiras ou se ensaia uma aposentadoria global. Questão complexa para ser tratada neste mister. O fato é que o autor muitas vezes escreve textos para seus atores. Exclusivamente. Com invulgar tirocínio, identificou e ajudou a consagrar muitos nos últimos 30 anos.

GT tornou-se sinônimo de inovação (a palavra odiosa) nas décadas de 80 e 90 e influenciou decisivamente gente boa da nova geração. Dirigiu no exterior uma míriade de trabalhos, entre os quais Beckett Trilogy, com Julian Beck (já muito doente, em 1985, ano de sua morte) e no Brasil é invariavelmente lembrado pelas antológicas The Flash and Crash Days (1991), escrita para as Fernandas, mãe e filha, O Império das Meias Verdades, Unglauber e Um Circo de Rins e Fígados (2005), para Marco Nanini.

Esta Entredentes, que estreia em 10 de abril, no Sesc Consolação, foi escrito para três artistas consagrados.

Por certo não devo me alongar na apresentação de Ney Latorraca. É um ser mitológico que paira economicamente no espaço que ora se transformou na célula criativa mais absolutamente improvável e genial da cidade, de repente estou a cinco metros de um homem que tem completa consciência de seu corpo maduro, íntegro, sobrevivente de uma longa enfermidade, cabelos branquíssimos, intacto o senso de humor que você conhece bem.

Edi Botelho é o ator que mais trabalhou com GT, eles se conhecem desde a época da Cia Opera Seca, na década de 80. Trabalhou também com Aderbal Freire Filho e Miguel Falabella (para quem, aliás, sobrará farpas, en passant). Maria de Lima, a portuguesa muscular e energética, tem mais de 20 anos de atuação planetária em teatro e TV, já havia trabalhado com GT em "Gargólios" (2011).

A maneira mais simples de explicar Entredentes é dada pelo próprio autor: "Um islâmico radical e um judeu ortodoxo se encontram no Muro das Lamentações, em Jerusalém, e tudo começa". Não quero tirar conclusões a partir da audiência de um trabalho em evolução, mas aparentemente o texto busca ao mesmo tempo aprisionar o espírito do tempo (tecnologia, fundamentalismos, geopolítica, Brasil, cosmopolitismo, mídia) e dar vazão a obsessões e ironias (Chico Xavier, Wittgenstein, Deleuze, Pirandello, Síria, Ucrânia, Corumbá, Piracicaba, a "torcida gay radical do Flamengo") num registro que é, alternadamente, comédia e comentário. Às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

Mas aí Ney canta Chão de Estrelas, de Silvio Caldas, e você percebe que há mais, muito mais:

"Minha vida era um palco iluminado

Eu vivia vestido de dourado

Palhaço das perdidas ilusões

Cheio dos guizos falsos da alegria

Andei cantando a minha fantasia

Entre as palmas febris dos corações."

Latorraca interpreta Latorraca, o espetáculo é também um tributo, ele se diverte e não precisa fazer muito esforço para fazer rir. A entrega do texto é competente, entende e incorpora a verve de GT, inclusive maneirismos dadaistas como as repetições ad infinitum de expressões que acabam perdendo o sentido original para se tornarem bordões, quase mantras, "It's amazing, it's amazing, it's amazing", tenho certeza de que você vai deixar o teatro com isso ecoando na cabeça, uma última vez, it's amazing.

Serviço

Entredentes, de Gerald Thomas

Elenco: Ney Latorraca, Edi Botelho e Maria de Lima

Local: SESC Consolação. Rua Doutor Vila Nova 245, Vila Buarque

Informações: 55 (11) 3258-3830

Capacidade de público: 280 lugares

Estreia (para convidados): 10 de abril, quinta-feira, às 21h

De 10 de abril a 11 de maio. Sextas e sábados às 21h e domingos às 18h

Importante: no dia 18/4 não haverá apresentação do espetáculo.