OPINIÃO

Deixem a Preta Gil ser feliz para sempre!

15/05/2015 12:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
agnews

Já vi Preta Gil arrastar uma multidão em Salvador/BA de cima de um trio elétrico lotado de homem bonito, a maioria atores de TV, enquanto ela cantava os hits do Carnaval. Lá pelas tantas, elas soltou: "Sou mulher, tenho celulite sim, e sou feliz". Pelo jeito, isso incomoda muita gente.

Esta semana fomos bombardeados pelas imagens do casamento da cantora com Rodrigo Godoy. Como todo acontecimento do gênero envolvendo celebridade, era de se esperar a repercussão, haja visto que a cerimônia vinha sendo muito anunciada nos últimos tempos em diversas plataformas, mídias sociais, em ações promocionais feitas pela própria artista, criando um "buzz" em cima de ocasião tão especial.

Mas eis que as fotos da cerimônia religiosa cheia de pompa e da festa luxuosa repleta de famosos espalhadas pela internet em diversos sites e também nas redes sociais vieram acompanhadas de uma quantidade lamentável de comentários ofensivos em relação à cantora, à sua forma, características físicas e aos gastos do regabofe.

Particularmente não acho que celebridades precisem ser reverenciadas e enaltecidas o tempo todo. Pelo contrário, acredito que quem opta por ter uma vida pública e dela viver também tem de arcar com o ônus da fama. E creio que nossa mídia de celebridades sempre trilhou mais pela exaltação dos famosos, numa exposição negociada entre as partes, diferentemente do modo que atuam as mídias especializadas dos EUA ou Reino Unido. Por lá, os veículos de comunicação são muito mais "ácidos" nas suas abordagens e dispostos sempre a quebrar a privacidade no afã de sair na frente com furos de notícias sobre a vida dos famosos.

Mas o ódio vindo do público é algo sem analogia com a cobertura da mídia. Desde que se abriram os espaços para comentários de notícias nos portais e com a adesão em massa às redes sociais, a internet deu um fantástico e louvável poder às pessoas de se expressarem em tempo real sobre os mais diversos assuntos. Infelizmente, ao mesmo tempo, a distância real que o usuário mantém do destinatário de sua mensagem, o anonimato e a comodidade de se estar atrás de um teclado também despertaram num número cada vez mais crescente de pessoas o potencial de verbalizar seu amargor, preconceito, racismo ou acusações sem qualquer fundamento sobre os mais diversos temas. São os chamados "haters", gente que destila sua raiva por meio de comentários nada elaborados, achando que o fato de gerenciarem um perfil próprio na internet lhes concede o poder de julgar e ofender qualquer pessoa no mundo segundo seus próprios conceitos.

O programa da Band "CQC" criou recentemente um quadro muito elucidativo sobre este tipo de comportamento. A atração localiza nas redes sociais e nos comentários de notícias alguns destes "haters". O repórter marca uma conversa diante da câmera com o internauta selecionado para falar sobre um tema qualquer, e de repente ele mostra a postagem onde a pessoa xingou, ofendeu, acusou alguém de forma preconceituosa. Invariavelmente, as pessoas atribuem a "mancada" a um ato impulsivo, impensado, justificando-se, pedindo desculpas e reconhecendo o próprio erro. Vale a pena conferir.

Mas voltemos a Preta Gil. Filha de um dos maiores talentos da MPB desde o século passado, ela é negra, tem 40 anos e um filho de 20, é tipo "cheinha", casou-se com um homem mais jovem, bonito e sarado. Pior, ela tem dinheiro. Isso tudo junto e misturado despertou tanta ira que nem vou listar os insultos que li ao longo da semana que passou.

A cantora está sempre nos programas da TV Globo. No ano passado, ela estrelou uma campanha para Havaianas "Esta é a minha, qual é a sua?", criada pela agência AlmapBBDO. No comercial de TV, denominado "Fama", ela contava como começou sua fama de "pegadora". Com bom humor, lembrava uma vizinha que se incomodava com seu barulho. Preta chegava de madrugada em casa e gritava de alívio ao trocar o sapato de salto plataforma pelo conforto das sandálias de dedo. Certamente levou um bom cachê.

Gilberto Gil é um artista reconhecido internacionalmente e o fato de ter sido ministro da Cultura - cargo que deixou em 2008 - não significa automaticamente que sua herdeira tenha utilizado dinheiro público no seu casório, como tantos saíram acusando. Mesmo porque Gil ganha muito bem pelo seu trabalho - o show dele só com sucessos de João Gilberto foi o melhor que vi em 2014!

Da última vez que ouvi de um contratante, o cachê para um show de Gil beirava os R$ 200 mil reais - e já se vão anos. A mulher dele, Flora, organiza um camarote de sucesso só para convidados no Carnaval de Salvador onde os patrocinadores disputam cada espaço disponível. Enfim, dinheiro privado não há de faltar na família.

Também já soube que levou a assinatura de Preta Gil a coleção de roupas de maior sucesso de vendas da C&A - não, não foi uma coleção da Gisele Bündchen.

Sim, porque nossa população não é magra. A pesquisa "Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico", do Ministério da Saúde, feita em 2013, indica que 50,8% dos brasileiros estão acima do peso e 17,5% são obesos.

Sim, a maioria no nosso País é autodeclarada preta e parda: juntos, os conceitos de pardo e preto formam a população negra do país, que em 2013 era de 53%, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios) divulgados em 2014 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Preta tem a cara e o corpo da brasileira, e não precisa pedir desculpas por ter dinheiro e se sentir bem consigo mesma. Vivam e deixem-na ser feliz!

SAIBA MAIS:

O casamento ostentação de Preta Gil