OPINIÃO

Aos poetas, a poesia

18/04/2016 11:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Centenas de anos atrás era comum uma pessoa exercer o papel de artista, de filósofo, físico, economista, matemático, e até de médico.

Há quem diga que nos tornamos mais limitados ou estúpidos, mas a verdade é que os problemas ficaram mais complexos.

O conhecimento acumulado pela raça humana hoje é simplesmente enorme. É impossível, por exemplo, uma pessoa ter conhecimentos profundos de biologia molecular, ciências da computação, "física da sociologia"... áreas de conhecimento relativamente recentes que usam um capital intelectual impressionante acumulado ao longo dos milênios pela raça humana.

Há algum tempo nosso querido Chico Buarque, autor de algumas das mais belas obras musicais do estoque cultural brasileiro, vem sendo criticado por seu posicionamento politico. Independentemente do conteúdo trocado entre as partes, dói ver a forma como o Chico foi abordado várias vezes em público.

Chico irá para história como um grande compositor de música popular e não politico (um sinal de inteligência) e nem economista. É realmente uma pena que não saibamos, como sociedade, discernir um do outro e não dar tanto peso a comentários que pessoas ventilam fora da sua área de competência. Como fazemos com nossos avós quando eles criticam as novas tecnologias.

Hoje fui ler a coluna do querido Luis Fernando Verissimo no Estadão para me distrair. Assim como sou fã do Chico como poeta, sou fã do Verissimo como escritor. Adoro o seu senso de humor, as metáforas sutis, o clima metafisico (ma non troppo) que ele cria nos textos, e a sua brasilidade que lembra um pouco o Nelson Rodrigues.

No texto, Veríssimo dá a entender - através de uma alegoria - que a história do "PT. Lula. Impeachment." é na verdade "... o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância."

Eu entendo o ponto do Verissimo, ainda que discorde dele. Da mesma maneira entendo o que faz o Chico apoiar o governo atual do Brasil, e não sinto raiva dele por isso.

Tanto o Chico, como o Verissimo, querem viver em um país com justiça social, uma utopia da qual ainda estamos muito longe. O socialismo promete entregar isso de uma forma mais imediata. Para potencialmente reforçar ainda mais o argumento do Verissimo, existe a irrefutável melhora dos indicadores sociais que ocorreu nos anos Lula.

Isso fecha um elo importante na cabeça de quem apoiou a proposta socialista inicial. Não é o foco de este artigo analisar quais dessas melhoras conferem mérito àquele Governo e quais não, mas o ponto é que a história da década passada reforça o apoio de quem já vem com uma predisposição a ver o socialismo como um modelo de governo viável. Quem do outro lado não enxerga e nega isso, não conseguirá sequer discutir e opta portanto pela polarização.

Se eu tivesse oportunidade, faria respeitosamente alguns contrapontos aos pontos de vista do Chico e do Verissimo.

Um deles é que muitas politicas sociais que foram praticadas anos atrás produziram resultados positivos imediatos, com efeitos colaterais que só são observados agora. A economia tem um ciclo muito mais longo e lento do que o de politicas. Uma metáfora é o tempo relativamente longo que o corpo humano demora para gerar altos níveis de colesterol, e o prazer imediato que temos ao comer alimentos gordurosos. Daria exemplos de outros países que, em diferentes momentos da história, tocaram uma agenda semelhante à tocada no Brasil na ultima década, e geraram a mesma sequencia de resultados bons seguidos de outros que anulam os primeiros. Há em tela um principio de sustentabilidade de politicas econômico-sociais, que também não é o foco aqui.

Outro é que a implementação dessas politicas durante época de bonança global foi magistral; mas por outro lado fazê-lo sem a contrapartida do lado da produtividade (e competitividade) da indústria foi um erro tão grande, que praticamente extinguiu as intenções iniciais. Aparece aqui também o efeito de politicas com efeitos positivos imediatos e negativos no futuro.

Aproveitaria para explicar a eles que a intromissão da presidente Dilma, a partir de 2011, na politica monetária do Banco Central e os seus estímulos diretos ao consumo - e não a "plutocracia conservadora" - estão por trás da inflação alta recente. E pior, que isso forçou o abandono por ela mesmo do seu plano de diminuir os juros no Brasil.

Se eles ainda estivessem me ouvindo, eu aproveitaria para explicar outros erros que amarraram para sempre a capacidade desta liderança de governar o país, entre elas: interferência em negócios de forma direta e não via regulação eficiente, desprezo à importância do mercado de capitais em funções essenciais na economia, inchaço do governo até o ponto de atrofia, e otras cositas mas.

Em corrupção e processo de impedimento eu preferiria não entrar. São temas menos técnicos e mais culturais e políticos.

Independente do rumo da conversa, eu continuaria como continuarei ouvindo e lendo os trabalhos desses grandes mestres da nossa cultura, exemplares em uma sociedade tão carente dela.

Aos poetas, a poesia. Aos economistas, a economia.

LEIA MAIS:

- New York Gênesis

- Os Brasis de Schrödinger

Também no HuffPost Brasil:

Personagens do Impeachment