OPINIÃO

Capinhas de celular

20/03/2014 10:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Os descolados já guindaram o Uruguai de Mujica e seu estilo less is more aos píncaros da vanguarda. Eu me preocupo com o Paraguai.

Falar do Paraguai para chegar ao que interessa: enquanto me esforço para inventar novos modelos de negócio e criar a start-up que vai escalar, esmagar e instaurar uma nova necessidade de consumo, os cururus da economia real compram capinhas piratas de celular com sofreguidão.

Não há entendimento claro entre historiadores sobre o saldo da Guerra do Paraguai, finda há 144 anos. Durante o regime militar, eles nos contavam na escola a versão que glorifica a vitória brasileira.

Depois, autores marxistas revisaram a história oficial, reabilitando a figura do ditador Solano Lopez como um líder antiimperialista e dizendo que o Brasil agiu a mando da Inglaterra.

Mais tarde, soubemos que Lopez não tinha propósitos assim tão nobres e que a guerra teria sido motivada muito mais por questões regionais do que por força do Império Britânico. A Inglaterra, pelo contrário, teria tentado mediar a paz.

Mas há um consenso sobre o fato de que nossos militares, talvez por inépcia do almirante Tamandaré, prolongaram a batalha muito além do razoável, desencadeando milhares de mortes.

Ou seja, matamos paraguaios a dar com pau e este é um fato que pode ter definido a falta de vocação daquele país para qualquer coisa, até hoje. O país transformou-se numa terra de ninguém, sem indústria, sem política fiscal, sem nada. Continuamos vendo o Paraguai como uma insignificância.

Na década de 80, economia fechada à concorrência dos importados, havia contrabandistas "de confiança". Forneciam uísque, lança-perfume, cosméticos, chocolate suíço e outros "supérfluos" à classe média. E coisas de qualidade desprezível Made in China.

Notável como a China melhorou na arte de copiar e reproduzir nos últimos vinte anos. Hoje a gente manda imprimir livros de arte lá e acompanha o processo pelo Skype.

Temos uma dívida com o Paraguai e este débito, de certa forma, nos iguala. Os paraguaios contaminaram o sangue da classe média brasileira com o irrefreável desejo de consumir coisas inúteis e "importadas".

Na Avenida Paulista há uma mini Ciudad del Este.

O Paulista Center, no número 1217, é uma galeria dominada por asiáticos e frequentada por indivíduos que consomem capinhas de celulares, milhares, sortidas, desenfreadamente. Para os adolescentes, a capinha é a nova camiseta: ela explica quem você é.

O vendedor de DVD pirata tem programa de fidelidade. Trocam-se vidros de iPhone e iPad em ritmo alucinante. A palavra que você mais ouve nos corredores é "réplica", uma maneira interessante de explicar que o produto não é original, mas é cópia perfeita de Louis Vuitton, Chanel, Marc Jacobs, Gucci, o que você quiser.

Um dia deixaremos para trás o Paraguai que há em nós para avançarmos ao estágio do capitalismo em que as pessoas pagam por serviços e produtos dentro do celular e dão menos importância aos badulaques feitos para empetecar os telefones.