OPINIÃO

O caminho que fez a Síria se tornar o que é hoje

"A violência vai continuar. Não há data para encerrar. O país deve sair muito pior do que entrou nessa guerra civil."

02/05/2017 18:55 -03 | Atualizado 02/05/2017 18:55 -03
Ammar Abdullah / Reuters

A Síria nunca foi um país democrático. Aliás, diga-se, democracia não é uma praxis do Oriente Médio, exceção talvez feita a Israel cujo acesso ao poder se faz por eleições regulares. No entanto, mesmo sob um regime de poder concentrado e dinástico era um Estado estável, laico e com razoável qualidade de vida. Agora, o que se tornou a Síria?

Damasco sempre representou o sonho de todos os árabes desde os primórdios do Islã. Embora a origem da religião remeta à Meca e Medina, tão logo morreu o profeta o centro do poder subiu ao norte quando se consolidou o primeiro califado, dos Omíadas. Tal importância assumida ainda no primeiro século do calendário islâmico jamais seria perdida pela glamorosa cidade através dos inúmeros califados que se sucederam.

O cenário político do Oriente Médio que ora vemos foi moldado nos arredores temporais da Primeira Guerra Mundial. Naquele momento o que levara os árabes à guerra foi o desejo de independência; viam Damasco como a sede de um sonho libertador que não se confirmou. Nas palavras de Thomas Edward Lawrence no clássico, Sete pilares da sabedoria: "Damasco sempre fora o apogeu de nossas incertezas."

Confiar nas palavras britânicas foi o maior dos erros dos líderes que conduziram os árabes: Os acordos foram traídos após a Grande Guerra. A independência não viera como sonhada e um novo contexto redesenharia a região criando Estados esdrúxulos no período entre-guerras.

A Síria é um dos poucos Estados justificáveis geohistoricamente na região. Nasceu logo após a Segunda Guerra, em 1946 e tal qual os demais jovens Estados árabes descaracterizados conviveria com sucessivos golpes de Estado até se consolidar em 1970 um regime estável, duradouro e oligarca comandado por Hafez Assad, do clã alauíta, cujo poder após sua morte seria transferido ao seu filho em 2000.

Não é difícil constatar que um Estado que tem a mesma família no poder há quase meio século dificilmente pode ser chamado de "democrático". Ao menos nos moldes ocidentais.

Da ditadura à tragédia

O simbolismo de Damasco com a consequente importância cultural construída historicamente fez da Síria uma peça chave no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio do pós-guerra, um país geoestratégico.

Alinhou-se à União Soviética na Guerra Fria e mantém laços fortes até os dias de hoje com a Rússia, a responsável maior pela manutenção do regime de Assad: não fosse isso o destino do presidente sírio provavelmente seria o mesmo de Kadafi ou Mubarak.

A crise atual da Síria é produto de dois fatos históricos recentes: a Guerra do Iraque (2003) e a Primavera Árabe (2011). Desde que explodiu a guerra civil no país em 2011, ao contrário do que talvez se esperasse inicialmente, a situação piorou drasticamente. Os sírios hoje vivem em franco desespero; os números falam por si: estima-se em 470 mil o número de mortes.

De acordo com o último relatório do Acnur, "Global Trends: Forced Displacement", a Síria é o país que apresenta o maior número de refugiados do mundo, 4,9 milhões, tal qual o de deslocados internos, 6,6 milhões. Dos 65 milhões de refugiados e deslocados atualmente, quase um quinto é composto de sírios.

Alguma dúvida se a situação é trágica? Em levantamento recente (2017), o ACNUR estimou em aproximadamente três milhões o número de crianças que nasceram entre 2011 e 2017, ou seja, não sabem o que é viver fora da guerra.

Os últimos acontecimentos – o episódio com armas químicas e o ataque às bases sírias por forças norte-americanas – agregam desalento a qualquer perspectiva otimista. O quadro é complexo demais e não se vê solução para a crise a curto prazo; Só sos ingênuos são otimistas.

O emaranhando geopolítico envolve atores internos e externos. Internamente o mosaico religioso ganhou contornos de ódio nos últimos anos quando a oposição sunita cansou-se da hegemonia alauíta. É público e notório a superioridade demográfica dos sunitas, mas a hegemonia sempre esteve em mãos alauítas que contam com a simpatia cristã.

Quase sempre, o que move uma guerra civil é ódio étnico, religioso ou ideológico. E a Síria, parece, caminhou para isso. Os distúrbios têm uma origem sectária: no plano interno, o país apresenta um nebuloso mosaico cultural com homogeneidade étnica, mas diversidade religiosa.

Do ponto de vista étnico os árabes perfazem mais de 90% da população, constituindo os curdos, uma minoria razoável de 6%. No âmbito religioso, o quadro torna-se nebuloso, pois há uma nítida maioria islâmica, igualmente de mais de 90%, porém dividida em várias correntes rivais: sunitas, xiitas, alauítas e drusos, além da minoria cristã, igualmente dividida entre ortodoxos, maronitas e católicos. Essa divisão religiosa se reproduz na hierarquia social e política do país.

A maioria religiosa não está no poder: a casa Assad é alauíta, assim como os principais postos do poder político e militar. Por anos o equilíbrio sírio pareceu justificar-se pelo fato da maioria absoluta não exercer o poder, preservando-se, assim, os direitos da minoria. As minorias alauíta (10%), cristã (10%) e drusa (5%), apoiam o atual regime: há relatos de padres e freiras rezando por Assad; temem pelo que poderá lhes acontecer se a maioria sunita subir ao poder.

Durante longo período o regime dos Assad portou-se como laico, preservado o secularismo no país, porém sempre empregando força repressiva contra a oposição. Na oposição há de tudo: desde liberais progressistas aos extremistas do jihadismo, passando por rebeldes armados não religiosos. Na vertente extremista paira uma guerra particular entre a Al Qaeda (Al Nusra) e o Estado Islâmico.

No contexto regional, a Síria é peça importantíssima no Oriente Médio e Mundo árabe. Está no centro do conflito árabe-israelense desde 1967 quando viu lhes serem tomadas as Colinas de Golan. Teve asserção na política libanesa desde a Guerra Civil de 1975 e aumentou nos anos 1980 via influência junto ao grupo Hezbholá. Com o Irã construiu importante aliança estratégica na frente anti-Israel, a conexão Damasco-Teerã, mas ao mesmo tempo as relações com a Turquia azedaram intensamente. Erdogan tem sua dose de responsabilidade na atual crise síria. Ao compor com o Irã teve em contrapartida a inimizade da poderosa e rica Arábia Saudita. Logo, no espectro regional a Síria tem três poderosos inimigos: Israel, Turquia e Arábia Saudita. Só o Irã lhe acolhe.

Quanto ao jogo do poder mundial o cenário é claro: o país está no centro de um braço de ferro entre Estados Unidos e Rússia. Por enquanto, Moscou tem levado a melhor, mas nos últimos dias, Donald Trump parece ter recolhido a opção isolacionista, (um retorno a James Monroe) para retomar a prática intervencionista que tanto caracterizou a potência americana a partir da Primeira Guerra. Num híbrido entre propaganda e práxis, Trump em uma semana atacou a Síria, rumou com seu poder naval para o Pacífico num tom altamente agressivo contra a Coreia e atacou células do Daesh no Afeganistão.

A violência vai continuar. Não há data para encerrar. O país deve sair muito pior do que entrou nessa guerra civil, mas não há previsões confiáveis quando isso irá ocorrer.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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