OPINIÃO

O Tempo vira

27/01/2014 21:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Não é novidade para ninguém que o guarda-roupa muda no verão. Inclusive na Prefeitura do Rio. Há alguns anos, a cidade encoraja os servidores municipais, taxistas e motoristas de ônibus a usarem bermudas no trabalho durante a mais carioca das estações. Afinal, a despeito da tradição, terno e gravata são peças originárias do guarda-roupa europeu. Em nosso clima tropical, onde a sensação térmica já chegou a atingir 50 graus, tal formalidade pode chegar a comprometer a produtividade.

Mesmo assim, a timidez ainda predomina em relação ao conforto. O prefeito do Rio que foi à festa de Réveillon de bermuda ainda é notícia. Apesar do calor, era o único à vontade em meio aos smokings na festa de gala. A verdade é que o Clima rege nossas vidas. Na mesma época, no Hemisfério Norte, o presidiário que fugiu da cadeia terminou capturado por um agente imbatível: o chamado vórtice polar, ciclone vindo do Norte que tem congelado os Estados Unidos e provocado ondas de frio não vistas em duas décadas.

O Tempo já mudou muito ao longo dos milhares de anos, principalmente antes de habitarmos a Terra. Nossos modelos climáticos tentam prever o comportamento complexo das frentes de calor e frio e a ocorrência dos fenômenos naturais. Nossas vidas dependem disso. Desde a dança da chuva, houve enorme avanço na previsibilidade, principalmente de curto prazo, mas a verdade é que quando o tempo vira, "a chapa esquenta" -- ou esfria. E a Natureza não é de brincadeira.

Se não controlamos o Clima, podemos interferir em sua dinâmica. Recentemente, percebemos que nossa influência é maior do que se imaginava. As emissões de gases do efeito estufa produzidas pelo homem alteram a temperatura da Terra, o regime de chuvas e ventos, o nível do mar, a ocorrência de fenômenos naturais como furacões e tufões. A mudança desses fatores provoca deslizamentos, alagamentos, migrações, interfere nas colheitas, transforma em deserto áreas antes cobertas de verde. E vice-versa. As consequências são múltiplas e em enorme escala.

Hoje, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera supera as 400 partes por milhão, o nível mais alto dos últimos 800 mil anos. Pode ser insignificante quando comparado aos 4,5 bilhões de anos do planeta, mas o suficiente para comprometer nossa existência como humanos. Desde a era pré-industrial, essa taxa aumentou 40% devido ao uso indiscriminado de combustíveis fósseis e o desmatamento, principalmente. Durante muito tempo, poucos acreditaram que isso pudesse ter alguma consequência maior.

Mas as mudanças climáticas já são uma realidade e afetam vidas em todo o planeta. Principalmente nas cidades, onde hoje vive a maioria da população e sete em cada dez habitantes da Terra em quatro décadas. Altas recordes de temperatura registradas no Rio e em muitas cidades do planeta serão comuns nos verões em poucas décadas. Marés e ressacas irão subir e alcançar territórios nunca imaginados. Eventos naturais extremos, como o furacão Sandy em Nova York, tendem a ser mais frequentes e cada vez mais intensos.

As cidades têm de se preparar para esse novo cenário. Resiliência, um termo que veio da física, passou a ser utilizado por todos. Significa a capacidade de um sistema de manter suas funções primordiais após um choque ou impacto exterior. No planejamento urbano, significa se preparar cada vez melhor para para suportar impactos severos e muitas vezes inesperados. O Clima adora pregar suas peças.

Uma das melhores formas para isso é promovendo a cooperação. O que acontece em Nova York não deve ficar em Nova York. Deve ser compartilhado com o Rio, Pequim, Joanesburgo e São Paulo. E com as demais cidades do planeta que, cada uma à sua maneira, vivem os desafios de se tornarem lugares mais seguros e agradáveis para seus habitantes. As pessoas perceberam isso e se organizam em rede, compartilhando não somente problemas mas principalmente soluções. O corredor expresso de ônibus criado em Curitiba é batizado de Bus Rapid Transit e adotado em Los Angeles, Bogotá e Rio. Uma solução eficaz para ampliação do transporte público nas grades cidades do mundo.

Esse é o espírito da principal rede internacional de Megacidades, a C40. A organização é voltada para a promoção de políticas de sustentabilidade urbana nas principais metrópoles. A C40, cuja presidência acabo de assumir sucedendo o ex-prefeito Michael Bloomberg de Nova York, tem demonstrado que as cidades lideram pelo exemplo. Em 2012, os prefeitos participantes da organização se reuniram durante a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, e mostraram que caminham para reduzir suas emissões de carbono. O gesto foi considerado um dos resultados mais importantes das negociações em relação às mudanças climáticas.

O Tempo continuará ditando nossas vidas, mas não significa que devemos esperar a chuva passar de braços cruzados.