OPINIÃO

Antônio Benetazzo: permanências do sensível

06/04/2016 17:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução

Durante duas décadas o Brasil viveu a violência e a opressão de um regime militar que, ao condenar a democracia à ilegalidade, exerceu poderes irrestritos sobre diferentes esferas da sociedade. Mesmo após trinta anos da abertura política, ainda processamos com dificuldade a memória desse sombrio período, sobre o qual resta muito a conhecer e a revelar.

Além da interdição no campo político, a ditadura também impôs imensos obstáculos à produção e à circulação de obras - naqueles anos que foram de intensa efervescência cultural. Com a censura e interdição da arte, a ditadura atacou a sociedade como um todo, já que privou indiscriminadamente os brasileiros do livre acesso as expressões artísticas e aos bens culturais.

Personalidade de múltipla atuação nos campos político e cultural, Antonio Benetazzo, militante e artista plástico, aliou sua intensa e variada produção ao engajamento político. Artista em diálogo com tendências da vanguarda pictórica, o militante foi morto por oficiais da ditadura aos 30 anos de idade, tendo o seu trabalho interrompido no período de maior maturidade.

Suas obras, as que sobreviveram graças à afetividade de amigos e familiares, refletem o cruel esfacelamento promovido pelos militares - violência, que ainda ecoa no presente, apesar da incessante cobrança dos familiares, da difusão das políticas publicas de memória e dos avanços das diversas comissões da verdade espalhadas pelo país.

Enterrado no Cemitério Dom Bosco, em Perus, local onde foi encontrada uma vala clandestina contendo mais de mil conjuntos ósseos, Benetazzo representa as inúmeras vidas ceifadas pelo aparato repressivo e pelos grupos de extermínio, que matavam não apenas por perseguição política, mas também por motivações higienistas, vitimando populações vulneráveis.

São pessoas que tiveram negados seus direitos de cidadania, seguidos do próprio direito à vida e, finalmente, post-mortem, do direito à identidade, em uma deliberada política de desaparecimento forçado, que permanece ativa nos dias atuais.

Na contramão dessa política de continuar a ignorar os desaparecidos políticos, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) da Prefeitura de São Paulo realiza o inédito projeto de resgate da trajetória e obra de Antonio Benetazzo.

Após quase dois anos de pesquisa e trabalhos que resultaram em um curta-metragem e na publicação de um livro, o projeto é coroado agora com a exposição "Antonio Benetazzo, permanências do sensível", inaugurada no Centro Cultural São Paulo (rua Vergueiro) no dia 1º de abril, quando se completam 52 anos do golpe.

Pela primeira vez, a população poderá conhecer a inovadora obra, lançada na clandestinidade em razão da violência do Estado. Ao revisitar e revelar a obra de um grande artista plástico até então praticamente desconhecido, restitui-se simbolicamente ao Brasil algo que lhe foi negado pela ditadura de 1964. Trata-se, ainda, de uma oportunidade singular para sensibilizar a população sobre o que significou viver sob regime autoritário. O conhecimento e a reflexão sobre esse período sombrio contribuem para a valorização da cultura democrática, para que a volta da ditadura não seja desejada, muito menos solicitada em faixas e cartolinas nas ruas e praças deste país.

Carla Borges, é Coordenadora de Políticas de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania

Marília Marie Goulart, é Coordenadora do Projeto Antonio Benetazzo e assessora da Coordenação de Políticas de Direito à Memória e à Verdade

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