OPINIÃO

A encruzilhada turca

19/07/2016 16:05 BRT | Atualizado 29/01/2017 13:32 BRST
NOVO! DESTAQUE E COMPARTILHE
Destaque o texto para compartilhar no Facebook e no Twitter
ARIS MESSINIS via Getty Images
Pro-Erdogan supporters attend a demonstration in support to Turkish president at the Sarachane park in Istanbul on July 19, 2016. The Turkish army said on July 19 that the vast majority of its members had no links with the July 15 attempted coup and warned that the putschists would face severe punishment. The armed forces blamed the 'Fethullah Terrorist Organisation' (FETO) for the failed putsch, referring to Fethullah Gulen, a one-time ally turned foe of President Recep Tayyip Erdogan. Turkey's prime minister said on July 19 his government had sent four files to the United States, as Ankara seeks the extradition of US-based preacher Fethullah Gulen. / AFP / ARIS MESSINIS (Photo credit should read ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images)

Circulou pelas redes sociais do Brasil uma fina ironia divulgada pelo ex-presidente turco Abdullha Gul - que em 2007 foi eleito de forma indireta para a presidência do país -, em que insinua: "Na Turquia não se toma o poder do dia para a noite como na América Latina ou África."

Em que pese o respeito às normas institucionais serem questionáveis em ambos os continentes, as coisas não são bem assim, pois a Turquia não é nenhum modelo de democracia: por lá toma-se o poder via golpe, sim. E isso não é raro. Raro é ficar uma década sem golpe. Desde os anos 1950, a única década em que não houve golpe ou tentativa foi a primeira do presente século.

A Turquia moderna nasceu de um golpe de Estado desferido por Mustafá Kemal quando irrompeu-se contra o draconiano Tratado de Sèvres imposto pelas potências durante o rearranjamento territorial após a Primeira Guerra Mundial e que fora aceito pelo sultão. Naquele momento da história, a Turquia e seu território - construído ao longo de oito séculos - estavam fadados ao virtual desaparecimento.

Além de Inglaterra e França que traçavam as fronteiras do Oriente Médio ao seu bel prazer, oportunistas de última hora, como a Itália e a Grécia embarcaram ao lado dos vencedores e se preparavam para abocanhar parte do território turco. Kemal, que liderava o movimento Jovens Turcos, olhava atentamente para os espúrios acordos da Conferência de Paz de 1919 em que se via um sultão cambaleante e totalmente submisso.

O país alvo da divisão territorial, a Turquia, simplesmente não era ouvido nas negociações. Liderado por Kemal, o oficialato turco se rebelou: não aceitou Sévres, destituiu o monarca, pôs fim ao último califado, instituiu a República e forçou os aliados a um novo acordo, Lausanne, em 1923, que definiria as fronteiras atuais turcas. Assim, nascia a Turquia moderna e a primeira república do Oriente Médio. Como no Brasil, derrubava-se a monarquia e fundava-se a república por meio de um golpe militar.

Mustafá Kemal, que adotou o condinome Ataturk (pai dos turcos), governaria a Turquia desde a origem, em 1923, até sua morte em 1938. As primeiras eleições livres ocorreriam apenas em 1950. No entanto, o país sempre viveu à sombra de golpes de Estado que ocorreram nos anos 1960, 1970, 1980 e 1990. Logo, não é novidade alguma o que se passou agora em 2016.

Desde a fundação da república, o secularismo turco é tutelado por um exército atento às movimentações políticas. No âmbito interno, o que mais preocupa os militares é um possível retorno à ordem teocrática e para muitos, Erdogan justifica tal preocupação, embora isso seja pouco provável: o presidente turco já se mostrou um ás na política e não cometeria esse amadorismo. Prefere flertar com os regimes e grupos muçulmanos de países vizinhos, mas, não implementar tal modelo na Turquia (isso geraria o caos que ele não quer).

Logo, devemos considerar que no momento duas são as principais forças políticas da Turquia contemporânea: o Islã e os militares. O AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento)é a força política da religiosidade moderada. O partido foi astutamente construído, surgiu do ventre de uma organização religiosa radical, o RP (Partido do Bem Estar). Como o RP fora banido devido ao fundamentalismo arraigado, o AKP surgiu como uma opção "moderada". Seus líderes não querem incorrer no risco de ter o mesmo fim do partido antecessor, embora Erdogan tenha reduzido a força do judiciário turco a entidade responsável por intervir nos partidos.

O AKP é um partido islâmico moderado e defensor de valores liberais, muitos analistas o definem pelo enigmático termo fundamentalismo moderado. Desde 2002, domina a cena política do país e seu líder máximo, Recep Tyyip Erdogan cataliza as atenções. Foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 e, não podendo mais continuar no cargo devido a limites constitucionais, concorreu e venceu as eleições presidenciais daquele ano. Até então, a função de presidente da república na Turquia era figurativa: quem manda é o primeiro-ministro. A prioridade de Erdogan ultimamente é alterar as regras constitucionais e conceder mais poder ao chefe do executivo, no caso, ele mesmo.

A elite urbana turca, mais ocidentalizada e kemalista na essência, tem paúra do AKP e faz forte oposição à Erdogan que encontra apoio na parcela mais pobre e identificada com o discurso religioso. No fundo o que está em jogo na sociedade turca é um silencioso conflito entre o otomanismo e o kemalismo. Como "otomanismo" leia-se uma nostálgica remissão aos oito séculos de um dos maiores impérios de todos os tempos; considere que esse Império era um Estado teocrático. O kemalismo pôs fim a essa perspectiva teocrática iniciando o laicismo. Eis o cenário político turco contemporâneo visto em perspectiva.

Erdogan não esconde seus fortes vínculos ao tradicionalismo islâmico, sua admiração pelo período otomano, sua esposa é frequentemente vista em público com o véu islâmico, o que irrita os militares. Detalhe: quando fundou a República, Ataturk proibiu o véu e o fez, o famoso chapéu turco, no processo de ocidentalização que implementou. Abandonou, inclusive, o próprio alfabeto substituindo-o pelo latino. Os militares turcos são a expressão máxima do kemalismo e é por aí que devemos compreender a tentativa de golpe.

Contudo, há outros elementos e um deles é uma cisão no próprio seio do AKP. Muitos entendem que por trás do golpe esteja a ingerência de Fethullah Gülen, clérigo muçulmano e por anos aliado de Erdogan. Desavenças ideológicas levaram ao rompimento entre eles a ponto do clérigo tornar-se o maior inimigo do presidente que o acusa de "terrorista." Gülen, com seu discurso fundamentalista, passou a pregar fervorosamente por uma inferência mais ativa do Islã na política e arregimentar seguidores.

Construiu uma rede conhecida como Hizmet, ultranacionalista e religiosa, mas paradoxalmente aliada à cúpula militar. Acusado de conspirar contra o governo, é muito difícil que o golpe da semana passada não tenha ligação com Fethulla Güllen que, por sua vez, nega qualquer participação. Ele vive nos Estados Unidos, mas coordena instituições e associações culturais em vários pontos do planeta, inclusive, no Brasil.

A democracia turca sai enfraquecida do episódio. O país está dividido entre o secularismo e o islamismo, entre políticos religiosos e militares: religião e exército são atores políticos centrais no tabuleiro turco. O CHP, segundo maior partido, laico e social-democrata não é páreo para o AKP. Por sua vez, Erdogan não tem outra chance a não ser aumentar ainda mais o centralismo que já vinha exercendo e deve governar com mão de ferro daqui para a frente, pois sabe que o golpismo latente anda à espreita.

LEIA MAIS:

- O dilema europeu: Unidade x identidade

- O cenário turco e as explosões em Istambul

Também no HuffPost Brasil:

Militares tomam o poder na Turquia